04/03/2012

Corpo astral, ou o problema da vida após a morte

O pensamento é para o cérebro,
aproximadamente, o que a bile é para
o fígado e a urina para os rins.

Carl Vogt

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Desde os primeiros dias do espiritismo,
o além nada comunicou de mais significativo
do que as saudações da avó falecida
ou a profecia de uma viagem iminente.

Theodor Adorno


Colocação do problema

Qual é o destino da individualidade humana após a dissolução do corpo? Há vida após a morte? Seria a existência humana algo além de um breve intervalo entre dois nadas? A vida, como dizia Jó (7:7), seria apenas um sopro? A questão colocada é de suma importância. Não seria um exagero considerá-la questão filosófica mais importante. Afinal, o que poderia ser mais importante na existência humana, a não ser a existência do próprio eu? A aniquilação da consciência individual não seria exatamente a aniquilação do mundo, ou seja, da existência vivenciada por mim? Se a morte do corpo corresponde à aniquilação da consciência, morrer é como nunca ter vivido, e somente uma aberração poderia encarar o assunto com indiferença. Como afirmou Pascal, “A imortalidade da alma é uma coisa que nos importa muito e que nos toca tão profundamente que é preciso ter perdido todo sentimento para ficar indiferente de saber o que isto é”. (1)

Tradicionalmente, religiões e sistemas filosóficos propuseram três alternativas para explicar a permanência da individualidade humana após a dissolução do corpo: a ressurreição da carne, a sobrevivência de um espírito metafísico e a sobrevivência de um espírito físico. Não discutiremos aqui a doutrina cristã da ressurreição de Jesus, pois isso foi feito por nós em outro lugar (ver o texto “O problema da ressurreição”, já publicado no blog). Trata-se, indubitavelmente, de uma hipótese altamente extravagante e problemática. Não há evidências adequadas de que um homem tenha sido ressuscitado em Jerusalém há cerca de 2000 anos, assim como não há evidências adequadas de que, conforme o relato de Mateus acerca dos eventos sobrenaturais que acompanharam a morte de Jesus, muitos corpos de santos saíram dos sepulcros e foram vistos por várias pessoas em Jerusalém (27:52-53). Analisemos então as duas possibilidades remanescentes, a sobrevivência de espíritos metafísicos e a sobrevivência de espíritos físicos. A primeira pode ser rejeitada sem maiores dificuldades. Espíritos imateriais ou metafísicos são entidades análogas ao cogito cartesiano, ou seja, entidades ontologicamente (essencialmente) distintas da matéria. Ora, até hoje nenhum filósofo forneceu uma definição de ser espiritual. Dirão que um espírito é um ser não-material ou não-corpóreo, ou seja, só poderão fornecer uma definição negativa do termo. Mas o que é um ser não-material? Necessitamos de uma definição positiva. Alguns poderão responder que definimos a escuridão da mesma maneira, o que é correto: escuridão é ausência de luz, assim como o nada é ausência de ser. Um espírito, portanto, como negação do ser material, não seria nada. Hobbes afirmou que

O mundo [...] é corpóreo, isto é, corpo, e tem as dimensões de grandeza, a saber, comprimento, largura e profundidade; também qualquer parte do corpo é igualmente corpo e tem as mesmas dimensões, e consequentemente qualquer parte do universo é corpo e aquilo que não é corpo não é parte do universo. E porque o universo é tudo, aquilo que não é parte dele, não é nada, e consequentemente está em nenhures. (2)

Um espírito incorpóreo seria uma impossibilidade lógica, e tudo o que existe seria necessariamente composto de alguma forma de matéria. De modo que, para Hobbes, os próprios espíritos (se eles existissem) seriam materiais:

Não se segue daqui que os espíritos não sejam nada, pois têm dimensões e são portanto realmente corpos, muito embora esse nome, na linguagem comum, seja dado apenas àqueles corpos que são visíveis, ou palpáveis, isto é, que possuem algum grau de opacidade, mas quanto aos espíritos chamam-nos incorpóreos, o que é um nome de mais honra [...]. (3)

Ademais, poderíamos perguntar: como um espírito puro poderia interagir com a matéria? Qual realidade intermediária poderia servir como ponto de contato entre duas substâncias absolutamente distintas? Tais questões permanecem sem respostas no sistema dualista. Na realidade, a psicofísica cartesiana é uma absurda mistura de física e metafísica. O filósofo americano Richard Watson oferece um panorama histórico esclarecedor da derrocada do dualismo substancial de Descartes em The Breakdown of Cartesian Metaphysics. De acordo com Watson, “Porque Descartes insiste no dualismo ontológico, ele é forçado a aceitar a incompatibilidade entre a física e a psicologia”. (4) Assim, se tais ciências são incompatíveis, como poderíamos explicar a relação entre a realidade corpórea (objeto da física) e a alma imaterial (objeto da psicologia)?

Havíamos rejeitado a hipótese de uma ressurreição miraculosa do corpo. Agora, rejeitamos a existência de espíritos metafísicos. Resta-nos a análise da alternativa remanescente, a existência de espíritos materiais. Servimo-nos do termo corpo astral dos ocultistas para designar todas as espécies de espíritos materiais cuja existência é afirmada pelas mais diversas religiões e sistemas filosóficos. Ao conceito de corpo astral, por exemplo, corresponde o conceito de perispírito do espiritismo. Com efeito, os espíritos do espiritismo são dotados de corpos sutis ou fluídicos. De acordo com René Guénon, os ocultistas

fazem do elemento intermediário [da natureza humana] um corpo, o ‘corpo astral’, o qual se assemelha estreitamente ao ‘perispírito’ dos espíritas. Todas as teorias deste gênero têm o defeito de ser fundamentalmente apenas um tipo de transposição de concepções materialistas. (5)

As palavras de Guénon são úteis para evidenciar a natureza materialista da doutrina espírita, segundo a qual pouca coisa é modificada na passagem da existência terrena para a existência no além. Mas não consideramos, como Guénon, que o materialismo inerente às concepções espíritas seja um defeito. Desejamos apenas investigar a questão da existência objetiva de tais entidades materiais (corpos astrais ou perispíritos).

A presente questão é dotada de um profundo significado teológico, embora não esteja vinculada ao problema teológico de maneira direta. A existência de Deus é logicamente independente da existência de uma vida após a morte. La Mettrie, proponente do materialismo antropológico (entendido como a redução da consciência a uma função do cérebro), não foi um agnóstico em relação à existência de uma divindade criadora e organizadora do universo? E não há relatos de espíritos que, em suas comunicações com médiuns, defenderam o ateísmo? Mas não devemos nos enganar. Talvez o melhor caminho para solapar a crença em Deus seja a refutação da existência da vida após a morte. Pois, como disse Unamuno, por que acreditaríamos na existência de Deus se não fosse por um interesse profundamente pessoal?

Um dia, falando com um camponês, propus-lhe a hipótese de que houvesse, de fato, um Deus que rege o céu e a terra. Consciência do Universo, mas que, apesar disso, a alma de cada homem não seria imortal no sentido tradicional e concreto. E ele me respondeu: “Então, para quê Deus?”. (6)

Nos dias de hoje, constatamos a ocorrência de uma miríade de discursos a favor de várias formas distintas de religiosidade, e uma das saídas mais comuns tem sido afirmar: não professo nenhuma religião em particular, mas creio em “algo superior”, sendo este “algo” uma realidade mal-determinada e obscura. Mas há um caminho rápido e confortável que nos permite contornar tais declarações nebulosas e atingir prontamente o alvo: questionar a hipótese da sobrevivência da individualidade após a morte. Aqui, a nebulosidade é dissipada e a resposta requerida é preto no branco: ou a individualidade permanece ou é destruída com o corpo. A tolerância pusilânime em relação às religiões, ou melhor, em relação a algo que todas teriam em comum, é exterminada com um tiro certeiro. A perspectiva da anulação total do eu não poderia favorecer o apego às proposições religiosas.

