quarta-feira, 27 de junho de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande ‒ Há uma alternativa viável à seleção natural?


É notável como Darwin reconhece, no meio dos animais e das plantas, sua própria sociedade inglesa, com sua divisão de trabalho, sua concorrência, suas aberturas de novos mercados, suas ‘invenções’ e sua ‘luta pela vida’ malthusiana.

Karl Marx

Toda a teoria de Darwin baseada na luta pela vida é simplesmente a transferência, da sociedade para a natureza animada, da teoria de Hobbes do bellum omnium contra omnes e mais ainda: da teoria burguesa da livre competição e da teoria malthusiana sobre a superpopulação.

Friedrich Engels


Introdução

Charles Darwin (1809 – 1882) foi autor de duas contribuições científicas de valor inestimável. Na Origem das espécies (1859) e em diversas outras obras, o naturalista inglês, além de provar o fato da evolução (o transformismo em sentido lato), propôs um mecanismo para explicá-lo: a seleção natural. Para muitos, a ideia de seleção natural foi sua maior contribuição. No entanto, a mesma não teve uma boa recepção na época de Darwin, e, nas décadas em torno de 1900, foi eclipsada por modelos alternativos que a rejeitavam completamente ou confinavam-na em papéis secundários.

Apesar de redescoberta nas décadas de 1930 e 1940, pelos teóricos do chamado neodarwinismo ou teoria sintética da evolução (a combinação do selecionismo com a genética moderna), e apesar de gozar, hoje, de uma aceitação praticamente universal na comunidade dos biólogos evolutivos, a ideia de seleção natural continua a ser depreciada por uma multidão de críticos.

Nas palavras de Gould,

Em apenas uma década, ele [Darwin] convenceu a intelectualidade da existência do evolucionismo. Entretanto, enquanto estava vivo, sua própria teoria da seleção natural nunca chegou a obter popularidade. Só na década de 40 do nosso século é que passou a predominar e, mesmo hoje em dia, embora constitua o núcleo da teoria evolutiva, é mal interpretada, mal aplicada e citada erroneamente. (1)

Este artigo se propõe a analisar um tipo recorrente de objeção ao darwinismo, segundo a qual a ideia de seleção natural seria somente um reflexo da sociedade capitalista da época de Darwin, e a discutir a viabilidade dessa ideia como a principal explicação das mudanças evolutivas.


O duplo legado de Darwin

A grandiosidade da obra científica de Darwin apresenta mais de uma face. Certa vez, o geneticista inglês William Bateson (1861 – 1926) afirmou que, para alguns, a maior contribuição científica de Darwin foi a teoria da seleção natural, ao passo que, para outros, dentre os quais o próprio Bateson, seu mérito residiria no fato de ele ter sido o naturalista que provou de maneira cabal a ocorrência da transformação das espécies. (2) Bateson, biólogo evolucionista e grande admirador de Darwin, desprezava profundamente a ideia de seleção natural.

Na Introdução de A descendência do homem, Darwin distingue os dois aspectos de sua contribuição científica: “O único objetivo desta obra é considerar, primeiramente, se o homem, como todas as outras espécies, descende de alguma forma pré-existente; em segundo lugar, o modo de seu desenvolvimento”. (3) Mais adiante, no mesmo livro, Darwin expõe de forma ainda mais clara o duplo significado de sua teoria: “Tive dois objetivos distintos em vista, primeiramente, mostrar que as espécies não foram criadas separadamente, e, em segundo lugar, que a seleção natural tem sido o principal agente de modificação”. (4)

Ora, a comprovação do fato da evolução, por si só (independentemente da validade do princípio da seleção natural), daria a Darwin o direito de ser enterrado ao lado de Isaac Newton na abadia de Westminster, como o autor de uma das mais importantes teorias científicas da história.

Quem somos? De onde viemos? Se o valor de uma teoria científica é medido pela sua capacidade de fornecer respostas às questões fundamentais da existência, podemos afirmar que o estabelecimento da genealogia da espécie humana foi a maior conquista intelectual de todos os tempos. A ideia de nossa ancestralidade simiana penetrou em todas as consciências e modificou profundamente o autoconceito formado pelo ser humano. Portanto, ainda que a seleção natural seja um princípio inoperante na explicação das mudanças evolutivas de grande escala (macroevolução), o mérito incomparável da teorização de Darwin estaria assegurado. No entanto, todas as evidências mostram que a seleção natural está longe de ser um princípio obsoleto no quadro teórico das mudanças macroevolutivas.


Darwin e Malthus

A ideia de seleção natural não surgiu do nada no cérebro de Darwin, mas evoluiu de concepções prévias que foram formuladas em solo britânico. De acordo com o relato fornecido pelo próprio Darwin em sua Autobiografia, a ideia surgiu em decorrência da leitura do Ensaio sobre o princípio da população do economista inglês Thomas Malthus, publicado em 1798. (5) Malthus sustentava que quaisquer populações (de pessoas, animais ou plantas) crescem em progressão geométrica, ao passo que os meios de subsistência crescem somente em progressão aritmética. Em decorrência da superpopulação, a maior parte dos indivíduos morre sem deixar descendentes. Mas, na ocorrência da pressão populacional, quais são os indivíduos que prosperam? Na Origem das espécies, Darwin estabelece a conexão entre a variabilidade hereditária dos seres vivos e o princípio populacional de Malthus. Os organismos produzem mais descendentes do que aqueles que podem sobreviver, e as variações que constituem melhores adaptações favorecem a sobrevivência e a reprodução de seus portadores:

Em virtude da luta pela vida, qualquer variação, por menor que seja e seja qual for a causa de onde provenha, se for em algum grau proveitosa a um indivíduo de qualquer espécie, em suas relações infinitamente complexas com outros seres orgânicos e com a natureza externa, favorecerá a preservação desse indivíduo, e será geralmente herdada por seus descendentes. Os descendentes também terão, assim, uma melhor chance de sobreviver, pois, dos muitos indivíduos de uma espécie que nascem periodicamente, somente um número reduzido pode sobreviver. Chamei a este princípio, pelo qual cada pequena variação, se útil, é preservada, pelo termo de Seleção Natural, para assinalar sua relação com o poder humano de seleção. (6)

