terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Erick Fishuk - Um movimento estudantil fora da realidade política e científica

(O texto foi montado a 6 de janeiro de 2012 e parece uma colcha de retalhos porque é a fusão imperfeita de dois textos menores com estilos e assuntos diferentes.)

Pode parecer hipocrisia e intrometimento um não militante opinar sobre o movimento estudantil (ME), mas eu queria compartilhar alguns pensamentos.

Primeiro, uma apresentação sobre minha filosofia pessoal. Sou apartidário e não vejo por que me encaixar ou me enquadrar neste ou naquele partido político, pois simpatizo tanto com propostas liberais quanto com bandeiras da esquerda. (Na verdade, se formos ver, socialismo e liberalismo são fruto de um mesmo paradigma ocidental mais geral, e há países como a Suécia que combinaram bem suas vantagens e alcançaram um alto nível de desenvolvimento.) Não tenho gastado tempo com reflexões sobre o que professo ou qual é a "melhor ideologia": simplesmente tento tirar alguma conclusão da minha prática pessoal e intelectual cotidiana e aperfeiçoá-la para aplicar em outras situações.

Em última instância, como uma pessoa que tem preocupações sociais dentro de si (ainda que não seja um militante em tempo integral), mas que dedica a maior parte do tempo à maturação científica, terminei por julgar que a melhor maneira de contribuir para um mundo melhor seria talvez o máximo desenvolvimento de meu talento na área e a sua disponibilização para o máximo possível de pessoas, independentemente de classe social ou cor partidária, desde que mantidas, como se exige na ciência histórica, a objetividade e alguma imparcialidade.

Muitos estão criticando o fato de o ME, no caso o da UNICAMP, ser "antidemocrático" e "fechado a sugestões". Porém, o que consegui experimentar me mostrou que mesmo os grupos mais "radicais" (ou "mais à esquerda", se quiser) estão sempre abertos a conversar, e com eles fiz muita amizade, mesmo não concordando com suas ideias. Porque, antes de tudo, deve-se ver, atrás do "direitista" e do "esquerdista", um ser humano com necessidades e sentimentos comuns aos nossos.

Talvez o problema não se limite às pessoas, ou talvez nem seja o caso. É fácil apontar na subjetividade dos outros a culpa por problemas coletivos, como fez Khruschov ao "denunciar" os crimes de Stálin em 1956. Isso me parece mais, numa observação primária e passível de verificação, uma crise estrutural do modelo de ME. Um modelo ultrapassado e que não corresponde mais às aspirações reais dos estudantes. Vou tentar explicar rápido.

O modelo atual do ME, ao que me parece, surgiu de momentos acres de lutas sociais e econômicas como os anos 1960, especialmente o ano de 1968, e os anos 1980, principalmente a segunda metade, fim da ditadura militar e agravamento da hiperinflação. Ao longo dos anos 1990, houve motivos para manter esse modelo, porque a direitização política e a privatização do público no Brasil eram evidentes.

Bem, na década passada a esquerda (ou uma das várias esquerdas) chegou finalmente ao poder. Primeira consequência: cooptação dos movimentos sociais, fruto da esperteza de Lula ou de quem pensava com (ou por) ele. Para quem acha isso conversa fiada, o exemplo do MST é ainda mais gritante. Consequência posterior: burocratização. O que era para ser fluido e dinâmico virou uma estrutura ossificada, sem contar a extrema "politização" do movimento (mais adiante volto a esse significado de "politização"). Tem benefício moral e material para quem está inserido na estrutura? Tem, sim, e não é questão de ofensa, é de assumir que, assim como nos sindicatos, os contestadores podem virar acomodados.

Mas longe da questão propriamente crítica, ou de "apontar o dedo na cara dos outros", há uma constatação grave. Muita coisa da mentalidade da "sociedade civil" mudou com duas coisas que, aceitemos ou não, o governo do PT trouxe junto: certo crescimento econômico e diminuição da pobreza. Isso se reflete nas atitudes: menos mobilização política ("comodismo", para quem quiser) e mais preocupação com questões intelectuais e de valor.

No que isso, acredito, se reflete no ME? Creio, muito pessoalmente, que ele ficou justamente parado nesse modelo programático e contestatório dos anos 1960-80, cujo contexto é bem diferente do de hoje. Antes, se tinha do que reclamar. Hoje, a maioria dos jovens, reconheçamos, não têm. Por isso, certamente, apenas 20% dos estudantes se preocupou em ir votar nas eleições para a gestão do DCE-UNICAMP de 2011-2012. Isso não seria ruim? Não causaria despolitização do corpo discente? Depende do ponto de vista. Primeiro, deve-se lembrar que o ME sempre carregou, e ainda carrega, as bandeiras mais progressistas em todas as áreas. É ótimo isso, e deve continuar assim. Mas a "estudantocracia" infelizmente, e vejo isso pelas cartas-programa que circulam aí sempre, ficou muito presa a propostas com os quais muitos não se identificam, porque os estudantes de hoje vivem na abastança (considero também os estudantes de baixa renda, mas quem geralmente entra em universidades públicas?), e não naquela necessidade extrema de manifestação social.