Uma outra tentativa de salvaguardar o suposto ouro das religiões sempre foi o alegorismo. Pois bem, mais uma vez a questão que nos ocupa tem a virtude de atravessar os discursos apologéticos e atingir o âmago do problema: gostaríamos de viver como alegorias no além? Neste ponto, os adeptos das interpretações alegóricas são chamados à honestidade. Ainda que os sistemas religiosos sejam capas simbólicas de metafísicas profundas, a permanência da individualidade após a morte não poderia ser uma alegoria. Uma sobrevivência real só poderia ser uma sobrevivência adequada à existência de seres de carne e osso, existência destituída da menor analogia com o modo de ser das metáforas.

No fundo, ninguém está realmente preocupado com a questão teorética da existência de Deus, mas com a questão prática da sobrevivência da individualidade após a morte. A contemplação da iminência do nada absoluto não é nem um pouco atraente. É evidente que não se trata da perspectiva aterradora de uma cova fria e escura à mercê da putrefação e dos vermes, mas, ao contrário, da perspectiva ainda mais aterradora da aniquilação de toda consciência e de toda sensibilidade. O vazio da morte não apenas põe um término à duração da vida como destrói irrevogavelmente todas as lembranças, sejam elas felizes ou infelizes. E uma vida que desaparece no nada é uma vida sem sentido.

Não podemos ser acusados de cometer a falácia genética, pois não vinculamos a questão da existência de Deus a pendores psicológicos. Certamente, ela pode ser discutida no plano puramente teorético. Dissemos apenas que, diante da mortalidade absoluta do indivíduo, a questão teológica perde seu interesse para os crentes. Se a morte é realmente a última palavra, a existência de Deus é uma existência inútil. A negação da imortalidade da alma, portanto, é o caminho mais curto e efetivo para atingir o coração do sentimento religioso.

Como já explicamos, neste texto, quando falamos em “espíritos”, não nos referimos ao cogito imaterial da metafísica de Descartes, mas a espíritos empíricos, verificáveis, compostos de algum tipo de matéria, conforme o exemplo dos espíritos do espiritismo. Somente uma alma material poderia interagir com um cérebro material. Com esta verdade em mente, investigaremos a hipótese da existência de uma alma material distinta do cérebro. Com o intuito de uniformizar a terminologia, chamaremos a alma material de corpo astral. Propomos três argumentos que, a nosso ver, são suficientes para demonstrar a extrema improbabilidade da existência de corpos astrais: o argumento da correlação, o argumento da filogenia e o argumento da ausência de provas concretas dos supostos fenômenos mediúnicos.


O argumento da correlação

A consciência é independente do cérebro? Se isso fosse verdade, haveria evidências a favor dessa hipótese. Na verdade, todas as evidências indicam que a consciência é uma atividade do cérebro, assim como a digestão é uma atividade do aparelho digestivo: não seria absurdo postular a existência da digestão independentemente dos órgãos responsáveis por ela? De acordo com Büchner,

Que o cérebro seja o órgão do pensamento, e que ambos estejam em uma relação de tal maneira imediata e necessária, que um não possa existir e nem ser imaginado sem o outro, é uma verdade da qual um médico ou um fisiologista não podem duvidar. (7)

Em L’homme machine, La Mettrie menciona inúmeros fatos que comprovam essa dependência: os efeitos das doenças, do sono, das paixões, de estados corporais variados, das drogas, dos alimentos, da fome, da idade, da educação, do clima etc. “Os diversos estados da alma são, portanto, sempre correlativos aos do corpo”. (8) Hoje dispomos de algumas tecnologias sequer sonhadas por La Mettrie, por meio das quais podemos enxergar os pensamentos no interior de um cérebro em funcionamento. A ressonância magnética funcional detecta o aumento do fluxo sanguíneo em certas áreas do cérebro e confirma que os processos mentais são acompanhados de atividades neuronais localizadas. Isso ocorre porque as áreas ativadas pelo funcionamento do cérebro consomem mais oxigênio, o que acarreta um aumento local do fluxo sanguíneo.

Doenças e lesões cerebrais fornecem um forte argumento contra o dualismo. Vejamos o caso do Mal de Alzheimer, doença degenerativa do cérebro que costuma ocorrer em idosos. As alterações cerebrais causam a deterioração de faculdades cognitivas como o raciocínio, a memória e a linguagem, além de alterações comportamentais. O principal sintoma da doença de Alzheimer é a perda progressiva da memória. A preservação da memória remota ocorre no estágio inicial da doença, mas tende a desaparecer em estágios posteriores. O cérebro de um portador de Alzheimer apresenta alterações decorrentes da deposição anormal de certas proteínas no tecido neuronal. Essas alterações, que provocam a morte dos neurônios, começam a ocorrer na parte medial do lobo temporal, situado na porção lateral do cérebro. Trata-se de uma área responsável pelo armazenamento de memórias. Pois bem: uma vez morto, um portador de Alzheimer recuperaria todas as capacidades cognitivas perdidas ao longo do processo degenerativo? Ele retornaria a qual estágio de seu desenvolvimento mental? À infância, à maturidade ou a algum estágio da velhice? São questões burlescas colocadas pela hipótese espiritualista. O mal de Alzheimer oferece um quadro bastante nítido da morte progressiva e parcial do cérebro. Se, na morte parcial, as funções da consciência são indubitavelmente afetadas, por que a consciência permaneceria intacta após a morte total do cérebro? De acordo com os espiritualistas, um indivíduo morto conservaria o aprendizado de uma língua, por exemplo, mas não os danos cerebrais causados por uma doença degenerativa. Mas como poderíamos separá-los?

A ontogenia, história do desenvolvimento individual, também revela a dependência da consciência em relação ao corpo. O desenvolvimento do espírito da criança acompanha o desenvolvimento do cérebro. De maneira análoga, o espírito do velho perde suas forças à medida que o cérebro se atrofia. Se a hipótese espiritualista fosse verdadeira, o espírito de um indivíduo que morre conservaria qual estágio mental? Os mais sonhadores poderão dizer que o espírito retém somente os ganhos cognitivos, e não as perdas, como se ambos os processos não fizessem parte da história unitária do mesmo cérebro...

Em cirurgias cerebrais, a manipulação de determinadas áreas do cérebro produz a estimulação de certas memórias, ao passo que a destruição de partes específicas ocasiona a destruição de memórias específicas. “Observamos em indivíduos trepanados que, em decorrência da perda de algumas partes do cérebro, alguns anos ou algumas épocas de sua vida foram apagados de sua memória”. (9) De maneira semelhante, todo novo aprendizado é acompanhado de mudanças na estrutura das redes neuronais.

Todos esses fatos são exatamente o que deveríamos esperar caso a hipótese materialista fosse verdadeira. Concluímos daí que a hipótese espiritualista é gratuita e não está amparada por evidências. Com efeito, ninguém estaria autorizado a afirmar que o processo digestivo continuaria a ocorrer na ausência de um aparelho digestivo em condições funcionais. A fisiologia admite que o cérebro é o órgão do pensamento, e a hipótese espiritualista contradiz o conhecimento científico. Como afirmou Vogt, “O pensamento é para o cérebro, aproximadamente, o que a bile é para o fígado e a urina para os rins”. (10) Não é difícil perceber por que os espiritualistas não falam dos processos mentais do mesmo modo como falam dos demais processos orgânicos (circulação, respiração, digestão...). Em nenhuma outra área da vida a desonestidade tem um apelo tão forte. É o interesse pessoal mais profundo que está em jogo. Somente a fé (a crença na ausência de evidências) resultante do amor-próprio poderia nutrir a ideia de uma imortalidade do ser individual, pois todas as evidências apontam para a realidade da morte absoluta. Mas o filósofo deve aceitar o universo como ele é, e não como ele desejaria que ele fosse.