A luta pela vida é o corolário do aumento populacional dos seres vivos, e as pequenas variações úteis à sobrevivência dos indivíduos são transmitidas aos seus descendentes. Nas palavras de Darwin, “Trata-se da doutrina de Malthus aplicada com força redobrada a todo o reino animal e vegetal; pois neste caso não há aumento artificial de alimentos, e nem restrição por prudência ao casamento”. (7)


O eclipse do darwinismo

O eclipse do darwinismo é a expressão que o biólogo evolucionista inglês Julian Huxley (neto de Thomas Huxley, amigo e defensor de Darwin) cunhou para designar o período que antecede a síntese evolutiva das décadas de 1930 e 1940, em que a teoria de Darwin foi obscurecida por modelos rivais. (8) É também o título de um livro de Peter Bowler, historiador da ciência que elabora uma descrição das teorias da evolução antidarwinianas que estiveram em voga nas décadas por volta de 1900: evolução teísta, lamarckismo, ortogênese e saltacionismo. Bem, o que significa dizer que, durante um determinado período da história, o darwinismo foi eclipsado? Huxley e Bowler estariam dizendo que o próprio fato da evolução havia sido rejeitado, e que uma parcela significativa da comunidade científica havia adotado o criacionismo?

De forma alguma. O obscurecimento incidiu somente sobre um dos aspectos do duplo legado darwiniano: a teoria da seleção natural, de modo que o fato da evolução foi defendido pelos homens de ciência que rejeitaram o mecanismo explicativo proposto por Darwin. Embora o eclipse do darwinismo seja propriamente um fenômeno das décadas em torno de 1900, vários contemporâneos de Darwin foram hostis à ideia de seleção natural: Thomas Huxley, Marx e Engels, por exemplo, professaram a evolução por meio de saltos. Ainda nos dias de hoje, não são raros os intelectuais que se comprazem em impugná-la.

O fato é que se tornou vergonhoso negar a existência do transformismo: algo que seria equivalente a ignorar a esfericidade da Terra. Mas, segundo consta, ainda é possível atacar o caráter “mecanicista e brutal” do darwinismo (entendido como a teoria da seleção natural) e defender alternativas mais suaves à visão da “natureza rubra em seus dentes e garras” expressa pela frase de Alfred Tennyson. (9) Como se a natureza tivesse o dever de adequar-se às propensões subjetivas da espécie humana.

Edwards explica:

O que Darwin fez foi apresentar uma quantidade enorme de evidências em favor do fato da evolução e sugerir um mecanismo pelo qual ela ocorreria. O mecanismo era, é claro, a seleção natural, e foi em torno desta hipótese que muitas das controvérsias giraram nas décadas seguintes, o fato da evolução já tendo sido aceito rapidamente pela maioria dos biologistas (contudo, um pouco mais lentamente pelo público em geral). (10)


Darwin, o capitalismo e a falácia genética

Há um subterfúgio retórico que amiúde é utilizado para desqualificar o darwinismo: a acusação de que a teoria darwiniana da seleção natural apenas reflete a ideologia burguesa da sociedade inglesa do século XIX. Ela já havia sido feita por Marx e por Engels, os quais, apesar disso, foram entusiastas do evolucionismo materialista (anticriacionista) de Darwin. (11) Em carta a Engels de 18/06/1862, Marx declara: “É notável como Darwin reconhece, no meio dos animais e das plantas, sua própria sociedade inglesa, com sua divisão de trabalho, sua concorrência, suas aberturas de novos mercados, suas ‘invenções’ e sua ‘luta pela vida’ malthusiana”. (12) Na Dialética da natureza, Engels sintetiza o juízo do materialismo histórico acerca do darwinismo:

Toda a teoria de Darwin baseada na luta pela vida é simplesmente a transferência, da sociedade para a natureza animada, da teoria de Hobbes do bellum omnium contra omnes e mais ainda: da teoria burguesa da livre competição e da teoria malthusiana sobre a superpopulação. (13)

Marx e Engels rejeitaram a mais darwiniana das ideias darwinianas, a ideia de seleção natural. Apenas o transformismo (o fato da evolução) e o materialismo (a antiteleologia) de Darwin foram conservados pelos dois alemães, que se empenharam em encontrar um substituto para o mecanismo evolutivo “burguês” defendido pelo naturalista inglês.

Em 1866, Marx agarrou-se à malfadada teoria do francês Pierre Trémaux (1818 – 1895), autor de Origem e transformações do homem e dos outros seres (1865), obra que pretende ser uma refutação do darwinismo. Trémaux não aceitava a ideia de seleção natural e propunha a teoria estapafúrdia segundo a qual as espécies eram formadas pela natureza dos solos. (14) Após aderir à perspectiva de Trémaux, Marx escreveu a Engels (07/08/1866) que a raça eslava adquiria feições tártaras devido à influência “da formação geológica predominante na Rússia”. (15) No entanto, Trémaux e Marx não explicavam como se operava a influência mágica dos terrenos sobre a formação das espécies, sem que houvesse a filtragem e a acumulação de pequenas características úteis à sobrevivência dos organismos. Isso não impediu que Marx escrevesse a Ludwig Kugelmann (09/10/1866) que Trémaux representava “um progresso em relação a Darwin”. (16) O fato é que o trabalho do naturalista francês caiu em total descrédito científico. De acordo com Allan Megill, “Trémaux e seu livro estão agora quase que completamente esquecidos, e merecidamente: o livro, que procura correlacionar a evolução biológica com diferentes tipos de solo, não teve absolutamente nenhum valor científico”. (17) Régis Ladous relata que “Trémaux acumulava, sem fundá-las sobre outras provas além das opiniões de viajantes, as afirmações mais espantosas: que, por exemplo, os negros eram degenerados, tese que Marx reproduziu sem crítica”. (18) Com efeito, numa carta a Engels de 07/08/1866, Marx afirma que “O tipo negro comum é somente a degenerescência de um tipo muito superior”. (19) Em sua resposta a Marx, o próprio Engels admite que só encontrou uma coisa nas especulações de Trémaux, “uma falta de juízo crítico e ideias insustentáveis”. (20) Marx não menciona mais Trémaux após outubro de 1866. (21)

