domingo, 19 de janeiro de 2014

História do materialismo ‒ Cap. II: dos jônios a Demócrito (parte 5)


Por Giuliano Thomazini Casagrande


5. Empédocles de Agrigento

Empédocles (c. 490 a.C. – 430 a.C.), nascido em Ácragas (atual Agrigento), na Sicília, foi uma personalidade plural, destacando-se como político, cientista e feiticeiro (observemos que não há uma contradição a priori entre estas duas atividades: assim como o argumento do desígnio, o dualismo materialista e outras construções teóricas análogas, a feitiçaria poderia ser corroborada pelas ciências empíricas, ainda que este não seja o caso). Dois poemas são atribuídos ao siciliano, Sobre a natureza e Purificações, embora alguns estudiosos julguem tratar-se de uma única obra.

A mitologia em torno de Empédocles retém diversas ocorrências fantásticas, como um mergulho mortal na cratera do Etna. Diógenes Laércio relata que Empédocles se arrogava o conhecimento de preparados mágicos contra doenças e para retardar a velhice, a habilidade de controlar os ventos e as chuvas, e uma técnica de evocar a alma (força vital) dos mortos do Hades. (1) Diógenes ainda nos informa que Empédocles, que se considerava uma divindade, era reverenciado por multidões, ministrava ensinamentos, distribuía oráculos e curava os enfermos pela palavra. Até mesmo a ressurreição de uma mulher é incluída em seu rol de prodígios. Escusado seria dizer que as semelhanças com a história do homem de Nazaré são surpreendentes.

Ora, esse charlatão da Antiguidade foi também um campeão das explicações mecanicistas e pode ser considerado o pai da mais materialista das concepções: o princípio da seleção natural, o qual está no cerne da maior controvérsia dos tempos modernos. As ideias de Empédocles não deveriam surpreender a ninguém, pois não há uma contradição entre a rejeição da teleologia cósmica e a crença em coisas como o dualismo materialista e a feitiçaria. Não existem, com efeito, ateus que creem em poderes paranormais e na vida após a morte? Poderão dizer que há uma incoerência nessa atitude. No entanto, que barreira lógica poderia ser mencionada contra a possibilidade da geração, por meio da evolução darwiniana, do duplo astral das criaturas orgânicas? Em termos análogos, qual seria a relação inquebrantável entre a existência de certos fenômenos paranormais e a existência de Deus?

Se, como vimos, Anaximandro concebeu um processo de evolução orgânica (ainda que grosseiro e carente de uma fundamentação científica adequada), Empédocles, por sua vez, explicou a origem das adaptações biológicas de maneira não evolutiva. Não obstante, formulou, embora toscamente, um mecanismo explicativo que se tornou uma peça fundamental da biologia evolutiva moderna. Na Notícia histórica acrescentada ao início de A origem das espécies, Darwin reconhece que a ideia de seleção natural não era estranha aos antigos, na forma de um prenúncio. Um trecho da Física de Aristóteles é transcrito como prova. (2) Notemos de passagem o equívoco cometido logo na primeira página dessa Notícia histórica: inadvertidamente, a formulação e a defesa do princípio da seleção natural são atribuídas ao próprio Aristóteles, considerado um precursor da teoria evolutiva de Darwin. Na verdade, Aristóteles descreve a teoria materialista de outro filósofo, Empédocles, com o único propósito de criticá-la. A referida passagem de Aristóteles foi traduzida e enviada a Darwin por Claire James Grece, filólogo clássico inglês. Os dados disponíveis não nos permitem saber se Darwin recebeu acriticamente uma informação errônea transmitida por Grece, ou se interpretou incorretamente uma informação válida.

