sexta-feira, 13 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ Ser ateu é bom? (2 – Ciência e subjetividade)


Muitas vezes, o ateísmo é associado a uma sobrevalorização da ciência, e de fato, quando deixam de seguir os regulamentos religiosos, os ateus costumam guiar sua vida e seu raciocínio pelas descobertas científicas e pela autonomia crítica. Porém, é um erro pensar que a ciência é uma nova deusa que resolve todos os problemas, e mesmo o ateu que pensa assim termina por castrar sua inteligência e seus sentimentos.

Na sociedade ocidental, ciência e religião só começaram a separar-se na prática por volta do fim da Idade Média, no início da revolução renascentista. Antes, não se desligavam os ofícios eclesiásticos das atividades intelectuais, e por isso tantas igrejas originaram universidades, e tantos sacerdotes foram homens de letras e de investigações empíricas. A laicização do Ocidente fez com que se reconhecesse oficialmente essa separação epistemológica efetiva entre produção do conhecimento e serviço espiritual.

No contexto cultural ocidental, a negação de Deus está relacionada à superação das categorias duais corpo/mente, carne/espírito, razão/emoção e outras correlatas, intrínsecas ao encontro da filosofia neoplatônica com a patrística cristã. Outras civilizações trataram de abordar os mistérios do pensamento e da realidade em termos bastante diferentes, ou até mesmo mais integrados, e por isso “seus” ateus e secularistas podem raciocinar com leves diferenças. Mas agora, cabe tentar fechar o círculo que frequentemente vincula o ateísmo ao primado da apreensão da realidade bruta.

A partir da laicização citada acima, os benefícios trazidos pelo progresso técnico implicaram num gradual reconhecimento de sua utilidade e predominância sobre as concepções mágicas do mundo. Porém, eles também evoluíram lentamente em doutrinas que julgaram ser a percepção exterior passiva a única forma de encontrar a si mesmo no mundo, negando, portanto, qualquer valor das particularidades de cada sujeito na construção do próprio ser. Essa “ditadura da objetividade” descambou nos totalitarismos e formas de supressão da subjetividade conhecidos no século XX, e fez com que muitos oportunistas clericais caíssem no outro extremo ao conferir à iluminação divina o único mérito pelo conhecimento autêntico, ou ao menos pregassem a existência de uma “dimensão religiosa” inerente a todos (que não seria uma ideia má se não fosse imbricada à própria crença de quem a postula).

Mas seria desagradável voltar à situação de antes. Nem mesmo para os laicos a tentação dualista confere produtividade na apreensão do meio, e certamente um imanentismo saudável, que considere a validade igual das contribuições pessoais e dos compartilhamentos coletivos, acabe de vez com a perpetuação de categorias que escravizam o Ocidente há dois mil anos. Não se trata mais de lutar de modo quixotesco contra seres mitológicos, mas, acima de tudo, de extirpar os autoritarismos de nosso modo de pensar e de agir: tanto o do “corpo do povo” que tiraniza o indivíduo quanto o do sonho privado jogado goela abaixo dos subordinados ou concidadãos.

Assim, chegamos à conclusão de que um passo importante do “fato ateu” é superar, ao mesmo tempo, o fracionamento das experiências humanas em partes desconectadas e a supressão do eu em prol de falsos universais, mais semelhantes à castração a ser combatida do que à emancipação humana pretendida com o fim da religião.

(Bragança Paulista, 24 de setembro de 2011.
Levemente alterado a 13 de julho de 2012.)


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