Daí isso se refletir também no que a maioria quer: contestar o capitalismo? depor o reitor? fazer barricadas ou piquetes? ocupar a DAC e a reitoria? Nada disso: "Eu quero" garantir meu estágio, meu emprego, meu diploma, minha pós, em resumo, "eu quero ordem e progresso". Ordem acadêmica, sobretudo da DAC para regularizar "meus" documentos, e progresso financeiro. (Não que eu necessariamente compartilhe dessa mentalidade, é apenas uma constatação.) E por que não, também (e agora coloco minha opinião sincera), progresso intelectual? Isso implica também botar mais técnica em detrimento da política (digo a política no sentido de "conchavos" - eis o sentido de "politização" a que me referia -, e não de conscientização social), e se muitos estudantes de hoje "só querem estudar", isso não se reflete nas propostas das chapas: falta a vontade de colaborar no progresso científico, no avanço do conhecimento, que também é uma forma de fazer política. O cientista é por natureza um político. Infelizmente, o ME separou as duas coisas, e por isso temos uma discência tão pobre: políticos não científicos e cientistas não politizados.

Sim, me dirão, mas o conhecimento não deve servir à comunidade? a universidade não deve sair para fora dos muros (alusão, aliás, ao nome de uma das chapas que concorreu ao DCE)? Claro, e é para isso que o cientista deve lutar. O que não se pode fazer, como parece estar acontecendo, é marginalizar a necessidade real de inserção acadêmica e progresso intelectual dentro da própria universidade e de nós mesmos. Senão, que diabos de interventores teremos? Políticos sem técnica? E transformar a realidade como, no quê? Não digo para "despolitizar" a ciência, mas tornar a política estudantil mais realista e ligadas às necessidades reais do contexto atual e menos semelhante ao drama fidalguista que vemos em Brasília.

Parece que o campo da produção científica, inclusive a filosofia e as ciências humanas, hoje está se vendo, ao menos no Brasil, num dilema sério. Por um lado, a produção mais séria, avançada e eficiente não se presta ao serviço as pessoas que mais precisam (mais pobres ou necessitadas, se quiser) e atende apenas a interesses de lucro privado; em outras palavras, quem não tem continua sem, e quem já tem muito fica com mais ainda. Por outro lado, a parte mais progressista e socialmente comprometida do meio acadêmico, e mesmo dos movimentos práticos, parece relegar o pensamento e a prática científicos a segundo plano quando se trata de questões políticas e termina por se deixar guiar pelo dogmatismo ideológico e pelo praticismo grosseiro de algumas correntes da esquerda; isso se nota muito entre os estudantes "doutrinados" que pensam ser a militância a principal parte da vida universitária.

Nos dois casos, o pensamento científico continua encastelado nas faculdades com resultado conhecido: ensino básico conteudista (porque esse pensamento continua como privilégio de acadêmicos e não é passado para os jovens), elitismo e privilégio da memorização (e não da reflexão crítica ou da criatividade) na seleção dos futuros universitários e sujeição e manutenção da maioria da população na ignorância, no preconceito e na superstição.

Eu penso que se faz cada vez mais necessário alterar os paradigmas segregadores da cultura ocidental, ao menos da brasileira, e fundir ciência, política e "povo" numa só unidade orgânica. Não se distinguiria o momento em que estivéssemos fazendo ciência ou política: o trabalho técnico-intelectual seria uma forma de transformar a sociedade, e as necessidades sociais (e não os interesses privados das grandes empresas ou corporações capitalistas) condicionariam aquilo que deveria ser produzido pela ciência. Em outras palavras, o cientista seria um político e o político seria um cientista, mas o "povo" é que atuaria simultaneamente como político e cientista; não haveria mais aquela separação entre academia, Estado e "sociedade civil"/população.

Isso só se daria por meio da universalização do ensino, sua total administração pela sociedade e sua reforma completa, desde a creche até a pós-graduação, com uma integração completa entre todas as partes, tendo como fins não a "aprovação no vestibular", mas o equilíbrio psicológico do estudante, sua inserção na sociedade, o conhecimento dos mecanismos dessa sociedade e o desenvolvimento do pensamento criativo e científico não apenas para reproduzir conhecimentos prontos, mas para produzir novos por meio de uma análise correta da realidade.

Poderia haver tanto dinheiro estatal quanto particular na empreitada (sem aquela distinção dogmática entre "público" e "privado" que a esquerda muitas vezes faz), mas com respeito aos interesses da comunidade, e não dos financiadores. É um projeto utópico, talvez, mas que deve permanecer como meta máxima e ideal da marcha para a transformação estrutural da sociedade brasileira.

Muitos vão contestar o que eu disse, mas me coloco de uma vez para não parecer omisso. Apenas espero que toda a comunidade acadêmica possa crescer junto e enxergar também, como eu disse, cientistas (e por que não também funcionários, que tanto nos ajudam?) com suas falhas humanas, por trás desta ou daquela opinião política, desta ou daquela roupagem burocrática.

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