Na passagem em questão, Aristóteles atribui a Empédocles a teoria segundo a qual as adaptações orgânicas surgem de um processo inteiramente mecanicista. Inicialmente ocorre a emergência, do seio da terra, de uma multidão de órgãos e de membros autônomos: cabeças, braços, olhos etc., os quais vagam isolados por algum tempo. Por influência do amor, um dos agentes cósmicos do sistema de Empédocles, os conjuntos orgânicos resultam da combinação aleatória dessas partes preexistentes. No passo seguinte, apenas as combinações funcionais são preservadas. Os seres vivos existentes atualmente são os descendentes não modificados das formas que emergiram desse único processo seletivo original (assim, percebemos que a teoria darwiniana consiste na inserção do princípio de Empédocles num processo evolutivo, sem mencionar a multidão de evidências empíricas aduzidas pelo naturalista inglês, com as quais os antigos sequer sonhavam). Vejamos como Aristóteles descreve a teoria materialista (em sentido estrito, evidentemente) de seu rival:

Então, sempre que todas as partes foram reunidas justamente como se tivessem algum propósito, as criaturas sobreviveram, pois, espontaneamente, ocorreu que as partes foram postas juntas de modo útil. Mas tudo o mais foi destruído e continua a ser destruído, como Empédocles afirma de suas “criaturas semelhantes a vacas com cabeças de homens”. (3)
Uma coisa é evidente: ao explicar a origem das funcionalidades orgânicas, Empédocles substitui a inteligência divina pelos eventos da matéria estúpida. O princípio básico de sua teoria é um escândalo e um motivo de escárnio para os filósofos de cátedra. Como aceitar o fato de que a ordem visível do Universo não seja o produto de uma inteligência primordial?

Em outra passagem, Empédocles descreve as monstruosidades que resultaram dos encontros fortuitos das partes esparsas: “Cresceram muitas (criaturas) com duplo rosto e duplo peito, bovinos com face humana ou, ao contrário, homens com cabeça de boi, e seres misturados, aqui de homens, ali à maneira de mulheres, providos de órgãos sexuais umbrosos”. (4) Assim, Empédocles parece fornecer uma explicação científica para uma classe de representações mitológicas: minotauros, centauros, sereias, quimeras e outras criaturas compostas (notemos também a menção aos hermafroditas humanos na passagem acima) seriam espécies extintas que sucumbiram na luta pela vida. Mutatis mutandis, a paleontologia daria razão a Empédocles. Além disso, não há zoólogos que afirmam que certas lendas envolvendo animais fantásticos podem remontar a antigos encontros de populações humanas com espécies atualmente extintas da megafauna pleistocênica? Sabemos que a gênese dos mitos gregos não é explicada dessa maneira (minotauros e criaturas afins não existiram em nenhuma época), embora a hipótese de Empédocles seja bastante plausível. (5)

Uma dúvida é suscitada pelo processo biogenético naturalista que acabamos de descrever: qual a origem das partes individuais (cabeças, braços, olhos etc.) que se combinam aleatoriamente para formar as totalidades orgânicas sujeitas à seleção natural? O olho humano, sem dúvida, é um exemplo proverbial de complexidade funcional. Sedley argumenta que as criações, pelo amor, de tecidos vivos e de órgãos individuais são “atos enfaticamente inteligentes e intencionais”. (6) Propenso, na contramão da historiografia dominante (a qual temos bons motivos para endossar), a enxergar traços da crença no design inteligente em todo o pensamento pré-socrático (exceção feita aos atomistas), Sedley recorre, por exemplo, à analogia traçada por Empédocles entre a anatomia do olho humano e a estrutura inteligente de uma lanterna (Empédocles acreditava que o olho continha fogo). A evidência aduzida por Sedley é notavelmente frágil, visto que a descrição anatômica e funcional de Empédocles é teologicamente inócua. Não seria uma contradição em termos supor que um materialista pudesse explicar a função do olho sem empregar a linguagem teleológica? O reconhecimento da engenhosidade funcional de uma estrutura orgânica (teleologia interna) deve ser cuidadosamente distinguido da hipótese do design inteligente (teleologia externa ou sobrenatural). Empédocles, ao que tudo indica, apenas comparou uma construção biológica a um artefato humano. Nos dias de hoje, nenhum darwinista teria dificuldade em comparar o olho humano a um telescópio.

De todo modo, até mesmo Sedley reconhece que a segunda fase do processo biogenético de Empédocles – correspondente à combinação fortuita dos órgãos esparsos e à seleção natural dos compostos viáveis – não contém nenhuma referência à ideia de design inteligente. (7) Admitimos, portanto, que não há teleologia sobrenatural na biologia de Empédocles.

