quinta-feira, 5 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ O que é viver filosoficamente?


Uma vida guiada pelo espírito filosófico, a alternativa mais saudável, moderna e inteligente para acompanhar a complexidade dos dias de hoje, consiste em três atitudes básicas que se conseguem apenas com muito esforço e que não são compatíveis com soluções messiânicas ou “mágicas”. A primeira é dispor-se ao conhecimento de como funciona o mundo. A segunda é encontrar propósitos pelos quais se possa viver e objetivos que se busque alcançar, ainda que não sejam realizáveis num prazo curto. E a terceira é engajar-se num projeto político de transformação da sociedade, utilizando o máximo possível de competência e instrumental disponíveis. Tais pontos, nessa ordem, levam uns aos outros e não são realizáveis isoladamente.

Os saberes a respeito da natureza e do meio social sempre foram, no que tinham de mais eficaz e essencial, ocultados à maior parte da população por castas fechadas e dificilmente acessíveis, que sabiam do potencial revelador e sublevador desses conteúdos. A lenda bíblica da “árvore do conhecimento do bem e do mal” exemplifica bem essa mentalidade: as pessoas comuns não podem conhecer o que os poderosos conhecem, senão lhes seriam proporcionadas as condições materiais e morais para a exigência de sua libertação e para a autonomia de ação e reflexão. Assim, compreende-se que descobrir os segredos da mecânica da vida natural e humana significa prover a consciência de informações que lhe permitam fazer julgamentos ponderados e empiricamente baseados e tirá-la da ignorância a respeito do que a influencia e cerca. Só se pode alcançar isso com estudos, observações e leituras muito disciplinados, e não por meio da “iluminação” dos conteúdos prontos em nossas cabeças por pessoas ou entes superiores; afinal, o sujeito do processo de conhecimento sempre é um ser humano.

Adquirido um arcabouço intelectual básico, pode-se começar a delinear independentemente metas e motivações que sirvam de guia para a existência. Afinal, a principal condição de humanidade é encontrar um porquê para a vida, já que o cérebro humano não se limita a seguir funções biológicas instintivas, mas transcende-as e, além de produzir seus próprios meios de subsistência, também procura, como animal inatamente inconformado, influir nos acontecimentos que o atingem, abstraindo-os e manipulando essas abstrações. Tal é o funcionamento da cultura e de todas as suas subdivisões, como a língua oral ou escrita, a arte, os rituais sobrenaturais, a vestimenta, a música, os preceitos de convivência e outras manifestações. Por isso se diz que a religião tem como função dar um sentido ao existir; mas, como afirmou Sartre, todas as ideologias são revolucionárias quando nascem e reacionárias quando se consolidam, e a fraternidade espiritual deu lugar ao abuso de poder e ao fim das discussões por meio da imposição dogmática. E aí a filosofia encontra seu papel: dar orientações éticas renováveis e adaptáveis à marcha do progresso e ao surgimento de novos problemas.

Contudo, as aspirações não têm razão de ser se não se cogita colocá-las em prática, ou seja, buscar a modificação das estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais conforme padrões de pensamento mais modernos e confortáveis. Obviamente são as necessidades reais que condicionam as ideias de uma época ou de um lugar, e, por isso mesmo, estas devem voltar ao mundo objetivo e cumprir a função para a qual foram criadas. As ondas de mudança são inexoráveis, e o pensamento conservador, buscando manter as estruturas de dominação e privilégio, inculca à maioria da população o conformismo com a situação presente, para que ela aguarde a verdadeira felicidade de um vindouro “paraíso” ou “época de ouro” após a morte ou num futuro distante. A verdade é que a luta por uma sobrevivência melhor não pode ser adiada, pertence ao aqui e agora, e exige que todos usem maximamente suas capacidades, inteligência, energia e força. Tal disposição só pode ser tornada uma “segunda natureza” por meio de prática e tirocínio incessantes, e é impossível, como se sabe, levar a cabo essa empreitada se não se domina o cabedal técnico e lógico legado pelos antepassados, o que, num ciclo, faz o retorno ao primeiro ato da vivência filosófica.

Os cidadãos comuns, em especial os brasileiros, estão acostumados, por motivos culturais e imposições sócio-políticas, a esperar que as soluções para seus tormentos e as respostas para as indagações que lhes são feitas, além de prontas, apareçam “caídas do céu”, o que mina o desenvolvimento do fôlego para a pesquisa e da criatividade e inteligência para a criação própria. É essa lacuna histórica que uma difusão maior da filosofia precisa suprir na educação e nas relações públicas, a fim de acabar com as superstições infundadas e encorajar cada um a tomar seu destino em suas próprias mãos.

(Bragança Paulista, 29 de janeiro de 2011.
Levemente modificado a 5 de julho de 2012.)


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