sábado, 3 de agosto de 2013

História do materialismo ‒ Cap. I: os materialistas jônios (parte 4)


Por Giuliano Thomazini Casagrande


4. Apreciação geral do materialismo jônio

Vimos que a chave para a compreensão da filosofia dos jônios consiste na distinção entre o materialismo lato sensu e o materialismo stricto sensu. Com efeito, há algo de anormal (em relação ao materialismo puro ou estritamente definido) na cosmovisão daqueles que atribuem faculdades mentais primárias ou irredutíveis a uma substância material. Daí a frase materialismo lato sensu, que deve oferecer uma descrição da modalidade de materialismo professada pelos primeiros filósofos gregos. Graham caracteriza da seguinte maneira a entidade material que, nos jônios, justifica a designação panteísmo materialista:
A substância geradora é associada com a vitalidade e com a inteligência, e portanto com a autonomia ou com o poder de governar; assim, o ilimitado de Anaximandro e o ar de Anaxímenes são dotados de entendimento. A substância geradora torna-se assim não somente a substância original, mas a substância que governa a ordem natural. (1)
O panteísmo materialista dos jônios deve ser contraposto ao materialismo conforme a definição proposta por estudiosos como Lange, Lênin e O. Bloch: trata-se da afirmação do primado da matéria sobre a consciência, ou seja, da filosofia segundo a qual o pensamento é uma propriedade emergente da matéria impensante – visão esta que conta com o apoio da ciência moderna. Lange deixa claro que o materialismo em sentido estrito é incompatível com o sistema que concebe o pensamento como uma propriedade básica da matéria:
O materialismo torna-se um sistema completo somente quando a matéria é concebida como puramente material – ou seja, quando suas partículas constituintes não são um tipo de matéria pensante, mas corpos físicos, que se movem em obediência a princípios meramente físicos, e, sendo em si mesmas desprovidas de consciência, produzem a sensação e o pensamento por meio de formas particulares de suas combinações. (2)
As ciências da natureza, de fato, ensinam que a matéria é anterior ao aparecimento da consciência no reino biológico, como resultado da evolução do sistema nervoso, e que não há evidências empíricas de que o Universo tenha a estrutura de um cérebro gigantesco. Além disso, a cosmologia propõe cenários naturalistas para explicar a origem de nosso universo, e a evolução biológica, conforme o conhecimento científico geralmente admitido, é um processo inteiramente desprovido de propósito. Não se requer, portanto, a existência de uma mente divina que cria e governa a natureza.

Está posta, assim, a diferença entre o materialismo científico e o monismo fisicalista dos jônios. Entretanto, o materialismo em sentido lato não foi devidamente justificado por esses filósofos. Com base num argumento como o de Tales, de que as sementes e os alimentos são úmidos, não temos o direito de professar o monismo materialista. Reconhecemos, assim, que os jônios foram materialistas de fato, e não de direito. Devemos aguardar pelos atomistas e pelos estoicos para encontrarmos a primeira justificação adequada do monismo materialista. O mesmo pode ser dito a respeito do hilozoísmo. A asserção de que a matéria move a si mesma, infundada na escola jônia, foi corroborada por desenvolvimentos científicos posteriores. (3)

De qualquer forma, ainda que sua cosmovisão materialista e hilozoísta seja infundada, o importante é observar que os jônios se empenharam em fornecer argumentos do tipo científico, sejam eles bons ou ruins. Essa atitude racionalista, na qual reside o real valor desses filósofos, marca a distinção entre o mundo do mito e o mundo da filosofia.

Há ainda outro traço da escola jônica a ser enfatizado pela história do materialismo, posto que ele consiste numa das marcas distintivas do materialismo estritamente definido, também conhecido como ateísmo. Há indícios suficientes de que os jônios admitiam a existência de uma divindade inteligente e providencial: segundo os testemunhos que nos chegaram, Anaximandro e Anaxímenes falavam do governo exercido pela divindade material sobre o cosmo. No entanto, o fato é que os pré-socráticos, de modo geral, renegavam as explicações teleológicas. Essa é a interpretação de Platão. (4) Os jônios opuseram-se, portanto, à religião tradicional dos gregos e privilegiaram as explicações materialistas (em sentido estrito). (5) Por causa disso, temos o direito de sustentar que o início do conspícuo conflito entre ciência e religião data da aurora do pensamento ocidental, ainda que a argumentação científica desenvolvida pelos jônios não seja válida de acordo com o atual estado do conhecimento.


Bibliografia

GRAHAM, D. W. Explaining the Cosmos: The Ionian Tradition of Scientific Philosophy. Princeton: Princeton University Press, 2006.

LANGE, F. A. The History of Materialism. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1957.

PLATÃO. Fédon. Edimburgo: Williams & Norgate, 1863.

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Notas
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(1) Explaining the Cosmos: The Ionian Tradition of Scientific Philosophy, p. 107.

(2) The History of Materialism, Livro I, Seção I, cap. I, p. 4, nota 1 (grifos do autor).

(3) Eis uma via pela qual, ainda que de modo aparentemente paradoxal, a autossuficiência energética do Universo é assegurada pelo atual conhecimento cosmológico: se, como indicam as mais recentes observações, a energia total do Universo é nula – pois a energia cinética e a energia de repouso (energia de massa) são canceladas pela energia negativa da gravidade –, prescindimos do impulso de uma divindade externa à matéria. O movimento que vemos por toda parte veio do nada.

(4) Fédon, cap. XLVII.

(5) Para Graham, no caso dos pré-socráticos, “a dimensão vitalista ou religiosa parece recuar para um plano secundário”. Cf. Explaining the Cosmos: The Ionian Tradition of Scientific Philosophy, p. 48.