Não há dúvida de que a hipótese biogenética naturalista formulada pela primeira vez por Empédocles teve uma carreira filosófica das mais profícuas. Na Antiguidade, Lucrécio incorporou a argumentação do siciliano ao sistema atomista. (8) Na modernidade, a hipótese de Empédocles-Lucrécio foi reproposta por filósofos como Diderot (Lettre sur les aveugles, 1749), La Mettrie (Système d’Épicure, 1750), Maupertuis (Essai de cosmologie, 1751) e Hume (Dialogues Concerning Natural Religion, 1779), os quais foram leitores entusiastas de De rerum natura. O fato é que esta obra serviu de veículo para a propagação da contribuição inovadora de Empédocles. E, como explica Mark Brake, não poderíamos menosprezar a importância dessa teoria biogenética no contexto da história do materialismo: “Certamente, Lucrécio foi o principal alvo dos ataques de criacionistas até a publicação de A origem das espécies, em 1859. Ele ainda tem um lugar nos infames ‘museus negros’ criacionistas de pensadores evolucionistas”. (9)

Como outros pré-socráticos de maneira geral, Empédocles foi um materialista em sentido lato que, não obstante, esteve próximo do materialismo estrito. Em seu sistema, todas as coisas são formadas pelas combinações de quatro elementos básicos, denominados raízes: ar, água, terra e fogo. Como criador da ideia de elemento e precursor da química moderna, Empédocles explica, por exemplo, que o sangue é formado de proporções iguais das quatro substâncias primordiais; os ossos, de duas partes de terra, duas de água, e quatro de fogo. Expressa numa fórmula química, teríamos a seguinte composição química do osso: T2A2F4. (10)

Ingênitos, imutáveis e indestrutíveis, os elementos retêm, em certo sentido, os atributos do ser parmenidiano, de modo que Empédocles logra conjugar, à sua maneira, as exigências lógicas do eleatismo com o fenômeno do devir. Numa manobra genial, a gênese e o perecimento são transferidos para o nível dos compostos formados pela mistura dos elementos primitivos e irredutíveis: “Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais, como não há fim na morte funesta, mas somente composição e dissociação dos elementos compostos: nascimento não é mais do que um nome usado pelos homens”. (11) Mais de dois milênios depois, Lavoisier enunciaria o mesmo princípio.

Embora rejeitasse a existência do vácuo, Empédocles admitia a possibilidade do movimento, se concebêssemos que os espaços deixados pelos corpos que se deslocam são imediatamente ocupados por outros corpos (tal concepção de movimento será um dos princípios da física cartesiana).

Ademais, Empédocles postula a existência de duas “forças” (12) antagônicas, o amor e o ódio, responsáveis pela união e pela separação dos elementos. “Como as quatro raízes, o amor e o ódio são concebidos como coisas materiais. Até então, nenhum grego tinha articulado a concepção de um ser incorpóreo, e a evidência existente em Empédocles sugere uma visão física desses ‘deuses’”. (13) Dito de outro modo, a visão fisicalista dos pré-socráticos não era o resultado de uma argumentação filosófica, mas uma crença assumida sem reflexão. Com a invenção platônica do conceito metafísico de imaterialidade, os epicuristas e os estoicos puderam fornecer de modo inédito uma sustentação argumentativa para a ontologia materialista. (14)

Poder-se-ia afirmar com certa razão que a teologia materialista dos pré-socráticos contém algo de bárbaro. Para Empédocles, tanto o amor como o ódio possuem comprimento e largura e movem-se no espaço. Eles seriam, portanto, semelhantes a imensas massas gasosas que põem em movimento outras massas de matéria. Fiel ao caráter radicalmente transcendental da verdadeira metafísica, Wittgenstein declarou: “Como o mundo é, é para O que está acima, completamente indiferente. Deus não se revela no mundo”. (15) No entanto, uma tendência empirista parece ser inseparável das mais diversas manifestações religiosas. Num capítulo da Dialética negativa intitulado Somente uma metáfora, Adorno observou – talvez influenciado pelos ensinamentos de seu professor, Paul Tillich – que “Os teólogos não foram capazes de se abster de ponderações pueris sobre as consequências das viagens de foguetes para a cristologia, ao passo que o interesse infantil pelas viagens espaciais revela o infantilismo latente nas mensagens de salvação”. (16) Não há nada de espantoso nisso, se considerarmos que a maioria dos cristãos admite a existência de uma divindade interna ao sistema do mundo empírico, uma vez que geralmente se crê que ela interfere nas mais variadas ocorrências da ordem natural, dos eventos quânticos à evolução das espécies. Não se afirma apenas que Deus dá o ser à totalidade do Universo, à maneira da causa primeira de Tomás de Aquino, mas que ele age no interior da natureza, dando origem ao big bang (um evento empírico) e ao design inteligente dos organismos, além de responder a orações e operar milagres.