O argumento da filogenia

A filogenia (evolução das espécies) fornece evidências suplementares para a hipótese materialista. Para descobri-las, lancemos um olhar sobre a possível constituição biológica dos supostos espíritos empíricos ou corpos astrais. De acordo com os espiritualistas, todas as faculdades mentais dos seres humanos devem ser atribuídas aos espíritos. Os indivíduos desencarnados são essencialmente idênticos aos indivíduos encarnados.

Ora, um corpo astral seria uma entidade capaz de ver sem olhos e pensar sem um cérebro? A não ser que aceitemos a possibilidade de uma entidade desempenhar funções sem os órgãos correspondentes, o corpo astral é necessariamente uma entidade complexa, um organismo vivo análogo ao corpo físico ordinário. Não afirmamos que todas as entidades orgânicas possíveis sejam dotadas de órgãos semelhantes àqueles encontrados nos seres vivos que habitam o planeta Terra. Afirmamos apenas que elas necessitam de órgãos adequados ao desempenho de suas funções. Logo, um corpo astral, como um organismo complexo, deveria surgir por meio de um processo evolutivo que vai das formas mais simples às formas mais complexas. Negar a formação evolutiva dos corpos astrais equivaleria a admitir que uma sopa de letras pudesse formar ao acaso uma página da Bíblia, ou que um furacão pudesse construir um automóvel ao passar por um ferro-velho. O bom senso não poderia aceitar uma improbabilidade tão monstruosa. Rochas e nuvens são entidades simples. Elas não são capazes de digerir alimentos, respirar, sentir, raciocinar e desempenhar as demais funções dos seres vivos. Uma laranja não é capaz de pensar. Por quê? Como todas as características biológicas, as faculdades mentais surgem gradualmente na filogenia. Uma entidade dotada de funções mentais é uma entidade complexa. Portanto, o corpo astral é um organismo complexo que surgiu por meio da evolução por seleção natural. Não há outra alternativa plausível para explicar a passagem não dirigida da simplicidade para a complexidade. Acreditamos que a admissão deste fato é suficiente para solapar a crença no espiritualismo. Com efeito, a existência de espíritos sempre foi defendida como uma alternativa ao mecanicismo inerente ao evolucionismo materialista. No sistema espiritualista, o corpo astral é o fundamento de uma biologia vitalista. O vitalismo é a doutrina que, desde a Antiguidade, explica os fenômenos orgânicos a partir de um poder ou princípio distinto da mecânica e da química: um elã vital misterioso. Os últimos proponentes instruídos do vitalismo, tais como o filósofo francês Henri Bergson e o biólogo alemão Hans Driesch, atuaram nas primeiras décadas do século XX. Desde então, o vitalismo tornou-se uma teoria científica obsoleta e aninhou-se em correntes espiritualistas e nas chamadas “medicinas alternativas”. Como afirmou Ernst Mayr, um dos maiores biólogos do século XX,

Mesmo considerando quão dominante o vitalismo foi na biologia e quão longo foi o período no qual prevaleceu, é surpreendente ver quão rápida e completamente ele desmoronou. O último apoio ao vitalismo como concepção válida em biologia desapareceu por volta de 1930. (11)

James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, afirma:

Nossa descoberta [feita com Francis Crick em 1953] pôs fim a uma discussão tão antiga quanto a espécie humana: será que a vida possui alguma essência mágica ou mística? Ou será que, como qualquer outra reação química realizada em laboratório, é produto de processos físicos e químicos normais? Existe algo divino no âmago da célula, que lhe dá vida? A dupla-hélice respondia a essa última pergunta com um “não” definitivo. (12)

A suposta essência mística da vida recebe uma grande variedade de denominações de acordo com as diversas culturas. Ela é o prana dos hindus, o chi ou qi dos chineses, o ki dos japoneses etc. No Ocidente, o vitalismo surge como reação à biologia mecanicista de Descartes (1596 – 1650) e de seus sucessores, e a essência mística da vida também recebe uma série de nomes: ela é o arqueu de Van Helmont, a alma de Stahl, a propriedade vital de Bichat, o magnetismo animal de Mesmer, o fluido vital dos espíritas etc. Atualmente, o vitalismo permanece vivo sobretudo através do conceito nebuloso de energia da Nova Era.

Na realidade, a força vital era apenas um nome pomposo para a ignorância relativa à natureza dos fenômenos orgânicos. Cada passo dado pela biologia foi um golpe desferido no vitalismo. Molière ridicularizou as “explicações” dos vitalistas quando fez seu Doente imaginário afirmar que o ópio faz dormir porque ele tem um poder dormitivo. Se um automóvel e um computador funcionam sem a presença de uma força vital, por que não o corpo humano? Uma mente pré-científica que contemplasse um automóvel ou um computador não atribuiria seu funcionamento a uma força vital obscura? Como Molière, Julian Huxley satirizou a atitude dos que atribuem o funcionamento de um trem a uma force locomotive que nada explica.

De acordo com as diversas correntes espiritualistas, o corpo astral é uma entidade composta de um “fluido vital”. Como vimos, uma entidade capaz de exercer funções mentais não poderia ser uma entidade simples. O sistema nervoso difuso de um celenterado, por acaso, é capaz de pensar? E o gânglio cerebral de um inseto? Assim, o corpo astral seria um organismo resultante da evolução por seleção natural. Ora, o corpo astral, como um organismo complexo, funcionaria sem a necessidade de uma força vital que o animasse? Se seu funcionamento orgânico não requer a presença de uma força vital, por que o funcionamento dos organismos materiais a requereria? A crença vitalista no corpo astral supõe o regresso infinito. O cérebro humano, afirmam os espiritualistas, não é capaz de pensar; um cérebro astral, no entanto...

Kardec afirma:

Se o pensamento fosse uma propriedade da matéria, ver-se-ia a matéria bruta pensar; ora, como jamais se viu a matéria inerte dotada de faculdades intelectuais; que quando o corpo está morto ele não pensa mais, é necessário disso concluir que a alma é independente da matéria [...]. (13)

O argumento de Kardec, apesar de sua ingenuidade chocante, contém uma verdade que contraria o propósito apologético do próprio Kardec. Certamente, não vemos uma pedra ou um pedaço de madeira tocar discos, ou uma barra de ferro digerir alimentos, e não concluímos disso que a matéria especificamente configurada é incapaz de desempenhar tais funções. É evidente que a matéria organizada como um cérebro pode realizar funções mentais, assim como a matéria organizada como sistema digestivo pode digerir alimentos. Em outras palavras, o pensamento não é uma propriedade da matéria em geral, mas da matéria especificamente configurada. De fato, a matéria desprovida de uma organização específica é incapaz de pensar ou realizar qualquer outra função orgânica. Cérebros são objetos materiais dotados de uma organização complexa. Do mesmo modo, uma porção simples de matéria astral seria tão incapaz de pensar quanto uma gota d’água. O argumento de Kardec é um tiro no próprio pé do espiritismo.