Embora criticasse a teoria de Trémaux, Engels engajou-se em especulações não menos selvagens. Apegado à lei dialética da transformação da quantidade em qualidade, Engels opõe ao darwinismo a teoria dos saltos qualitativos que pontuam as modificações graduais quantitativas. (22) É na póstuma Dialética da natureza que encontramos a mais significativa apreciação engelsiana do darwinismo. Aqui, Engels rejeita a seleção natural como causa da evolução e propõe, em seu lugar, o mecanismo “lamarckiano”, segundo o qual o ambiente é a causa da variação orgânica. (23) A concepção materialista dialética, portanto, combina o saltacionismo com a crença na herança dos caracteres adquiridos. Gueórgui Plekhánov (1856 – 1918), com efeito, enalteceu os trabalhos do holandês Hugo de Vries (1848 – 1935), cuja perspectiva saltacionista contrariava o gradualismo darwiniano e confirmava a dialética da natureza formulada por Engels. (24)

O ucraniano Trofim Lyssenko (1898 – 1976) é provavelmente o maior expoente da doutrina biológica do materialismo dialético. Diretor do Instituto de Genética da União Soviética a partir de 1940, Lyssenko dominou o ensino e as pesquisas biológicas durante o governo de Stálin. Com base nas ideias de Ivan Mitchúrin, Lyssenko declarou guerra à genética ocidental, associada aos interesses reacionários da burguesia, e propôs uma forma de lamarckismo chamado de “darwinismo criador”, segundo o qual a transformação das espécies ocorre por meio de saltos, e a “hereditariedade das propriedades adquiridas pelo organismo no curso de sua vida é possível e necessária”. (25)

Ora, há algum fundamento na ideia de que a teoria da seleção natural é apenas um reflexo da sociedade em que viveu Darwin? Para analisar o caso em questão, assumamos, de imediato, a tese dos acusadores: Darwin realmente construiu sua teoria (da seleção natural) com base nas ideias liberais da sociedade inglesa do século XIX. Pois bem, há somente uma questão relevante: a ideia de seleção natural, independentemente de sua origem (psicológica ou socioeconômica), é verdadeira? Trata-se de uma teoria válida (verificada empiricamente) para explicar as características dos seres vivos? Todas as especulações sobre a gênese de uma teoria são supérfluas e não dizem respeito à sua validade intrínseca. É certo que a origem de uma ideia pode ser determinada por fatores psicológicos, econômicos e sociais, mas seria falacioso estabelecer uma relação entre a esfera do conhecimento objetivo e a esfera dos condicionamentos subjetivos.

Atualmente, opiniões semelhantes às de Marx-Engels continuam a ser reproduzidas por uma série de críticos pouco filosóficos. O novaerista Beto Hoisel, embora veja com horror o materialismo histórico e as tentativas de implantação do socialismo, endossa o juízo de Marx-Engels sobre o darwinismo:

Uma interpretação cínica do sucesso rápido do darwinismo na segunda metade do século 19 destaca o quadro socioeconômico daquela época, dominado pelo espírito de competição da burguesia industrial em fase de expansão, que recebeu o darwinismo como a ideologia perfeita para justificar as suas práticas competitivas com “respaldo científico”. Segundo essa interpretação, o darwinismo é um construto oriundo da ideologia burguesa, quando as empresas competiam vigorosamente e as nações buscavam expandir seu Lebensraum (espaço vital) econômico. Assim, um efeito velado do darwinismo é seu papel tranquilizador da consciência burguesa, ao lhe oferecer um simulacro de ética, apoiada numa justificativa científica, para as práticas de competição predatória do capitalismo. (26)

Hoisel, no entanto, além de cometer a falácia genética, enuncia um disparate do ponto de vista histórico: como observou Gould, “enquanto [Darwin] estava vivo, sua própria teoria da seleção natural nunca chegou a obter popularidade. Só na década de 40 do nosso século é que passou a predominar”. (27) Como sabemos, Thomas Huxley, um dos chefes da ciência britânica do século XIX, menosprezava o papel da seleção natural como mecanismo explicativo e defendia o saltacionismo. (28)

O lamentoso Máximo Sandín, para quem o darwinismo é a causa de todos os males do mundo, não é capaz de distinguir o aspecto científico (epistemológico, racional) do aspecto sociológico de uma teoria. E Sandín, como Hoisel, sequer é exato do ponto de vista histórico: “O grande êxito que obteve o livro A origem das espécies pela seleção natural foi devido ao fato de que Darwin, influenciado pelas ideias econômicas de seu tempo, utilizou-as para explicar as relações entre os seres vivos na Natureza”. (29) Não é difícil perceber o irracionalismo decorrente dessa postura: a psicologização e a sociologização da ciência.