Em anos recentes, o movimento conhecido como novo ateísmo – originado pela publicação de The God Delusion (2006), de Richard Dawkins – apresentou-se como uma crítica científica dos enunciados teológicos. O teólogo norte-americano John Haught, um campeão atual do ponto de vista metafórico, decifrou acuradamente a índole empirista do movimento. De acordo com Haught, os argumentos dos novos ateus são apenas o reflexo invertido das crenças dos criacionistas científicos:

Pensar em Deus como uma hipótese reduz o infinito mistério divino a uma causa científica finita, e adorar algo finito é idolatria. A noção de uma hipótese de Deus faz Deus encolher até o tamanho de um elo da cadeia causal, e essa diminuição equivale a um ateísmo bem mais radical do que nossos três fautores da impiedade [Dawkins, Harris e Hitchens] poderiam alguma vez ter inventado por si mesmos. (17)
Haught tem razão em um ponto. Em certo sentido fundamental, é verdade que os novos ateus agem como Iúri Gagárin. Ao retornar da primeira viagem realizada por um ser humano ao espaço sideral, o cosmonauta russo teria declarado não ter visto Deus. Na visão cientificista dos novos ateus, Deus é tratado como um objeto empírico semelhante ao monstro do lago Ness ou aos espíritos do espiritismo. Evidentemente, um metafísico consideraria execrável a ideia de uma divindade como a dos pré-socráticos. Porém, o que Haught tem a oferecer em lugar das hipóteses dos religiosos empiristas? Naturalmente, Haught é obrigado a recorrer às abstrações selvagens de um teólogo sofisticado como Tillich, de acordo como o qual, para dizer sem subterfúgios, Deus é apenas um símbolo para o nada. Mas uma abstração vazia não parece ser capaz de trazer a mínima satisfação aos religiosos de carne e osso. Se o mundo do ateu é empiricamente idêntico ao mundo do teísta refinado à La Tillich, que benefício o crente pode esperar dessa teologia?

Acrescente-se a isso que os teólogos da estirpe de Haught cometem uma petição de princípio: uma coisa é dizer que o verdadeiro Deus não corresponde aos conceitos formulados pelos religiosos empiristas e por seus críticos ateus; outra, demonstrar que uma divindade empírica não existe. Por acaso a existência de unicórnios é confutada pelas abstrações de Tillich? Haught não dispõe dos instrumentos conceituais adequados à crítica, por exemplo, do argumento do desígnio, o qual, como sabemos, é dotado de conteúdo empírico. Os novos ateus desprezados por Haught, em contrapartida, forneceram uma resposta empírica consistente com uma teologia naturalizada.

Em semelhança com a hipótese avaliada pelos novos ateus, a teologia de Empédocles – como, de resto, a de todos os pré-socráticos – é uma teologia naturalizada ou empírica. Não exageremos, contudo, na comparação entre o sistema de Empédocles e as religiões abraâmicas. As divindades pré-socráticas pouco têm a ver com o Deus intervencionista judaico-cristão-islâmico. De fato, além de constituídas de algum tipo de matéria, as forças cósmicas postuladas por Empédocles são entidades dotadas de inteligência, assim como os quatro elementos. Porém, de modo típico no pensamento pré-socrático, Empédocles parece prescindir de causas finais em suas explicações científicas detalhadas: o relato da formação aleatória dos organismos é uma prova disso. Aristóteles ajuíza de modo cortante: “Ainda que eles [os filósofos pré-socráticos] introduzam alguma outra causa (amor e ódio, por exemplo, ou a inteligência), eles meramente tocam nela e então a deixam de lado”. (18) Por isso, dizemos que, no que respeita à cosmologia, Empédocles esteve próximo do materialismo estrito. (19)