Está claro, portanto, que a crença no corpo astral é uma crença vitalista que nada explica. Não poderia haver maior contraste entre a cosmovisão espiritualista e a cosmovisão científica. A biologia moderna não recorre a forças vitais misteriosas para explicar a emergência das faculdades mentais superiores. Com efeito, a observação da filogenia revela que a capacidade de pensar não surge ex abrupto na espécie humana, mas gradualmente. Todas as faculdades mentais fazem parte da história evolutiva. Como as demais características orgânicas, elas existem graças a um processo construtivo que vai do simples ao complexo, por meio do acúmulo de variações úteis ao organismo. Darwin chamou tal processo de “evolução por meio da seleção natural”. No caso da evolução do olho, por exemplo, poderíamos observar uma série de graus de complexidade:

A razão me diz que, se é possível demonstrar a existência de numerosas gradações entre olhos perfeitos e complexos, de um lado, e olhos imperfeitos e rudimentares, de outro lado, com cada gradação se revelando útil para seu possuidor; que, se, ademais, os olhos sofrem variações mínimas, embora hereditárias, o que certamente ocorre; e se cada modificação sofrida por esse órgão sempre trará benefício para o animal que a possui, então dificilmente haveria problema em se acreditar que olhos perfeitos e complexos são o resultado de um processo de seleção natural, mesmo que tal ideia pareça a princípio inconcebível. (14)

Há, portanto, vários estágios intermediários (observáveis em organismos atuais) através dos quais os olhos puderam evoluir, desde o ocelo mais rudimentar até a sofisticada estrutura encontrada nos mamíferos. Para tornar o assunto mais claro, mencionemos alguns estágios importantes: células fotossensíveis; agregados de células pigmentares sem um nervo; um nervo óptico cercado de células de pigmento e coberto por uma película translúcida; células pigmentares que formam uma leve depressão; as mesmas células formando uma depressão mais profunda; a existência de uma película sobre a depressão com a forma de uma lente; e a presença de músculos que permitem o ajuste da lente. Todos esses estágios podem ser encontrados em organismos viventes: dinoflagelados (protozoários comuns no fitoplâncton) apresentam manchas oculares capazes de orientá-los em direção à luz; alguns equinodermos e platelmintos possuem cálices oculares que contêm células fotossensíveis, estrutura que permite uma melhor captação da direção das fontes luminosas; muitos mamíferos são dotados de apenas dois tipos de fotorreceptores cromáticos, o que lhes permite uma discriminação cromática inferior à dos humanos etc. Além disso, vários animais são dotados de capacidades visuais não encontradas na espécie humana. Os humanos, por exemplo, não veem as radiações ultravioletas, como as abelhas, e sua visão, no escuro, chega a ser cem vezes inferior à das corujas. (15)

O que dissemos a respeito do olho pode ser dito a respeito da história evolutiva da psicologia humana. Indubitavelmente, vários animais não humanos exibem sinais de capacidades mentais mais ou menos desenvolvidas. No que diz respeito às faculdades mentais e a todas as outras características biológicas, não há diferença de essência, mas apenas diferença de grau entre o ser humano e os outros animais. Darwin afirmou que

No tocante ao poder mental, somos obrigados a admitir que há uma separação muito maior entre um dos peixes mais inferiores, como uma lampreia e um anfioxo, e um dos macacos do Velho Mundo, do que entre um macaco do Velho Mundo e o homem; e este intervalo é preenchido por inúmeras gradações. (16)

Observemos um outro fato notável: no que se refere às faculdades mentais e às demais características biológicas, a distância entre o ser humano e o chimpanzé é menor do que a distância entre o chimpanzé e os macacos do Novo Mundo. Além disso, há grandes intervalos que separam os próprios membros da espécie humana, pois nem todos os indivíduos têm o intelecto de um Einstein. Com efeito, a diferença entre um gênio e um idiota não é menor do que a diferença entre um humano intelectualmente medíocre e um primata superior. Tais diferenças são conectadas por inúmeras gradações sutis. Vários animais, por exemplo, têm uma excelente memória em relação a pessoas e lugares. Quanto à capacidade de raciocinar, podemos observar que há diversos graus de inteligência espalhados pelas diferentes espécies do contínuo filogenético. Cães, golfinhos e macacos são conhecidos por sua inteligência.

Natura non facit saltus, a natureza não dá saltos. O axioma de Leibniz tornou-se um componente fundamental do evolucionismo darwiniano, segundo o qual há um contínuo que conecta todas as espécies extintas e atuais do planeta Terra. Seria arbitrário traçar uma linha em algum ponto da filogênese e afirmar que determinada característica aparece subitamente. De fato, exames moleculares revelaram que todas as espécies biológicas estão geneticamente conectadas. Se recuarmos o suficiente, os ancestrais de todos os organismos existentes são comuns. Podemos afirmar, portanto, que nossas faculdades mentais surgiram progressivamente na filogênese, como um produto do desenvolvimento do sistema nervoso. La Mettrie, precursor do evolucionismo moderno, já tinha consciência da relevância do argumento da filogenia:

Para melhor demonstrar toda essa dependência [da alma em relação ao corpo], sirvamo-nos aqui da anatomia comparada; abramos as entranhas do homem e dos animais [...]. Em geral, a forma e a composição do cérebro dos quadrúpedes é aproximadamente a mesma que no homem. Mesma figura, mesma disposição em todos os lugares, com esta diferença essencial, que o homem é, de todos os animais, aquele que tem mais cérebro, e o cérebro mais tortuoso, em razão da massa de seu corpo: em seguida, o macaco, o castor, o elefante, o cachorro, a raposa, o gato etc., aí estão os animais mais semelhantes ao homem. (17)


O argumento da ausência de provas concretas

A segunda metade do século XIX conheceu a ascensão do espiritismo. A febre mediúnica teve início em 1848 com Kate e Margaret Fox, jovens irmãs de Nova York. Durante os fenômenos mediúnicos ocorridos em presença das irmãs Fox, os espíritos utilizavam batidas como meio de comunicação. Em 1850, as duas irmãs tornaram-se as atrações de um lucrativo espetáculo que gerou uma grande comoção popular. Anos depois, Margaret admitiu que tudo não passava de uma fraude realizada por meio de estalos produzidos pelas juntas dos dedos do pé. (18) Mas o espiritismo estava em ascensão. Dos Estados Unidos ele foi exportado para a Europa, primeiramente para a Inglaterra, em 1852, por médiuns americanos. Da Inglaterra ele chegou à Alemanha e em seguida à França. Foi neste país que o termo espiritismo (spiritisme) surgiu. Nos países anglo-saxônicos, a nova doutrina era chamada de modern spiritualism ou simplesmente spiritualism. Em alemão, Spiritualismus. O espiritismo francês ou latino, no entanto, não é idêntico ao anglo-saxônico. Há uma divergência capital: a doutrina da reencarnação, um verdadeiro dogma para os espíritas franceses. Andrew Jackson Davis (1826 – 1910), célebre médium americano e codificador seguido pela maioria dos espíritas anglo-saxões, elaborou uma doutrina bastante diferente da de Allan Kardec, o codificador do espiritismo francês. Informado por seus “espíritos superiores”, Davis rejeitava peremptoriamente a ideia de reencarnação. O fato dá azo a questionamentos incômodos: como os “espíritos superiores” encarregados da transmissão da doutrina poderiam não estar de acordo? Este é o grau de cientificidade advogado pelos espíritas... Uma miscelânea de opiniões contraditórias jamais poderia alcançar o estatuto de uma ciência, e sequer de uma doutrina, já que lhe falta a unidade teórica.