Consideremos o exemplo de um biógrafo psicologista que vincula a teoria newtoniana da gravitação universal a uma hipotética tendência homossexual de seu autor. Por acaso uma teoria deixa de ser verdadeira quando sua gênese psicológica é desvendada? Os satélites artificiais deixariam de entrar em órbita por causa do caráter sexual de Newton? De maneira análoga, por que as tendências liberais de Darwin afetariam a validade objetiva do princípio da seleção natural? Como afirmou Dennett, “a ideia de Malthus de que Darwin precisava é puramente lógica. Nada tem a ver com ideologia política, e pode ser expressa em termos bastante gerais e abstratos”. (30)

Portanto, a origem psicológica ou sociológica de uma crença é irrelevante para a determinação de seu valor racional. Francis Crick, ganhador do prêmio Nobel e pai da genética moderna, admitiu estar sob a influência de LSD quando concebeu a estrutura de dupla hélice do DNA em 1953. No entanto, quem desqualificaria a objetividade do conhecimento biológico com base nas características psicológicas de sua origem? Não é evidente que o modelo elaborado por Crick (em conjunto com James Watson) é verdadeiro porque reflete de maneira adequada a realidade objetiva, independentemente de sua origem psicológica? Se ninguém ousa contestar a objetividade do modelo que representa a molécula do DNA, por que o background capitalista de Darwin é utilizado para justificar a rejeição da ideia de seleção natural?


A seleção natural foi verificada na natureza?

Diversas observações confirmam a ocorrência, na natureza, de mudanças evolutivas causadas pela seleção natural. A especiação de tentilhões nas Ilhas Galápagos é paradigmática. As Galápagos são ilhas oceânicas situadas a cerca de mil quilômetros da costa da América do Sul (o ponto continental mais próximo é o Equador). Diferentemente das ilhas continentais, as ilhas oceânicas nunca estiveram conectadas ao continente, e surgiram como vulcões ou recifes de coral (as Galápagos têm origem vulcânica).

Um conjunto de fatos demonstra que as espécies endêmicas encontradas nas Galápagos foram produzidas por meio da seleção natural. Primeiramente, as ilhas oceânicas são desprovidas de vários tipos de espécies nativas encontradas em continentes e ilhas continentais. (31) Nas Galápagos, por exemplo, não há mamíferos autóctones, anfíbios e peixes de água doce. As espécies lá encontradas – plantas, répteis, aves e insetos – são justamente aquelas que, de alguma forma, são capazes de atravessar longas distâncias marítimas para colonizar as ilhas oceânicas. Aves, por exemplo, são capazes de voar e podem carregar em seu trato digestivo sementes de várias espécies de plantas. Anfíbios e peixes de água doce, em contrapartida, não sobrevivem na água salgada. Até mesmo répteis, ocasionalmente, puderam alcançar ilhas oceânicas, provavelmente por meio de massas desprendidas da vegetação. E morcegos também podem colonizá-las, ao contrário de mamíferos terrestres. Em segundo lugar, constatamos que as formas de vida das ilhas oceânicas são mais aparentadas às espécies encontradas na porção continental mais próxima. Assim, as espécies das Galápagos são taxonomicamente semelhantes às espécies da costa oeste da América do Sul, apesar da diferença entre os hábitats. Nas Galápagos, arquipélago constituído de dez ilhas principais, há cerca de quinze espécies endêmicas de tentilhões, com bicos adaptados a diferentes tipos de alimentos, como insetos, sementes e ovos de outras espécies. O fato mostra que os habitantes das ilhas oceânicas descendem de espécies colonizadoras provenientes do continente mais próximo, e que as múltiplas adaptações foram moldadas por pressões seletivas distintas. (32)

Em 1977, uma seca severa abateu-se sobre as Galápagos, reduzindo a disponibilidade de sementes da ilha Daphne Major. A ocorrência permitiu a observação direta da seleção natural. Os tentilhões que habitavam essa ilha, habituados a pequenas sementes macias, foram forçados a ingerir sementes maiores e mais duras, as quais são quebradas com mais facilidade por pássaros maiores e dotados de bicos mais robustos. Consequentemente, somente os tentilhões com bicos grandes puderam obter alimento, ao passo que aqueles com bicos menores definharam. Os primeiros deixaram mais descendentes, e a seleção natural, na geração seguinte, aumentou o tamanho médio dos bicos em 10%. (33)

O melanismo industrial talvez seja o exemplo mais conhecido de observação da seleção natural em ação. A mariposa Biston betularia apresenta duas variedades, a clara (typica) e a escura (carbonária). Após a Revolução Industrial na Inglaterra, no século XIX, constatou-se que a variedade escura, antes rara, tornara-se predominante nas regiões cujas árvores foram enegrecidas pela fuligem das fábricas. O fenômeno, de natureza adaptativa, é explicado pelo fato de que as mariposas da variedade typica, antes do advento da poluição industrial, costumavam fazer uso da camuflagem em trocos claros de árvores para escapar às aves predadoras. (34)

À primeira vista, a seleção natural poderia parecer insuficiente para explicar a formação de órgãos altamente complexos. Tomemos uma estrutura que recebeu considerável atenção do reverendo Paley: o sofisticado olho-câmera dos mamíferos. Darwin mostrou que, ainda que não possamos observar o desenvolvimento de olhos através do tempo, podemos observá-lo através do espaço, em organismos viventes. Há vários estágios intermediários através dos quais os olhos puderam evoluir, desde o ocelo mais rudimentar até o sofisticado olho-câmera dos mamíferos. Podemos arranjá-los numa sequência e observar que há uma suave continuidade. Além disso, constatamos que, em cada estágio, há uma estrutura anatômica que funciona e prova sua utilidade na luta pela existência. Darwin afirma:

A razão me diz que, se é possível mostrar a existência de numerosas gradações a partir de um olho simples e imperfeito até um olho complexo e perfeito, cada gradação sendo útil a seu possuidor, como é certamente o caso; se, além disso, o olho sempre varia e as variações são herdadas, como também é certamente o caso; e se tais variações devem ser úteis a qualquer animal sob condições cambiantes de vida, então a dificuldade em se acreditar que um olho perfeito e complexo pode ser formado pela seleção natural, embora insuperável por nossa imaginação, não deve ser considerada subversiva à teoria. (35)

Os exemplos que acabamos de citar podem não parecer suficientes para os detratores contumazes da seleção natural. Analisemos então as alternativas teóricas para a geração da complexidade orgânica. Se estas falharem, a seleção natural deverá ser considerada o único mecanismo evolutivo válido.