O mesmo não pode ser dito de sua psicologia. Influenciado pelas ideias pitagóricas em voga no sul da Itália, Empédocles foi um notável proponente da doutrina da metempsicose. Acreditando ser capaz de rememorar suas vidas passadas, ele declarou: “Pois eu já fui moço, e moça, e planta, e pássaro, e um mudo peixe do mar”. (20) As palavras de Empédocles implicam claramente, contra a tese de Guénon, na transmigração do próprio ser individual. Em sua polêmica contra o espiritismo, Guénon sustenta que a doutrina do progresso por meio da transmigração da personalidade é uma doutrina exclusivamente moderna que remonta a Lessing e aos socialistas franceses Fourier e Pierre Leroux, dos quais foi tomada por Kardec. (21) Os testemunhos de Pitágoras e de Empédocles são suficientes para demonstrar a inverdade dessa tese. Em conformidade essencial com a vertente latina do espiritismo moderno, Empédocles desenvolve a teoria segundo a qual um ciclo de reencarnações é imposto aos espíritos (daimones) como forma de expiação por faltas cometidas em outras vidas. As faltas mencionadas por Empédocles são o perjúrio, o abate de animais e o ato de comer carne, e o ciclo reencarnatório é estipulado em dez mil anos.

A alma, segundo Empédocles, é uma entidade material e distinta do corpo “físico” (a psicologia de Empédocles, portanto, é materialista apenas em sentido lato). (22) Como no caso de Heráclito, é preciso observar que a crença na sobrevivência e na transmigração da alma não equivale à crença na imortalidade em sentido forte. (23) Não há nenhuma indicação na teoria de Empédocles de que as almas não estejam sujeitas à dissolução após um período indeterminado. À guisa de analogia, citemos a seguinte mensagem transmitida aos físicos holandeses Matla e Zaalberg van Zelst, por volta de 1912. Nela, um espírito desencarnado descreve em termos precisos a constituição física dos habitantes do além e dá informações sobre sua expectativa de vida:

O corpo desses espíritos é material e composto de uma massa gasosa que tem aproximadamente o peso do ar; ele é composto de uma cabeça e de um peito; não há braços, pernas, nem abdômen [...]. Em média, os espíritos vivem de 100 a 150 anos. A densidade do corpo aumenta até a idade de 100 anos; depois, a densidade e a força diminuem, e eles finalmente se dissolvem, como tudo na natureza é dissolvido [...]. (24)
Mais uma vez, diante de um exemplar tão eloquente de teologia (ou pneumatologia dualista) naturalizada, seria sumamente interessante conhecer a utilidade da teologia metafísica de Haught para a análise crítica das doutrinas formuladas por Empédocles e pelos espíritas. Deus é o “Totalmente Outro”; muito bem, mas como esta proposição poderia servir para a refutação de algo como o dualismo materialista? Na melhor das hipóteses, Haught prova apenas que seu Deus não é a entidade empírica visada pelos novos ateus; e tampouco a entidade em que crê a maioria dos crentes.

O caráter cíclico não pertence apenas à teoria de Empédocles sobre o destino das almas. Nosso filósofo descreve um ciclo cósmico que se repete interminavelmente, e que é regido pelas influências opostas e intermitentes do amor e do ódio. Nele, os quatro elementos são alternadamente misturados e separados. Inicialmente, sob o domínio do amor, todos os elementos estão completamente mesclados no formato de uma esfera que remete à filosofia de Parmênides; depois, por obra do ódio, os elementos são progressivamente separados em massas distintas; em seguida, o amor reinicia o processo de aglutinação, o qual culmina na formação de uma esfera, e o ciclo recomeça.

Os detalhes desse ciclo cósmico são obscuros e alimentam vivos debates exegéticos. Limitemo-nos a assinalar que Empédocles propõe uma biogênese alternativa, menos interessante e engenhosa do que aquela operada pelo poder combinatório do amor e pela seleção natural. Empédocles relata o nascimento, sob a ascendência crescente do ódio, de brotos de homens e de mulheres, impelidos pelo fogo que se separa dos outros elementos. A relação entre os dois processos biogenéticos é motivo de disputa entre os comentadores.