O fundador da escola francesa de espiritismo, Hippolyte Rivail (1804 – 1869), foi um professor primário de Lyon e um discípulo do pedagogo suíço Pestalozzi. Em Paris, a partir do contato com “espíritos”, adotou o pseudônimo céltico Allan Kardec, o qual teria sido seu nome em uma encarnação anterior. Daniel Dunglas Home (1833 – 1886), médium escocês e uma das maiores figuras do espiritismo anglo-saxônico, escreveu que o fundador do espiritismo francês jamais foi um médium, mas um mesmerizador capaz de projetar suas opiniões pessoais na cabeça de supostos médiuns com os quais mantinha contato. O testemunho de Dunglas Home é uma preciosidade:

Considero a doutrina de Allan Kardec uma das ilusões deste mundo, e tenho boas razões para isso [...]. Eu não questiono de maneira alguma sua boa fé [...]. Sua sinceridade é projetada como uma nuvem magnética sobre as mentes sensíveis daqueles que ele chama de médiuns. Desta forma seus dedos colocam no papel as ideias impostas a eles, e Allan Kardec recebe suas próprias doutrinas como mensagens enviadas do mundo dos espíritos [...]. Sob o domínio desta vontade enérgica, seus médiuns eram apenas máquinas de escrever reproduzindo seus próprios pensamentos como escravas. (19)

Notamos, de fato, que diversas características das doutrinas espíritas refletem a mentalidade particular dos meios culturais em que elas vicejaram. As opiniões supostamente ditadas pelos espíritos, curiosamente, são idênticas às opiniões das pessoas vivas da sociedade vitoriana. Para qualquer juiz imparcial, o fato revela a origem profana das mensagens. Sabemos que os primeiros seguidores de Kardec vinham do círculo dos socialistas franceses da Revolução de 1848. Esses socialistas tinham tendências místicas prévias ao contato com Kardec. Pierre Leroux (1797 – 1871) e Charles Fourier (1772 – 1837), personalidades eminentes do socialismo francês, eram proponentes da doutrina da reencarnação (metempsicose). Suas obras influenciaram significativamente o espiritismo nascente. Tal influência, sem dúvida, explica a maior diferença entre o kardecismo e o espiritismo anglo-saxônico, que rejeita a doutrina da reencarnação.

Fourier, criador dos falanstérios, foi autor de uma obra repleta de elementos extravagantes e anedóticos, ainda que muitas de suas ideias sejam formidáveis e atuais. Kardec e sua equipe, no entanto, copiaram apenas as bizarrias da obra do socialista francês, rejeitando os elementos mais mundanos e libertários. Igualmente bizarro é saber que o kardecismo desapareceu completamente em seu país de origem e hoje é praticado em apenas um país improvável da América do Sul. Quem diria, espíritas tupiniquins, partidários inconscientes das idéias mais delirantes de Fourier...

Onfray lista algumas excentricidades da obra de Fourier: o oceano transformado em uma quantidade colossal de limonada, como um dos projetos de uma sociedade utópica; a copulação dos planetas por meio de um jato espermático de aroma; o “corpo aromático” (um análogo do corpo astral) prometido a todos após a morte; o deslocamento da coroa boreal para modificar os climas da Terra etc. (20) Ora, aquilo que parece piada pode ser encontrado em profusão nas obras espíritas que são editadas às toneladas todos os anos no Brasil. Segundo Onfray, “Fourier crê no magnetismo [animal], na pluralidade dos mundos, na transmigração das almas, na vida eterna. Sobre a Terra, aqui e agora, nossos corpos se compõem de terra e de água. Mas mais tarde, após a morte, eles se recompõem em éter e aromas”. (21) Por seu turno, Chico Xavier, um dos próceres do kardecismo, brinda-nos com representações do além que mais parecem um decalque da imaginação selvagem de Fourier: colônias de trabalho celestiais consagradas a Cristo, águas carregadas de fluidos divinos, vibrações mentais que desenham no ar a figura de um coração com listras douradas, chuvas de flores celestiais, o aeróbus (um carro aéreo utilizado como transporte coletivo no além) e outras excentricidades de igual calibre.

Certa vez, o físico italiano Enrico Fermi (1901 – 1954) exclamou: “Se os extraterrestres existem, onde estão eles?”. Uma pergunta análoga deve ser feita: em mais de 150 anos de espiritismo, onde estão as evidências dos supostos fenômenos mediúnicos? Por mais que vasculhemos, só encontramos relatos anedóticos e descrições de experimentos mal-controlados. A história demonstra que, apesar da tendência positivista do movimento espírita, os humanos desencarnados são extremamente refratários à experimentação científica. A humanidade em geral e a pesquisa científica seriam grandemente favorecidas com a comprovação da vida após a morte. Ora, por que então os bilhões de humanos que já passaram para o outro lado preferem nos manter na ignorância? Concluímos daí que os espíritos, se eles existissem, já teriam mostrado suas caras e dirimido a incredulidade dos céticos.

Admitimos que alguns cientistas de renome realizaram experimentos com a finalidade de investigar os supostos fenômenos espíritas. William Crookes (1832 – 1919) e Oliver Lodge (1851 – 1940), físicos ingleses, convenceram-se da realidade dos fenômenos espirituais. No entanto, viemos a saber que ambos foram enganados por médiuns em diversas ocasiões. Com efeito, cientistas não são mais invulneráveis ao embuste do que pessoas comuns. Michel de Pracontal relata-nos o curioso caso de Jacques Benveniste, cientista francês que adquiriu notoriedade após publicar suas descobertas acerca da memória da água. Na edição de 29 de junho de 1988 do jornal Le Monde, uma notícia aparecia na primeira página: “Uma descoberta francesa poderia revolucionar os fundamentos da fisica: a memória da água”. (22) Os jornalistas que assinavam o artigo declaravam que a equipe de biólogos chefiada por Jacques Benveniste havia provado que a água era capaz de conservar a memória da estrutura molecular de uma substância após diluições extremas, e que ela poderia retransmitir a informação gravada na ausência completa das moléculas da substância diluída. Em outras palavras, a água comum seria como uma fita de gravação eletromagnética. Uma comprovação científica da homeopatia!, exclamavam os espíritos mais afoitos. Sem dúvida, uma descoberta merecedora do prêmio Nobel. Um dia após o anúncio no Le Monde, a Nature, uma das revistas científicas mais prestigiosas do mundo, deveria publicar o artigo de Benveniste. Este acreditava que sua descoberta confirmava as especulações dos espiritualistas acerca do “duplo magnético” (ou corpo astral) do ser humano e de outras entidades vivas. A água transmitiria o “espectro” bioquímico deixado pela presença de uma molécula. Um passo além da existência físico-química em direção à essência não molecular da vida... A descoberta de uma realidade além da matéria... Evidentemente, a publicação de tais descobertas por um periódico da envergadura da Nature inauguraria uma era bastante auspiciosa para o espiritualismo e para as terapias alternativas.

Mas a realidade não costuma corresponder às alegações extraordinárias. Vistos mais de perto, os experimentos com a memória da água não eram tão impressionantes. As supostas descobertas realizadas pela equipe de Benveniste baseavam-se em experimentos duvidosos envolvendo reações alérgicas em basófilos (glóbulos brancos que contêm grânulos) provocadas por doses hiperdiluídas (o princípio da homeopatia) de um anticorpo humano, de modo que nenhuma molécula da substância original estaria presente após as sucessivas diluições. Nas reações alérgicas, ocorre a liberação dos grânulos dos basófilos, fenômeno conhecido como desgranulação. No entanto, sabe-se que, in vitro, os basófilos têm uma certa tendência à desgranulação, independentemente da presença de um anticorpo. Quando ocorre a desgranulação, os basófilos não são visíveis ao microscópio; quando ela não ocorre, os basófilos aparecem como pequenas bolas vermelhas. Pois o teste consiste justamente na contagem dos basófilos após o contato com a dose hiperdiluída do anticorpo. Mas não é fácil contá-los através do microscópio. Este teste dúbio, para Benveniste, seria a base de uma revolução científica e da derrocada do materialismo da ciência dominante.

John Maddox, diretor da Nature, notou que havia algo de errado na história contada por Benveniste. A alegação era demasiado improvável, e “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias” (C. Sagan). Uma história bela demais para ser verdadeira. Por que não olhar as coisas mais de perto, para descobrir onde se alojava o provável engano? Maddox publicou o artigo de Benveniste, apesar disso, na edição de 30 de junho de 1988, pois o mesmo parecia impecável do ponto de vista metodológico. Mas estipulou uma condição: que uma comissão de peritos designados pela revista investigasse o laboratório de Benveniste no Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM). A investigação foi realizada em julho de 1988. Um detalhe: a comissão designada por Maddox contava com a presença de James Randi, célebre investigador do paranormal e mágico profissional, pois havia a suspeita de fraude. Ora, por que escolher um mágico para investigar um experimento científico? Cientistas como Maddox e o próprio Benveniste não seriam capazes de fazê-lo? A história nos mostrou por mais de uma vez que os cientistas não estão necessariamente preparados para lidar com certas situações que envolvem alegações extraordinárias.