Alternativas à seleção natural

Vimos que a teoria de Trémaux foi aclamada por Marx como um substituto da seleção natural darwiniana, associada à ideologia burguesa. Resta saber como os tipos de solo poderiam construir as estruturas orgânicas que serviram de inspiração para a Natural Theology de William Paley. Solos não têm sabedoria e inteligência para construir diretamente a complexidade adaptativa. Necessitamos de um processo evolutivo que vai do simples ao complexo, no qual pequenas variações orgânicas, muito simples, podem ser formadas por causas impensantes e acumuladas graças à hereditariedade.

De maneira análoga, outras alternativas à seleção natural – ortogênese e saltacionismo – são estruturalmente incapazes de explicar o fenômeno das adaptações orgânicas, ou seja, as máquinas que respaldaram a atitude religiosa de Paley. De acordo com Barton, “essas teorias estão fundamentalmente em conflito com a visão darwiniana da seleção natural, uma vez que elas requerem que as adaptações complexas sejam produzidas diretamente, em vez de gradualmente reunidas e refinadas pela seleção”. (36) Ora, a produção direta de uma adaptação complexa equivale à hipótese que mereceu a derrisão do exame anatômico de Paley.

Analisemos primeiramente a ortogênese (evolução em linha reta). O termo foi criado por Wilhelm Haake em 1893 e popularizado por Theodor Eimer, zoólogos alemães. Os partidários da ortogênese acreditam que as mudanças evolutivas não são controladas pelas pressões seletivas do ambiente, mas por um ímpeto interno aos organismos. Tudo indica que se trata de um princípio de natureza mística ou vitalista (ainda que vários proponentes da ortogênese pretendam ser materialistas), pois não sabemos como essa tendência intrínseca poderia produzir, sem conhecimento prévio e planejamento, a engenhosidade inerente às adaptações orgânicas. Um mecanismo ortogenético, com efeito, poderia explicar a formação do chifre do titanotheres (mamífero extinto relacionado a cavalos e rinocerontes modernos), mas tal estrutura não é mais complexa do que uma estalagmite, cuja formação pode ser atribuída a causas aleatórias (uma mera deposição de sedimentos no solo das cavernas). Da mesma maneira, um montículo de cera é uma entidade simples que pode ser formada tão somente pelo derretimento de uma vela, mas não faria sentido imaginar que um processo análogo pudesse dar origem ao Davi de Michelangelo. Em suma, a tendência formativa postulada pela ortogênese necessita de um conjunto de instruções para guiar a construção da complexidade biológica. Mas quem elaborou o conjunto de instruções? Pressupô-lo seria uma petição de princípio. A ortogênese, portanto, não é uma alternativa válida à seleção natural.

Uma objeção análoga pode ser feita ao saltacionismo, teoria evolutiva que contraria uma das máximas capitais do darwinismo: natura non facit saltum, a natureza não dá saltos. Defendido por naturalistas como Thomas Huxley, Hugo de Vries e William Bateson, o saltacionismo postula que uma única mutação é capaz de dar origem a grandes transformações evolutivas. O problema todo reside no sentido relevante que se atribui às macromutações, as quais devem ser grandes o bastante para que extrapolemos o quadro explicativo (gradualista) do darwinismo, ou seja, para que admitamos a geração súbita de estruturas complexas. Afinal de contas, a tarefa de uma teoria evolutiva é explicar a origem das entidades descritas por Paley.

Olhos, mãos e asas, indubitavelmente, são adaptações complexas. O saltacionismo, que pretende ser científico, é obrigado a explicá-las. Mas, como observou Ruse a respeito das macromutações, “causas aleatórias não levam à complexidade organizada. Na linguagem da ciência moderna, grandes erros na cópia genética não levam à adaptação”. (37) O saltacionismo não explica o surgimento da complexidade biológica, a não ser que tenhamos a desfaçatez de acreditar que uma página da Bíblia possa ser extraída casualmente de uma sopa de letras, ou que um furacão possa montar um automóvel ao passar por um ferro-velho. No final das contas, as macromutações advogadas pelo saltacionismo equivalem aos atos criativos do deus dos criacionistas. Como afirmou Philo no diálogo de Hume, “Arremesse uma porção de peças de aço, sem contorno ou forma; elas jamais se organizarão para compor um relógio”. (38)

O gradualismo, portanto, deve ser um traço essencial de uma teoria evolucionária, uma vez que não podemos deixar de reconhecer a extrema improbabilidade da geração abrupta de uma estrutura complexa. O acaso só é capaz de gerar pequenas modificações orgânicas, e essas mutações aleatórias combinadas com a seleção natural podem levar a um acúmulo de complexidade no decorrer do tempo.

Há, contudo, uma espécie de salto evolutivo que não seria incompatível com o darwinismo. No caso de uma serpente que desse origem a um descendente provido de um número maior de vértebras, teríamos indubitavelmente uma grande mutação advinda repentinamente, ou seja, um autêntico salto morfológico. Consideradas individualmente, as vértebras são peças complexas que existem acompanhadas de um conjunto de nervos, vasos sanguíneos, músculos etc., e as serpentes modernas possuem muito mais vértebras do que seus ancestrais. Mas o acréscimo de novas vértebras não envolve a geração de complexidade adicional, apenas a multiplicação de estruturas complexas já existentes. (39) Do mesmo modo, um livro produzido com páginas repetidas contém tanta informação quanto um livro fabricado sem esse defeito. No entanto, nem todas as características biológicas são como as vértebras das serpentes, surgindo sem geração adicional de complexidade. O que dizer, por exemplo, do surgimento súbito de um órgão como o olho dos mamíferos? Em uma geração teríamos meras manchas pigmentares sensíveis à luz, ou nem isso; na geração seguinte, uma estrutura altamente complexa na qual diversas partes compõem um instrumento óptico finamente ajustado, com uma lente acomodável à distância dos objetos (cristalino), um “diafragma” para regular a entrada de luz (pupila), uma retina provida de milhões de fotocélulas etc.

