domingo, 29 de abril de 2012

Paulo Gabriel ‒ Cerco estrangeiro e liberdade nos países socialistas


(Algumas palavras interessantes de meu colega de Facebook, Paulo Gabriel, historiador e estudioso da URSS como eu, Erick Fishuk, em mensagem privada em que debatíamos várias afirmações, em grupos da rede social, a respeito da ausência de liberdades civis nos países socialistas. Coloquei algumas notas explicativas e dei um título, e a peça pode ser incompleta e lacunar, mas consegue abrir um bom debate.)

A ideia de governo unipessoal, para mim, é errônea por si só, principalmente após o surgimento dos grandes Estados modernos. Acho que no caso da URSS, a ditadura foi sempre do Partido, sempre da vanguarda revolucionária que tentava guiar o país rumo ao socialismo. No caso de Stálin, a URSS passou por épocas desesperadoras em que ela se encontrava a um passo do extermínio, com o fascismo se espalhando pelas bordas da nação. Quando o NKVD (1) descobriu redes de espionagem sinistras da Alemanha e do Japão, o país entrou em desespero como um todo. E os excessos foram regra geral, desde a população civil até altos escalões do governo. (2) No entanto, quase acabaram resultando numa destruição completa da quinta-coluna (3) na URSS, coisa que na França, por exemplo, não foi feita, tendo sido o país entregue de bandeja para os nazistas.

Eu acho que as pessoas, de modo geral, dão muito pouco valor ao cerco imposto não só à URSS, mas também a boa parte dos países socialistas do mundo. Elas acham que bloqueios econômico-tecnológicos e ações agressivas de serviços secretos não são o bastante para abalar uma nação, ou mesmo acham que as ações de sabotagem feitas pelos serviços secretos ocidentais não passam de teoria da conspiração. Tem-se uma visão muito idealista da política, muito romântica, na verdade. Eu concordo com o historiador estadunidense William Blum, (4) quando ele diz que nenhuma experiência socialista na história foi deixada em paz para se desenvolver do jeito que bem entendia: cada uma delas teve que se preocupar, primeiramente, em se defender dos agressores externos, e muitas sucumbiram sem conseguir se manter por longo tempo. E essa existência voltada à sobrevivência e à defesa de seus regimes foi um fator fundamental que moldou cada uma das experiências socialistas de forma autoritária ou, pelo menos, gerou um certo cerceamento de direitos ou uma tendência à militarização.

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Notas

(1) NKVD: Naródni Komissariat Vnútrennikh Del, o Comissariado do Povo para Assuntos Internos de 1934 a 1946, que se tornou em seguida o MVD (ministério) e, desde 1954, o KGB (em russo, Comitê de Segurança do Estado). Segundo Paulo Gabriel, a principal fonte, entre outras, de sua opinião sobre o NKVD é o livro Life and Terror in Stalin's Russia, de Robert W. Thurston, historiador estadunidense, crítico do "paradigma totalitário" de análise da URSS.

(2) Referência à segunda metade dos anos 1930, mais especialmente aos anos de 1936 a 1938.

(3) Conforme o Dicionário Aurélio, pessoa ou grupo, estrangeiro ou nacional, que atua sub-repticiamente num país em guerra ou em via de entrar em guerra com outro, preparando ajuda em caso de invasão ou fazendo espionagem e propaganda subversiva. Geralmente também se refere aos setores de direita que apoiam o alinhamento de seu país a uma ou outra grande potência capitalista.

(4) Escritor de esquerda nascido em 1933, crítico da política exterior dos EUA e de seus excessos ao redor do mundo, opositor da Guerra do Vietnã e da "guerra contra o terror", editor da imprensa alternativa e afinado ideologicamente com Noam Chomsky e Ralph Nader.

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