Inicialmente, a equipe de Benveniste repete as experiências conforme o procedimento original, e os resultados são idênticos aos publicados. Uma nova série de experiências é então realizada, de acordo com um protocolo bem mais rigoroso: todas as manipulações devem ser feitas às cegas, de modo que os cientistas da equipe de Benveniste não saibam com que soluções estão lidando. Este procedimento tem o intuito de eliminar a possibilidade de trapaça e de influência do viés do observador, pois o experimentador que faz a contagem das células na lâmina pode ser tendencioso. Agora, os experimentadores não sabem mais quais tubos contêm o anticorpo e quais não contêm. Todos os procedimentos foram feitos sob o controle de uma câmera de vídeo. Os tubos com diluições foram numerados e colocados numa sala separada. As janelas foram vedadas com papel opaco para que ninguém de fora pudesse acompanhar os procedimentos. Diante da câmera, Randi e sua equipe apagam as numerações dos tubos com diluições e as substituem por novas etiquetas numeradas de acordo com um código aleatório. O código foi transcrito numa folha de papel, a qual foi colocada num envelope fechado com um adesivo especial, de modo que uma pessoa que tentasse abri-lo deixaria marcas visíveis. Tampouco era possível ler as informações do papel através do envelope, pois o mesmo havia sido envolvido numa folha de papel-alumínio. Só então os tubos foram devolvidos a um membro da equipe de Benveniste. Nenhum experimentador seria capaz de conhecer o conteúdo de determinado tubo. As diluições são colocadas em contato com os basófilos, e a preparação é colocada numa câmara fria. Randi toma a precaução de colar o envelope no teto do laboratório.

No dia seguinte é feita a contagem às cegas dos basófilos, e então o envelope é aberto. Randi verificou que alguém havia tentado abrir o envelope, mas sem sucesso. Comunicado o conteúdo do envelope, Benveniste constatou que não havia nenhum resultado significativo. O novo protocolo científico, bem mais rigoroso, havia quebrado o encanto que cercava o experimento do cientista francês. Um mês após o anúncio da descoberta de Benveniste, a Nature publica um relatório da nova investigação. Segundo a conclusão do relatório, “A hipótese segundo a qual a água guardaria a memória de uma substância nela diluída é tão inútil quanto fantasista”. (23)

Mais tarde, Elisabeth Davenas, pesquisadora da equipe de Benveniste, realizou experimentos no laboratório de um hospital em Israel, a pedido de um médico homeopata que trabalhava no local. Uma contraprova revelou que alguns tubos utilizados por Davenas continham proteínas em vez de água pura. Davenas declarou que havia acrescentado albumina nas soluções, “a fim de que as células se comportassem melhor”. (24) Por incrível que pareça, são estes os experimentos que, na opinião de espiritualistas e homeopatas, darão o golpe mortal no materialismo científico.

O controle escrupuloso estipulado pela equipe da Nature serve como termo de comparação para avaliarmos os experimentos mambembes realizados por Crookes e por Lodge no século XIX. Tudo era feito conforme os desígnios do médium. Os experimentos costumavam ser realizados na própria casa do indivíduo investigado, em uma proverbial saleta escura, local onde ocorriam as materializações e outros fenômenos duvidosos. Como questionou Pracontal, “Por que os poderes espíritas só se manifestam nas condições estranhas exigidas pelo médium: escuridão ou penumbra, dispositivo da mesa e do “gabinete” isolado por cortinas, imobilização muito relativa do indivíduo etc?”. (25) Crookes e Lodge eram homens religiosos e crédulos até a medula, fato que enfraquece a probabilidade dos eventos relatados. Em diversas situações, somente um mágico profissional estaria preparado para investigar uma alegação paranormal. No entanto, apesar das evidências miseráveis fornecidas por suas investigações, os nomes de Crookes, Lodge e de outros cientistas são frequentemente citados em um argumentum ad verecundiam (ou falácia baseada na autoridade) a favor do espiritismo. O espiritismo foi investigado e confirmado por cientistas que se destacaram em suas áreas de atuação; logo, ele é verdadeiro...

Se o espiritismo fosse verdadeiro, fenômenos de materializações de espíritos deveriam ser comuns e investigados no mundo inteiro. Mas por que eles não ocorrem? Por que não apresentar uma materialização diante de pesquisadores, em condições controladas? Por que todas as exibições mediúnicas devem ocorrer debaixo de um pano, em uma sala apropriadamente escura e preparada de acordo com o protocolo do próprio médium? Há décadas a Fundação Educacional de James Randi (JREF) oferece o prêmio de um milhão de dólares a qualquer pessoa apta a provar a validade de qualquer poder paranormal, sob condições controladas. Até hoje, ninguém passou dos testes preliminares. Em meados do século XIX, os poderes psicocinéticos costumavam mover objetos pesados como mesas de madeira; hoje, com o aumento do controle das experimentações, os paranormais não movem sequer uma pena. Contudo, a ausência de provas, de modo algum, contribui para abalar a fé dos adeptos. Atualmente, os espíritas não necessitam de ocorrências palpáveis para justificar sua crença. Bastam os romances que “falam ao coração”...

A italiana Eusapia Palladino (1854 – 1918), a médium mais famosa do final do século XIX, foi estudada por vários cientistas da época. O criminologista Cesare Lombroso e o prêmio Nobel de fisiologia Charles Richet atestaram a autenticidade de seus poderes, os quais tampouco foram colocados em dúvida pelo casal Curie. Os fenômenos mais inusitados costumavam ocorrer em presença de Eusapia: objetos voavam pelos recintos, pesadas mesas de madeira levitavam, instrumentos tocavam sozinhos, materializações parciais e completas de espíritos aconteciam e deixavam os observadores atônitos. Como poderíamos duvidar da realidade do fenômeno, se os grandes cientistas da época o atestavam? Nem todos conseguiam, no entanto, engolir as exibições de Eusapia. O cético Richard Hodgson decidiu olhar o fenômeno mais de perto. Realizou experiências em Cambridge em 1895 e pôde constatar por diversas vezes que Eusapia trapaceava. Mais tarde, em 1910, Eusapia foi completamente desmascarada numa série de exibições na Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Dois observadores ocultos na sala puderam acompanhar os procedimentos de Eusapia, uma habilíssima trapaceira que conseguia livrar uma mão ou um pé durante a sessão para realizar suas proezas. Eusapia, na juventude, fora casada com um mágico itinerante. Todas as suas capacidades poderiam ser reproduzidas por ilusionistas profissionais.

Durante mais de 150 anos de supostos diálogos com o além, os espíritos jamais comunicaram informações relevantes: nada que fosse estranho ao conhecimento da humanidade da Terra. Nenhum conhecimento novo sobre as leis do universo; nenhuma solução de um problema matemático; nenhuma instrução para a elaboração de um medicamento. Por outro lado, as prédicas e declamações sentimentalistas são abundantes. Nas palavras de Adorno,

Desde os primeiros dias do espiritismo, o além nada comunicou de mais significativo do que as saudações da avó falecida ou a profecia de uma viagem iminente. A desculpa de que o mundo dos espíritos não pode comunicar à pobre razão humana mais do que esta tem condições de receber, é igualmente ridícula, uma hipótese auxiliar do sistema paranoico: mais longe que a viagem até a avó levou-nos o lumen naturale [luz natural, razão] e se os espíritos não querem tomar conhecimento disso, então não passam de duendes mal-educados com os quais é melhor cortar relações. O conteúdo rasteiramente natural da mensagem sobrenatural trai sua inverdade. (26)

De fato, as informações transmitidas pelos espíritos estão aquém do conhecimento obtido pelas pessoas inteligentes da Terra. Por que os cientistas que desencarnam deixam de dar mostras de sua inteligência? Jamais vimos a psicografia de um tratado de física. Ademais, no plano artístico, os dotes literários dos escritores mortos jamais chegaram perto dos dotes dos escritores vivos. Comparemos a obra de um Proust às toneladas de lixo despejadas todos os anos no mercado pelas editoras espíritas. E, no tocante às pinturas mediúnicas, por que quase sempre pintores impressionistas, e não acadêmicos? Espíritos da estirpe de Leonardo da Vinci e Jean-Auguste Ingres seriam incapazes de estabelecer uma comunicação com o mundo dos vivos?