Assim como a teoria de Trémaux e a ortogênese, o saltacionismo não é capaz, em princípio (independentemente de qualquer evidência empírica), de explicar a complexidade adaptativa dos organismos. Consideremos, ainda assim, uma objeção de caráter empírico que pode ser levantada contra o saltacionismo, caso nossa primeira objeção tenha soado de modo demasiado abstrato aos cérebros pouco afeitos às questões de lógica. Em diversas ocasiões, o registro fossilífero desmente a ocorrência de saltos evolutivos e depõe a favor do princípio da seleção natural. Consideremos, por exemplo, o caso da evolução das baleias modernas a partir de mamíferos terrestres, o qual foi documentado por várias formas intermediárias que revelam uma série de transformações graduais, tais como o desaparecimento dos membros posteriores, a formação de nadadeiras peitorais e a migração das aberturas nasais para o alto da cabeça. Ou os notáveis fósseis transicionais que conectam os tetrápodes aos peixes sarcopterígeos: o Tiktaalik roseae, descoberto em 2004 no Ártico canadense, é um peixe extinto de barbatanas lobadas que exibe várias características típicas dos anfíbios, como um pescoço móvel e uma articulação funcional do pulso. A descoberta, feita por Edward Daeschler, Neil Shubin e Farish Jenkins, paleontólogos americanos, foi publicada na edição de 6 de abril de 2006 da Nature, um dos mais prestigiados periódicos científicos do mundo (A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan). (40) O fato desmente os críticos do darwinismo que afirmam que a evolução gradual jamais foi comprovada cientificamente.

A teoria do equilíbrio pontuado, formulada em 1972 pelos paleontólogos Niles Eldredge e Stephen Jay Gould, é frequentemente confundida com uma perspectiva saltacionista, como se as pontuações evolutivas (eventos rápidos de especiação) ocorressem de uma geração para a outra. Na verdade, a concepção de Gould-Eldredge insere-se no paradigma neodarwiniano, caracterizado pelo gradualismo. As pontuações seriam rápidas apenas em termos geológicos: tais explosões evolutivas teriam uma duração que é medida em dezenas ou centenas de milhares de anos! Não devemos confundir, portanto, episódios relativamente rápidos de evolução com genuínos saltos evolutivos, visto que o gradualismo darwiniano continua a vigorar no interior das pontuações. Como resumiu Dawkins, “O fato é que, no sentido mais completo e mais sério, Eldredge e Gould são, na realidade, tão gradualistas quanto Darwin e qualquer um de seus seguidores”. (41) Prova disso é o fato de que Gould, num artigo chamado Fisgando Leviatã pelo seu passado, louva entusiasticamente a descoberta dos fósseis transicionais que ligam as baleias modernas a seus ancestrais terrestres (pakicetus, basilosaurus, indocetus, ambulocetus, rodhocetus). (42)

Analisemos agora a alternativa lamarckista. De tempos em tempos, o reconhecimento por parte de alguns cientistas de certos mecanismos “lamarckianos” de herança provocam verdadeiras tempestades em copos d’água, como se eles fossem significativos para a explicação das transformações evolutivas. É um fenômeno que poderia ser chamado de “lamarckismo a varejo”, visto que estamos a anos-luz da centralidade atribuída pelo biólogo francês à herança dos caracteres adquiridos.

Sem dúvida, a crença na herança dos caracteres adquiridos é muito antiga e não foi inventada por Lamarck. De qualquer forma, desempenhava um papel fundamental em sua teoria evolutiva. Darwin sequer duvidou do princípio, e chegou a advogá-lo como um coadjuvante do processo evolutivo, sendo a seleção natural o principal fator de mudanças.

Diferentemente da ortogênese e do saltacionismo, o lamarckismo (entendido aqui como a evolução por meio da herança de caracteres adquiridos) estaria em uma melhor posição, dada a sua plausibilidade teórica. Com efeito, a teoria proposta por Lamarck (por volta de 1800) é tão materialista quanto a de Darwin: ambas explicam o surgimento da complexidade adaptativa de modo gradual, a partir das formas orgânicas mais simples, e evitam os problemas que inviabilizam, em princípio, a ortogênese e o saltacionismo. No entanto, a plausibilidade teórica não é suficiente para a validação de uma hipótese científica. Necessitamos avaliar se o lamarckismo é empiricamente viável.

August Weismann (1834 – 1914), provavelmente, desferiu o golpe mortal na teoria da herança dos caracteres adquiridos. Segundo o grande darwinista alemão, as células germinativas (óvulos e espermatozoides) são separadas das células somáticas, de modo que as informações genéticas podem ser transmitidas somente pelas primeiras.

Recentemente, o fenômeno chamado de “herança epigenética” trouxe novamente à luz a teoria de Lamarck. Trata-se da transmissão de variações causadas pelo ambiente, as quais seriam independentes de modificações na sequência do material genético. De acordo com a israelense Eva Jablonka, maior promotora do conceito de herança epigenética,

A biologia molecular mostrou que muitas das antigas suposições sobre o sistema genético, as quais constituem a base da atual teoria neodarwiniana, são incorretas. Ela também mostrou que as células podem transmitir informações a suas células filhas através de uma herança não genética (epigenética). (43)

Um exemplo comumente citado de mecanismo de herança epigenética é a metilação do DNA, processo no qual ocorre a adição de um grupo metila (CH3) a um trecho da sequência genética, o qual tem a capacidade de afetar a expressão de determinados genes. A metilação pode ser determinada pela dieta. As alterações epigenéticas da expressão gênica estão associadas, por exemplo, à ocorrência de obesidade, de modo que os efeitos causados pela dieta dos pais podem ser transmitidos aos seus descendentes, embora não haja uma modificação do próprio genoma. O fenômeno foi verificado em ratos. (44)

Ora, as expectativas em relação ao ressurgimento do lamarckismo são exageradas. Em busca de prestígio na comunidade científica, cientistas como Jablonka se empenham em extrair uma revolução científica de alguns exemplos cujo significado evolutivo é duvidoso. Para uma verdadeira revolução científica, os partidários da mais nova encarnação do lamarckismo deveriam provar que a herança epigenética está na base da complexidade adaptativa dos organismos. Isso ainda não foi feito.

