domingo, 22 de julho de 2012

Erick Fishuk – Um abraço à vida e à realidade


Se alguém ferir seu escravo ou escrava a pauladas, e o ferido lhe morrer nas mãos, aquele será punido. Porém, se sobreviver um dia ou dois, não será punido, pois aquele foi comprado a dinheiro. (Êxodo 21, 20.)

Quais são esses direitos naturais? Viver e sobreviver, é o mínimo, supõe a satisfação das necessidades do corpo e do espírito à medida que, assim apaziguados, permitam a existência de um corpo que seja e dure livre de todo sofrimento, assim como a de uma alma, nas mesmas condições, desde que ela, por si própria, seja conservada dentro da dignidade. (Michel Onfray, A política do rebelde, p. 51.)

É provável que todas as pessoas, desde o operário braçal que mal tem tempo de pensar em si até o playboy ou socialite que vive da herança bilionária deixada pelo pai ou avô empresário, já refletiram sobre o propósito de sua existência. Parece uma atitude óbvia, pois o ser humano se diferencia dos outros animais pela faculdade do raciocínio, da abstração e do planejamento. Porém, às vezes, os acontecimentos passam tão depressa e nos preocupamos tanto com os detalhes mais “importantes”, que costumamos esquecer o que parece menor, mas que na verdade tem uma importância fundamental na compreensão de nossa natureza. Qual é, pois, a finalidade da vida humana, e por que, embora tenhamos os mais belos sonhos, o mundo parece nunca querer se enquadrar nem às utopias dos mais nobres pensadores da humanidade, nem aos humildes desejos dos que apenas dispõem de sua força de trabalho para vender?

À primeira vista, são notáveis as mazelas sociais e econômicas que afligem o mundo atual, como a fome, o desemprego, a violência, a ausência de fraternidade, as crises cíclicas do capitalismo, a desorientação quanto ao que fazer da vida e quais referências seguir (o que parece ser endêmico nos jovens à beira do vestibular) e outras. Todos os anos são redigidas páginas e páginas impressas ou online para descrevê-las ou tentar dar-lhes uma solução definitiva. Embora seja comprovada a falácia de qualquer teodiceia, de qualquer conciliação entre a teórica primazia do Bem e a onipresença do Mal, todos concordam que as aflições que castigam o planeta possuem causas puramente humanas. Demônios à parte, parece ser verdadeiro aquele chavão segundo o qual o homem é o lobo do próprio homem.

A cultura brasileira possui outro clichê, talvez mais autoexplicativo, que afirma a predominância dos interesses particulares, pessoais (me arrisco a dizer ainda, grupais), sobre os gerais, coletivos: é a famosa lei de Gérson e a “teoria do jeitinho”. Paralelamente, contradizendo a malícia do “jeito”, nossas tradições são bastante moralistas, autoritárias e acríticas, qualidades típicas da herança ibérica e jesuítica trazida pelos portugueses há mais de 500 anos. Essa sisudez pode ter a ver com o particularismo desses grupos fechados, quando uns se digladiam contra os outros e se arrogam o domínio de uma “Verdade” supostamente válida para todos os cidadãos do Brasil, quiçá da Terra. Tal é a materialização de um paradoxo que alguns pensadores expuseram, por vezes, sem querer: ao mesmo tempo em que somos expostos a moralismos, leis e regras ditados por cúpulas que arrogam ser mais “vividas” e mais “sábias”, a busca da satisfação e do prazer pessoal, geralmente sem grandes resultados, tornou-se para muitos a única razão de sua existência.

Mas será que uma vida regrada e controlada, visando à moderação que leve, por sua vez, à abundância constante, é incompatível com a colocação da satisfação e do desfrute (eu diria ainda, bem-estar) em primeiro lugar? Não concordo. Para mim, o segundo fato é condição primordial do primeiro. Se não possuímos uma vida que nos satisfaça plenamente, o descontrole nas horas de “fome e sede”, e mesmo o excesso de autoimposições psicológicas, pode nos levar até mesmo a adoecer. As amarras mentais, seja do vício pelo gozo, seja da tara pelas restrições, nos fazem viver para o futuro, pensar apenas no que virá, e não concluir que a razão de nossa existência está no presente. “Só terei satisfação no amanhã, quando cumprir uma série de regras que me anestesiem (para os libidinosos) ou me aumentem (para os ascéticos) o sofrimento”, dizem essas pessoas. Elas esquecem que o esforço para o sucesso é necessário, mas nem demais nem de menos. A vida é agora, e não amanhã.