Bibliografia

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HAUGHT, J. F. God and the New Atheism. A Critical Response to Dawkins, Harris, and Hitchens. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2008.

SEDLEY, D. Creationism and Its Critics in Antiquity. Berkeley: University of California Press, 2007.

WITTGENSTEIN, L. Tratado lógico-filosófico. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1995.

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Notas
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(1) The Lives and Opinions of Eminent Philosophers, Livro VIII.

(2) The Origin of Species, p. 17, nota 1.

(3) Física, II, 8, 198b, pp. 50-51.

(4) Apud G. BORNHEIM (org.), Os filósofos pré-socráticos, p. 74.

(5) Conforme algumas especulações, o lendário mapinguari amazônico, por exemplo, poderia ser uma reminiscência cultural de uma espécie de preguiça-gigante (Mylodon darwinii), extinta há cerca de dez mil anos.

(6) Creationism and Its Critics in Antiquity, p. 60.

(7) Sedley fala de uma “mudança de direção explanatória do design para o acidente”. Cf. Creationism and Its Critics in Antiquity, p. 60.

(8) “Lucrécio segue Empédocles de modo particularmente próximo na doutrina [...] criticada por Aristóteles. Sua própria explicação do desenvolvimento das formas vivas inclui traduções de linhas da parte relevante de Sobre a natureza, de Empédocles”. Cf. D. FURLEY, Cosmic Problems. Essays on Greek and Roman Philosophy of Nature, p. 179.

(9) Alien Life Imagined. Communicating the Science and Culture of Astrobiology, p. 27.

(10) D. W. GRAHAM, Explaining the Cosmos: The Ionian Tradition of Scientific Philosophy, p. 217.

(11) Apud G. BORNHEIM (org.), Os filósofos pré-socráticos, p. 69.

(12) Frequentemente, o amor e o ódio da doutrina de Empédocles são chamados de “forças”. A denominação, embora consagrada pela tradição, é imprópria, pois, de acordo com Empédocles, ambos são entidades, e não propriedades da matéria. Melhor seria, assim, considerá-los agentes cósmicos incumbidos da associação e da dissociação dos elementos. Um erro análogo é cometido pelos partidários da Nova Era, quando utilizam o termo “energia” para designar todas as coisas de modo indiscriminado.

(13) B. INWOOD, The Poem of Empedocles. A Text and Translation with an Introduction by Brad Inwood, p. 51.

(14) Isso ocorre quando epicuristas e estoicos invertem um argumento antimaterialista formulado por Platão no Sofista.

(15) Tratado lógico-filosófico, 6.432, p. 140 [grifos do autor].

(16) Negative Dialectics, p. 399.

(17) God and the New Atheism. A Critical Response to Dawkins, Harris, and Hitchens, p. 43.

(18) Física II, 8, 198b, p. 50.

(19) Para o materialismo filosófico, a rejeição das explicações teleológicas é mais significativa do que a admissão – além do mais, irrefletida, no caso dos pré-socráticos – de uma ontologia materialista (tenhamos em mente que a ontologia materialista é professada, por exemplo, pelos espíritas). Assim, a inclusão dos pré-socráticos nesta história do materialismo é justificada, em primeiro lugar, pela tendência naturalista presente desde a explicação dos terremotos por Tales de Mileto. No pensamento pré-socrático, a inteligência divina deixa de ser essencial para a compreensão do cosmo, ainda que o ateísmo em sentido estrito seja estranho à mentalidade antiga.

(20) Apud G. BORNHEIM (org.), Os filósofos pré-socráticos, p. 79.

(21) The Spiritist Fallacy, p. 37.

(22) Conforme alguns fragmentos de Empédocles, os deuses são compostos dos elementos físicos, e os daimones são deuses exilados e submetidos ao ciclo reencarnatório.

(23) “Nada na doutrina da reencarnação requer um ser estritamente imortal; um ser que dura o bastante para nascer em várias encarnações diferentes é suficiente”. Cf. B. INWOOD, The Poem of Empedocles. A Text and Translation with an Introduction by Brad Inwood, p. 55.

(24) Apud R. GUÉNON, The Spiritist Fallacy, pp. 145-146.