As adaptações estão presentes em todo o mundo orgânico e constituem a própria essência dos seres vivos. “Vemos belas adaptações por toda a parte e em todas as partes do mundo orgânico”. (45) Seria insensato negar que olhos foram feitos para ver, dentes para cortar, rasgar e triturar alimentos, mãos para apanhar e segurar etc. Ademais, as adaptações biológicas podem ser atribuídas a causas materiais ou sobrenaturais. Sabemos, no entanto, que a doutrina das criações sobrenaturais (criacionismo) é incompatível com as evidências aduzidas por Darwin em sua obra magna, as quais podem ser agrupadas nas seguintes classes: anatomia comparada (órgãos vestigiais, homologias e estruturas embrionárias), registro fossilífero (sucessão geológica das formas orgânicas) e distribuição geográfica dos organismos. Resta-nos, assim, a alternativa materialista. Entre as teorias materialistas, apenas o lamarckismo e a seleção natural são capazes de explicar as adaptações. Estas são por demais complexas para que possamos atribuí-las ao acaso. A ortogênese e o saltacionismo, portanto, são excluídos, pois a produção direta (comandada por uma tendência interna ou por um processo não gradual) das adaptações equivale à construção aleatória das máquinas de Paley.

O fenômeno da coincidência adaptativa é suficiente para demonstrar a inexistência de alternativas à seleção natural e ao lamarckismo. A fauna endêmica australiana oferece um exemplo surpreendente. Os mamíferos marsupiais, encontrados sobretudo na Austrália, e os placentários, que predominam no restante do mundo, pertencem a duas divisões taxonômicas distintas. Apesar disso, alguns marsupiais australianos são bastante semelhantes a mamíferos placentários. Há, por exemplo, toupeiras e tamanduás marsupiais. (46) Trata-se do fenômeno da evolução convergente. Toupeiras e tamanduás evoluíram na Austrália independentemente de seus equivalentes placentários em outras partes do mundo. Espécies que vivem em hábitats similares são modeladas por fatores evolutivos similares. Assim, desenvolvem adaptações análogas. Esses fatos só são compatíveis com dois mecanismos evolutivos: o lamarckismo e a seleção natural, visto que a ortogênese e o saltacionismo atribuem as modificações evolutivas a fatores internos aos organismos, ou seja, independentes das condições ambientais.

Resta-nos, portanto, somente o exame da alternativa lamarckista à seleção natural. Se o lamarckismo foi refutado, o darwinismo é a única explicação evolutiva possível. Assim, podemos provar por exclusão a realidade da seleção natural. Não nos enganemos com as frases encantadoras dos agnósticos que declaram, de maneira pseudo-shakespeariana, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Não há um mecanismo evolutivo concebível fora do lamarckismo e da seleção natural. E os lamarckistas, até hoje, não provaram que a complexidade orgânica foi produzida por meio da herança dos caracteres adquiridos.


Conclusão

Vimos que o gênio de Darwin se manifestou na elaboração de uma teoria científica dotada de um duplo aspecto. Nas palavras de Dennett,

O projeto de Darwin em A origem das espécies pode ser dividido em dois: provar que as espécies modernas eram descendentes corrigidos de espécies anteriores – as espécies haviam evoluído – e mostrar como este processo de “descendência com modificação” ocorrera. (47)

Após a publicação de A origem das espécies em 1859, a comunidade científica não tardou a aceitar o primeiro aspecto da teoria darwiniana (a comprovação do fato bruto da transformação das espécies). O mesmo não poderia ser dito a respeito do mecanismo evolutivo defendido por Darwin. A ideia de seleção natural foi alvo de críticas desde a época de Darwin e chegou a ser eclipsada na virada do século. Coube à síntese evolutiva das décadas de 1930 e 1940 resgatá-la como um princípio científico válido.

Na verdade, contra todos os críticos que decretaram a falência do darwinismo como sistema científico, a mera comprovação do fato da evolução (filogenia) já seria suficiente para a consagração de Darwin como o autor da mais importante concepção do espírito humano.

Para muitos críticos, dentre os quais Marx, Engels e Lyssenko, a ideia de seleção natural seria apenas um reflexo da sociedade capitalista inglesa do século XIX. No entanto, seria falacioso utilizar a origem social e psicológica de uma concepção para determinar seu valor intrínseco. O fato é que o princípio científico da seleção natural tem bastante sucesso quando aplicado à natureza. E, quando contraposto às alternativas, emerge como a única explicação viável das modificações evolutivas. A ortogênese não pode explicar a geração da complexidade adaptativa por meio de uma força interna que nada sabe e nada vê; o saltacionismo postula um processo geracional comparável à produção aleatória das máquinas de Paley, além de ser contradito pelas características do registro fossilífero; e o lamarckismo, embora plausível, até hoje não demonstrou que a complexidade orgânica é fruto da herança dos caracteres adquiridos.


Bibliografia

BARTON, N. H. et al. Evolution. Cold Spring Harbor, CSHL Press, 2007.

BOWLER, P. The Eclipse of Darwinism. Baltimore/Londres: Johns Hopkins University Press, 1992.

COYNE, J. A. Why Evolution is True. Nova York: Viking, 2009.

DAESCHLER, E.; SHUBIN, N.; JENKINS, F. Nature 440 (6 de abril de 2006), pp. 757-763.

DARWIN, C. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex. Londres: John Murray, 1871.