Uma breve análise de um dos principais livros atribuídos a comunicações espirituais, O livro dos espíritos (1857), revela o conteúdo estritamente mundano das obras espíritas. Seria impossível encontrar alguma informação que não estivesse em plena conformidade com a mentalidade de alguns setores da sociedade francesa da época. Qualquer pessoa com um conhecimento elementar de certas tradições religiosas e de algumas ideias de Fourier poderia escrever algo semelhante ou superior ao Livro dos espíritos. Vejamos alguns exemplos. Na questão 42 do livro, o entrevistador pergunta ao suposto “espírito superior”: “Podemos conhecer a duração da formação dos mundos: da Terra, por exemplo?”. E o “espírito” responde: “Eu não posso te dizer, pois somente o Criador o sabe, e seria um louco quem pretendesse saber ou conhecer o número de séculos dessa formação”. (27) Mas, ao contrário do que afirma o “espírito”, desde a hipótese cosmogônica nebular de Kant-Laplace, a formação do Sistema Solar é conhecida em seus traços fundamentais. A moderna cosmologia estabelece com impressionante exatidão que o início da formação da Terra ocorreu há cerca de 4,54 bilhões de anos (conhecimento obtido a partir de técnicas de datação radiométrica). Loucas são as pessoas que não reconhecem as evidências científicas ou que julgam que a humanidade deve permanecer para sempre nas trevas da ignorância. Vejamos agora a interessante questão 46:

Ainda há seres que nascem espontaneamente? Sim, mas o germe primitivo já existia em estado latente. Vós sois, todos os dias, testemunhas desse fenômeno. Os tecidos do homem e dos animais não encerram os germes de uma multiplicidade de vermes que aguardam, para eclodir, a fermentação pútrida necessária à sua existência? É um pequeno mundo que dorme e que desperta. (28)

Trata-se de um outro exemplo evidente de um conhecimento obsoleto que Kardec e seus consortes atribuíram aos espíritos sapientíssimos com quem imaginavam conversar. Aqui, a referência é feita a uma antiga doutrina ainda em voga em alguns círculos acadêmicos franceses da época de Kardec, a doutrina dos logoi spermatikoi dos filósofos estóicos gregos e das rationes seminales (razões ou causas seminais) de Santo Agostinho, São Boaventura e Malebranche. Essa doutrina afirmava que todas as coisas, no início, foram criadas por Deus. Assim, todos os organismos permaneciam em estado latente até o momento apropriado de sua eclosão ou “evolução”, no sentido etimológico de “desenvolvimento de um ser pré-existente”. Notemos, de passagem, que o termo “evolução” em seu sentido original nada tem a ver com o sentido em curso no contexto do darwinismo. O biólogo suíço Charles Bonnet (1720 – 1793) foi um dos maiores defensores da doutrina da pré-formação de todos os seres vivos. Gilson explica que “Esta evolução dos indivíduos, sem nenhuma conexão com o darwinismo, era aquela que ainda era discutida em 1860 na Academia de Ciências do Instituto de França”. (29) Está elucidada, assim, a origem mundana de mais um elemento doutrinário do espiritismo francês. Na realidade, os vermes que aparecem na carne em putrefação são provenientes de ovos depositados por moscas, e não de “germes pré-existentes”.

Seria divertido (e até mesmo instrutivo) dissecar a pseudociência de mais algumas passagens do Livro dos espíritos. Questão 48: “Podemos conhecer a época da aparição do homem e dos outros seres vivos sobre a Terra? Não, todos os vossos cálculos são quiméricos”. (30) Os espíritos pregam o obscurantismo e a ignorância. No entanto, a paleontologia floresceu a despeito de qualquer afirmação de uma conexão entre o conhecimento e o pecado. Hoje, sabemos que os primeiros humanos surgiram há cinco milhões de anos, e que os primeiros humanos de anatomia indiscutivelmente moderna surgiram há cerca de cem mil anos. (31) Na questão 53, os espíritos defendem o poligenismo, ideia racista e obsoleta: “O homem surgiu em vários pontos do globo? Sim, e em várias épocas, e isso é uma das causas da diversidade das raças”. (32) Na verdade, todos os seres humanos têm uma origem comum (monogenismo). Evidências genéticas e fósseis confirmam a origem africana do ser humano. Tudo indica que, aqui, Kardec e sua equipe apenas vomitam as opiniões ultrapassadas do paleontólogo francês Georges Cuvier (1769 – 1832). Consequentemente, o Brasil é o único país do mundo em que as teorias de Cuvier ainda são levadas a sério. Não é cômico saber que tais ideias são consideradas sagradas por milhares de espíritas?

Os espíritos também ensinam, na questão 55, que todos os planetas são habitados. (33) E os extraterrestres, conforme os espíritos, não seriam invariavelmente seres desencarnados (uma desculpa que daria aos espíritas uma certa garantia de inverificabilidade), mas organismos materiais idênticos àqueles que costumamos enxergar. Os espíritos ainda afirmam que “o hotentote [indivíduo de uma certa etnia africana] é de uma raça inferior: e então perguntaremos se um hotentote é um homem ou não. Se é um homem, por que Deus, a ele e à sua raça, deserdou dos privilégios concedidos à raça caucásica?”. (34) É evidente que a teoria racista, um elemento da cultura vitoriana, não seria conforme ao grau de desenvolvimento intelectual e moral dos espíritos superiores que vivem no além. Sua presença, mais uma vez, denuncia a origem terrena do conteúdo das comunicações espíritas. A filosofia e a ciência nos levaram muito mais longe do que a pretensa revelação dos espíritos.


Conclusão

Vimos, inicialmente, que as diversas religiões e sistemas filosóficos propuseram três alternativas para explicar a sobrevivência da individualidade após a morte do corpo: a ressurreição da carne, a sobrevivência de um espírito metafísico e a sobrevivência de um espírito físico. A primeira deve ser rejeitada em virtude da discrepância entre as evidências disponíveis e o caráter extraordinário do evento. A segunda tampouco poderia ser aceita, pois uma definição positiva de espírito imaterial jamais foi fornecida por filósofos e teólogos, e a interação entre o corpo e um espírito imaterial seria uma impossibilidade lógica. Restou-nos, portanto, a investigação da existência de espíritos materiais, também chamados de corpos astrais.

Propusemos três argumentos contra a existência de corpos astrais. De acordo com o argumento da correlação, observamos que a atividade da consciência acompanha o desenvolvimento neurológico e os estados cerebrais. Vemos, por exemplo, a consciência decair em função da degeneração do sistema nervoso, por ocasião da senilidade ou de doenças neurológicas. Do mesmo modo, observamos o desenvolvimento gradual das faculdades mentais numa criança, fato perfeitamente condizente com uma teoria materialista. De acordo com o argumento da filogenia, verificamos o progressivo desenvolvimento das faculdades mentais ao longo da evolução biológica. Este desenvolvimento está estreitamente vinculado à complexificação do sistema nervoso na história evolutiva das espécies. Por último, o argumento da ausência das provas concretas mostrou que, em mais de 150 anos de supostas comunicações com o além, as evidências não passaram de histórias anedóticas e de relatos de experimentos mal-controlados. Além disso, o conteúdo das supostas mensagens espirituais denuncia a sua origem mundana.