O filósofo francês Michel Onfray, na primeira parte de seu magnífico livro A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão (minha edição é da Rocco, 2001), expõe magistralmente uma apologia do individualismo e do amor pela vida para que nos mantenhamos equilibrados, satisfeitos e, creio eu (embora ele não diga), aptos para fazermos as melhores coisas pelos outros. Os regimes totalitários, e mesmo o mundo capitalista de hoje, pregaram uma “igualdade” entre as pessoas que termina por formatá-las, privá-las de sua individualidade, de suas particularidades; igualdade, lembre-se, que só existe dentro da Pátria, da Família, da Religião, do Partido e outros grupelhos. Ao mesmo tempo, contudo, alguns são mais “iguais” do que os outros, surgindo as diferenciações hierárquicas.

A filosofia de Onfray postula que todos os seres humanos fazem parte de uma só espécie (e, para mim, a palavra “espécie” ressalta nossa condição primordial de animais, de parte da natureza, sem qualquer traço divino que nos dê qualquer superioridade sobre os outros seres), mas que devemos manter a unidade indivisível que compõe essa “grande família”, que é a individualidade, base de todo o direito que se pretenda justo. Os únicos princípios aplicáveis a todos os lugares e épocas, assim, longe de toda ideologia, são os da manutenção da vida e do direito à sobrevivência, desrespeitados pelas inúmeras ditaduras do século XX. Assim, longe da pregação de um individualismo egoísta, Onfray valoriza a satisfação pessoal e o desfrute da existência (a qual, para ele, já é o mais puro prazer), longe do ideal ascético e de “renúncia do eu” pregado pela direita e outros setores mais conservadores. Ou seja, Onfray é um hedonista, sem que esse termo tenha qualquer sentido negativo.

Retornemos, então, às questões postas no início do texto: por que existe o sofrimento no mundo? O que fazer diante dele? Como todo materialista, acredito que suas causas são puramente materiais, em outras palavras, relacionam-se basicamente à péssima distribuição material nas sociedades capitalistas e à exploração desenfreada do trabalho alheio, não diferindo em nada da “boa e velha” escravidão. Na atualidade, a ânsia pelo lucro faz com que o proletariado possua apenas o mínimo para viver, sem espaço para o estudo, a reflexão e o lazer. Outros, porém, caem na miséria por terem sido expulsos de seus empregos, sob o pretexto, dizem as empresas, de “otimizar a produção”. Junte falta de educação e lazer aos mais pobres com pessoas sem as mínimas condições de vida: o que temos? Explosões de violência e indigência, das quais os exploradores acabam sendo vítimas, com os assaltos às suas mansões ou carros de luxo. Aí, sim, é que se começa a falar em "problemas sociais"!

Novamente entra em cena a ênfase na individualidade: é esse bem precioso que perdem os explorados políticos e econômicos, que se tornam meros números, seja na prisão, na fábrica ou mesmo no cemitério. Aliás, quase todos nós já somos um número, o RG, para o Estado! Todas as elites da sociedade se interessam por ocultar o conhecimento ao povo, pois seu esclarecimento lhe revelaria a verdadeira raiz de seus problemas e poderia causar uma insatisfação generalizada jamais vista antes. E os intelectuais, embora não devam ser uma espécie de “vanguarda messiânica”, deveriam tornar esse conhecimento mais acessível e basear toda a sua produção nas necessidades das classes subalternas, deveriam ajudar na elaboração de soluções aos problemas científicos e sociais do mundo. Mas não! A televisão, as revistas, os jornais sensacionalistas, as religiões, o cinema e certos sites estão aí para eternizar a “política do pão e circo”: benefícios rápidos a custo baixo, vendidos como verdades imutáveis. Enquanto isso, a intelectualidade é paga pelas classes dominantes para fazer apologia delas e legitimar suas ideias diante do público leitor, que “compra” todos os “analgésicos” oferecidos para a escamoteação de suas chagas.

Por isso, mantermos e afirmarmos uma individualidade própria e dedicarmo-nos ao conhecimento da história, da natureza e dos sistemas sociais é fundamental para nos tornarmos agentes dessa mesma história, para nos fortalecermos como verdadeiros modificadores, ainda que com pequenas ações, do meio que nos rodeia, seja o bairro, a cidade, o estado ou o país; e, potencialmente, do mundo e do opressivo regime capitalista, a ser reformado ou, se necessário, derrubado. Chegou a hora de abraçarmos a vida e a realidade a fim de sabermos quais são as verdadeiras causas dos males da humanidade e que sua solução não exige mais do que o esclarecimento racional dos indivíduos, a vivência do presente e a consciência da materialidade do mundo, sem idealismos, “analgésicos” ou tapa-olhos.

(Bragança Paulista, 6 de julho de 2009,
publicado no meu antigo blogue "Pensadores Libertos".
Levemente modificado a 22 de julho de 2012.)


P.S.: O título deste texto foi inspirado num velho conjunto de reflexões de um antigo colega da faculdade de História, e que pode ser lido aqui.

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