______. The Origin of Species. Nova York: Signet Classic, 2003.

______. Autobiografia. São Paulo: Planeta, 2009.

DAWKINS, R. O relojoeiro cego. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

______. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

DENNETT, D. A perigosa ideia de Darwin. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

EDWARDS, K. J. R. A evolução na biologia moderna. São Paulo: E.P.U./EDUSP, 1980.

ELMADFA, I. Interactions Between Nutrition and Health. In: HASLBERGER, A. G. Epigenetics and Human Health. Weinheim: Wiley-Blackwell, 2010.

ENGELS, F. A dialética da natureza. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

GARAUDY, R. La théorie matérialiste de la connaissance. Paris: P.U.F., 1953.

GLICK, T. F. What about Darwin? Baltimore: JHU, 2010.

GOULD, S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

______. The Structure of Evolutionary Theory. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2002.

______. Dinossauro no palheiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

HOISEL, B. Anais de um simpósio imaginário. São Paulo: Palas Athena, 1998.

HUME, D. Dialogues Concerning Natural Religion. Londres: Penguin, 1990.

JABLONKA, E. & LAMB, M. J. Evolution in Four Dimensions. Cambridge: MIT Press, 2005.

LADOUS, R. Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres. Paris: Vrin, 1984.

LIEDMAN, S.-E. Engels and the Laws of Dialectics. In: PANASIUK, R. & NOWAK, L. Marx’s Theories Today. Amsterdam: Rodopi, 1998.

MEGILL, A. Karl Marx: The Burden of Reason. Maryland: Rowman & Littlefield, 2002.

PALEY, W. Natural Theology. Nova York: Oxford, 2008.

RUSE, M. Darwinism and Its Discontents. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

SANDÍN, M. & RODRIGO, J. Madre tierra, hermano hombre. Madri: Ediciones de la Torre, 1998.

TRÉMAUX, P. Origine et transformations de l’homme et des autres êtres. Paris: L. Hachette & Cia., 1865.

VUCINICH, A. Darwin in Russian Thought. Berkeley: University of California Press, 1988.

____________________________

Notas
(Clique no número para voltar ao texto)

(1) S. J. GOULD, Darwin e os grandes enigmas da vida, p. 1.

(2) S. J. GOULD, The Structure of Evolutionary Theory, p. 396.

(3) C. DARWIN, The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, pp. 2-3.

(4) Ibid., p. 152.

(5) C. DARWIN, Autobiografia, p. 274.

(6) C. DARWIN, The Origin of Species, p. 75.

(7) Ibid., p. 76.

(8) P. BOWLER, The Eclipse of Darwinism, p. 5.

(9) R. DAWKINS, O gene egoísta, p. 38.

(10) K. J. R. EDWARDS, A evolução na biologia moderna, p. 1.

(11) Numa carta a Ferdinand Lassalle de 16/01/1861, Marx escreveu que “O livro de Darwin [A origem das espécies] desfere pela primeira vez um golpe mortal na teleologia das ciências da natureza”. Apud T. F. GLICK, What about Darwin?, p. 273.

(12) Apud R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 22.

(13) F. ENGELS, A dialética da natureza, p. 163.

(14) P. TRÉMAUX, Origine et transformations de l’homme et des autres êtres, pp. 11-12.

(15) Apud R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 25.

(16) Ibid.

(17) A. MEGILL, Karl Marx: The Burden of Reason, p. 55.

(18) R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 25.

(19) Apud R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 25.

(20) Apud S.-E. LIEDMAN, Engels and the Laws of Dialectics. In: PANASIUK, R. & NOWAK, L., Marx’s Theories Today, p. 21.

(21) R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 25.

(22) Apud R. LADOUS, Darwin, Marx, Engels, Lyssenko et les autres, p. 20.

(23) F. ENGELS, A dialética da natureza, p. 181.

(24) A. VUCINICH, Darwin in Russian Thought, p. 359.

(25) R. GARAUDY, La théorie matérialiste de la connaissance, p. 121.

(26) B. HOISEL, Anais de um simpósio imaginário, p. 249.

(27) S. J. GOULD, Darwin e os grandes enigmas da vida, p. 1.

(28) P. BOWLER, The Eclipse of Darwinism, p. 187.

(29) M. SANDÍN & J. RODRIGO, Madre tierra, hermano hombre, p. 96.

(30) D. DENNETT, A perigosa ideia de Darwin, p. 41.

(31) C. DARWIN, The Origin of Species, pp. 381-382.

(32) Ibid., pp. 384-385.

(33) J. A. COYNE, Why Evolution is True, p. 134.

(34) M. RUSE, Darwinism and Its Discontents, p. 116.

(35) C. DARWIN, The Origin of Species, p. 172.

(36) N. H. BARTON et al., Evolution, p. 21.

(37) M. RUSE, Darwinism and Its Discontents, p. 124.

(38) D. HUME, Dialogues Concerning Natural Religion, p. 56.

(39) R. DAWKINS, O relojoeiro cego, pp. 345-346.

(40) E. DAESCHLER, N. SHUBIN & F. JENKINS, Nature 440 (6 de abril de 2006), pp. 757-763.

(41) R. DAWKINS, O relojoeiro cego, p. 354.

(42) S. J. GOULD, Dinossauro no palheiro, pp. 431-451.

(43) E. JABLONKA & M. J. LAMB, Evolution in Four Dimensions, p. 1.

(44) I. ELMADFA, Interactions Between Nutrition and Health. In: HASLBERGER, A. G., Epigenetics and Human Health, p. 7.

(45) C. DARWIN, The Origin of Species, p. 74.

(46) J. A. COYNE, Why Evolution is True, p. 99.

(47) D. DENNETT, A perigosa ideia de Darwin, p. 41.

2 comentários:

  1. Excelente texto, embora um pouco apaixonado. :)

    ResponderExcluir
  2. Acho que faltou na bibliografia alguma coisa de Marx, pois o texto se refere a ele diversas vezes. Seria interessante para que não tivéssemos apenas referências mediatizadas.

    ResponderExcluir