segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande – “Dicionário dos ateus antigos e modernos”, por Sylvain Maréchal

De Sylvain Maréchal (1750-1803), filósofo francês herdeiro do materialismo das Luzes. Publicado pela primeira vez em 1800, teve uma nova edição lançada recentemente pela editora francesa Coda. A obra de Maréchal tem o mérito de mostrar o quanto o ateísmo materialista é uma opinião difundida, independentemente de seu reconhecimento consciente e declarado. É esclarecedor observar como os conceitos materialistas estão imiscuídos nas mais diversas opiniões religiosas.

Fiz abaixo uma seleção de alguns verbetes bastante interessantes do dicionário de Maréchal. Quando julguei necessário, acrescentei alguns comentários de minha autoria, entre colchetes.

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ATOMISTAS. Da filosofia ou do sistema dos átomos, como dos flancos do cavalo de Tróia, saíram todos os gêneros conhecidos de ateísmo.

AVERRÓES. Conhecido como o comentador por excelência de Aristóteles, assim como aquele que melhor reconheceu seu gênio, jamais admitiu uma causa primeira e nem pôde compreender esta divindade. Ainda que fundamentada, a opinião de Averróes sobre Aristóteles é, no fundo, ímpia, pois leva a crer que a alma, que é propriamente a forma do homem, morre com o corpo. Averróes negava que a criação fosse possível. Avicena era da mesma opinião.

BERKELEY. Bispo irlandês. Sua hipótese, ou, de forma mais geral, a filosofia dos idealistas, levada tão longe quanto ela possa ir, conduz diretamente ao ateísmo. [Maréchal tem razão; basta observar o curso que o fenomenismo seguiu na história da filosofia, passando por Hume e desembocando no positivismo lógico do séc. XX. “Esse est percipi”: então Deus, que não pode ser percebido, não existe...]

BRASIL. Os habitantes do Brasil não tinham religião: “nullos omnino colunt Deos” (Maffée).

BUDA. Antes de dar seu último suspiro, ele chamou seus mais caros discípulos e lhes assegurou que ele tinha escondido a verdade, até este momento, sob expressões figuradas e metafóricas; mas que ele não reconhecia realmente outros princípios eternos além da natureza, de onde tudo tinha saído, e para onde tudo retornava. Perguntou-se um dia ao legislador dos primeiros hindus: “Por que você não admite a existência de um Deus?” Ele respondeu: “A matéria ocupa todos os lugares. Eu não saberia onde colocá-lo”.

DESCARTES. “Quanto ao estado da alma após a morte, tenho bem menos conhecimento do que Digby... Confesso que, unicamente pela razão natural, podemos fazer muitas conjeturas em nosso favor e possuir agradáveis esperanças; mas nenhuma garantia” (carta a Elisabete). [Maréchal cita uma passagem de uma carta de Descartes à princesa Elisabete, sobre a probabilidade de uma sobrevivência da alma; Maréchal, no entanto, desperdiça o principal e deixa de mencionar as partes da filosofia cartesiana que são materialistas ou conduzem ao materialismo: refiro-me à sua física, particularmente à cosmogonia mecanicista e à fisiologia do animal-máquina. Segundo a cosmogonia cartesiana, todos os componentes do universo (seres animados e inanimados) têm uma origem material, natural; segundo a fisiologia do animal-máquina, todas as funções de um organismo (com exceção das puramente intelectuais) são explicadas pelo movimento da matéria (antivitalismo). Trata-se de uma via aberta por Descartes que conduziu ao materialismo antropológico de La Mettrie.]

HOBBES. Ao falar de Deus, diz: “Tudo o que não é nem corpo, nem acidente de um corpo, não existe. Não há substância distinta da matéria”.

HOMERO. Pode ser visto como um ateu, pois afirmava que a origem dos deuses era o oceano ou a matéria fluida.

JESUS CRISTO. “Este é meu corpo, este é meu sangue”, diz Jesus Cristo ao apresentar a seus apóstolos o pão e o vinho. E nós diremos: isso é materialismo puro. Um “Deus pão”, “pão Deus”. Certamente, Spinoza jamais levou tão longe as virtudes da matéria.

LUTERO. Lemos na “Perroniana”, p. 20: Lutero negava a imortalidade da alma e dizia que ela morria com o corpo. A prosperidade dos maus e a adversidade das pessoas de bem são coisas que desagradam tanto nossa razão, que ela conclui disso que Deus não existe ou que ele é injusto... Tal injustiça é provada por argumentos aos quais nenhuma razão e nem a luz natural podem resistir (“Do servo arbítrio”).

MATERIALISTA. Os teólogos abusaram tanto desta palavra, da qual eles jamais puderam fornecer ideias claras, que, enfim, ela se tornou sinônimo de “espírito esclarecido” (Helvétius). Os materialistas são verdadeiros ateus (Formey). Os ilustrados da China são materialistas por filosofia; as pessoas do povo o são por ignorância.

FILÓSOFOS antigos. Quase todos os antigos filósofos podem ser considerados ateus (J. F. Buddeus). Aqueles que se consagram à filosofia renunciam à crença em Deus (Cícero).

PORTUGAL. O horrível tremor de terra ocorrido em Lisboa, em 1755, povoou Portugal de ateus. Muitos dentre os melhores crentes não puderam conciliar esta catástrofe espantosa com a ideia de uma Providência.

TERTULIANO. Não é espantoso que Tertuliano tenha considerado a alma corporal, pois ele dava um corpo ao próprio Deus. Ainda que Deus, ele diz, seja um espírito, quem negará que ele seja um corpo? Um Deus desprovido de substância não seria nada.

TEÓFAGOS. Os deístas da seita dos católicos não deveriam perseguir os filósofos partidários de Spinoza e do materialismo. Pessoas que, todas as manhãs, comem seu Deus, na mesa de Eucaristia, não são espiritualistas de maneira alguma. Para comer seu Deus, é preciso crer num Deus material. Pobre espécie humana! Quantas loucuras passaram por sua cabeça!

2 comentários:

  1. Grata surpresa encontrar seu blog e saber que você ainda está ativo nesta era pós-orkut.

    Abraços,
    Eli

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  2. Obrigado, Eli! Sua visita é ainda mais surpreendente ;) É de fato uma era pós-Orkut, mas com o Orkut... A comunidade "Materialismo - Filosofia" ainda está a pelo vapor nesse site, embora pouco movimentada! Junto com a "sucursal" do Facebook, são todas iniciativas que se complementam...

    Abraços e volte sempre!

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