O reconhecimento da finitude irremediável do ser individual põe fim ao interesse pela religião e descortina aos seres humanos o panorama do niilismo. Desde sempre, a crença em Deus não foi motivada por razões teoréticas, e sim pelo interesse pessoal dos indivíduos que desejam a continuidade indefinida da vida. De fato, a perspectiva da aniquilação inelutável apaga da vida até o último traço de sentido. Assim, não podemos concordar com Bertrand Russell quando este afirma:

Acredito que quando morrer apodrecerei e nada de meu ego sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharia estremecer de pavor diante do pensamento da aniquilação. A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos. (35)

Ingenuidade ou desonestidade? Tais palavras não parecem provir de um ego sensível e que tem consciência de sua finitude. O que seriam da felicidade e do amor que se precipitam para sempre no abismo do nada? Tudo indica que Russell fala da morte como se se tratasse da morte de um outro, ou seja, da aniquilação de um objeto externo, e não da morte do próprio eu, condição sine qua non da sensibilidade e da experiência. Pois é justamente a extinção da consciência que deve nos inquietar. No que diz respeito a este assunto em particular, Pascal foi um homem mais justo e sincero. Para ele, os homens indiferentes à realidade da morte seriam “monstros”, ou seja, indivíduos de comportamento aberrante e incompreensível. Russell, se levamos a sério suas palavras, foi um monstro.


Bibliografia

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Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) B. PASCAL, Pensamentos, p. 13.

(2) T. HOBBES, Leviatã, pp. 465-466 (grifos do autor).

(3) Ibid., p. 466 (grifos do autor).

(4) R. WATSON, The Breakdown of Cartesian Metaphysics, p. 183.

(5) R. GUÉNON, The Spiritist Fallacy, p. 12.

(6) M. UNAMUNO, Del sentimiento trágico de la vida, p. 25.

(7) L. BÜCHNER, Force et matière, p. 111.

(8) LA METTRIE, L’homme machine, p. 157.

(9) L. BÜCHNER, op. cit., p. 136.

(10) C. VOGT, Lettres physiologiques, p. 347.

(11) E. MAYR, Isto é biologia, p. 34.

(12) J. WATSON, DNA: o segredo da vida, p. 12.

(13) A. KARDEC, Obras póstumas, p. 20.

(14) C. DARWIN, A origem das espécies, pp. 212-213.

(15) M. ISAAK, The Counter-Creationism Handbook, pp. 94-95.

(16) C. DARWIN, The Descent of Man, p. 86.

(17) LA METTRIE, L’homme machine, p. 157.

(18) V. STENGER, Has Science Found God?, p. 276.

(19) Apud R. GUÉNON, The Spiritist Fallacy, pp. 30-31.

(20) M. ONFRAY, L’eudémonisme social. Contre-histoire de la philosophie, vol. V, p. 215.

(21) Ibid., pp. 243-244.

(22) Apud M. de PRACONTAL, A impostura científica em dez lições, p. 119.

(23) Apud M. de PRACONTAL, op. cit., p. 129.

(24) Apud M. de PRACONTAL, op. cit., p. 131.

(25) Ibid., p. 328.

(26) T. ADORNO, Minima moralia, p. 211.

(27) A. KARDEC, Le livre des esprits, p. 75.

(28) Ibid., p. 77.

(29) E. GILSON, From Aristotle to Darwin and Back Again, p. 60.

(30) A. KARDEC, op. cit., p. 77.

(31) R. FOLEY, Os humanos antes da humanidade, p. 104.

(32) A. KARDEC, Le livre des esprits, p. 79.

(33) Ibid., p. 79.

(34) Ibid., p. 166.

(35) B. RUSSELL, No que acredito, pp. 38-39.

10/02/2012

Em defesa de Dawkins


Endereço curto: materialismo.net/dawkins

Nós admitimos que somos ateus
relativamente a deuses como estes.

São Justino Mártir


Introdução

Desde sua publicação em 2006, o livro The God Delusion (Deus, um delírio, conforme a tradução brasileira da Companhia das Letras), do biólogo britânico Richard Dawkins, gerou uma gigantesca onda mundial de críticas e injúrias em todos os meios de comunicação. Não afirmamos que tal livro seja lido e muito menos compreendido pelos que o criticam, pois não somos tão presunçosos. Observamos apenas a confirmação, pela enésima vez, do fenômeno cultural descrito por Lênin em Materialismo e empiriocriticismo:

Todo aquele que, por pouco que seja, esteja familiarizado com a literatura filosófica, deve saber que dificilmente será encontrado em nossos dias um só professor de filosofia (ou de teologia) que não se dedique, de maneira direta ou indireta, a refutar o materialismo. Proclamou-se centenas e milhares de vezes que o materialismo foi refutado, e continua-se a refutá-lo pela centésima e milésima vez. (1)

Em 1899, o célebre materialista alemão Ernst Haeckel publicou Enigmas do universo (Welträtsel), obra que rapidamente se tornou um best-seller mundial e um alvo das queixas de uma multidão de teístas enfurecidos. A filosofia de Haeckel (chamada de “monismo”, em virtude da afirmação de uma substância única material como base de todos os fenômenos) rejeitava as noções de um deus pessoal, de imortalidade da alma e de livre-arbítrio. Assim como Dawkins, Haeckel foi um expoente do darwinismo em sua época; mais precisamente, o homem que introduziu a teoria de Darwin na Alemanha. Lênin, testemunha atenta da ocorrência, narra com perfeição a atmosfera intelectual que se seguiu à publicação do livro:

A tempestade levantada em todos os países civilizados pelos Enigmas do universo de E. Haeckel fez transparecer com singular relevo o caráter de partido da filosofia na sociedade contemporânea, de um lado, e o verdadeiro alcance social da luta do materialismo contra o idealismo e o agnosticismo, por outro. A difusão de centenas de milhares de exemplares deste livro, imediatamente traduzido a todas as línguas e propagado em edições baratas, assevera com evidência que tal obra “entrou no meio do povo”, e que seu autor, Haeckel, conquistou de uma só vez inumeráveis leitores. Este livrinho popular chegou a ser uma arma na luta de classes. Os professores de filosofia e de teologia de todos os países do mundo começaram a desprestigiar e a pulverizar Haeckel de mil maneiras diferentes. [...] São inumeráveis os teólogos que declararam guerra a Haeckel. Não há injúria furiosa que não tenha sido dirigida a ele pelos professores da filosofia oficial. É regozijante ver nessas múmias ressequidas por uma escolástica morta – talvez pela primeira vez na vida – animarem-se os olhos e colorirem-se as bochechas sob os bofetões que lhes distribuiu Ernst Haeckel. Os pontífices da ciência pura e da teoria mais abstrata, ao que parece, lançam clamores de ódio, e nesses bramidos dos bisontes da filosofia (o idealista Paulsen, o imanentista Rehmke, o kantiano Adickes e tantos outros, cujos nomes só tu conheces, Senhor!), o ouvido distingue este motivo dominante: contra a “metafísica” das ciências naturais, contra o “dogmatismo”, contra a “exageração de valor e importância das ciências naturais”, contra o “materialismo das ciências naturais”. (2)

Lênin acrescenta numa nota:

O elemento trágico consistiu no atentado cometido contra Haeckel na primavera deste ano (1908). Depois de receber uma série de cartas anônimas, nas quais o sábio era chamado de “cachorro”, “ímpio”, “macaco”, etc., um “bom alemão” atirou no gabinete de trabalho de Haeckel, em Iena, uma pedra enorme. (3)

Citamos a longa passagem de Lênin porque ela descreve com exatidão não apenas um episódio da virada do século, mas o momento em que vivemos. Necessitaríamos apenas trocar os nomes dos participantes: “Dawkins” no lugar de “Haeckel” etc. A fúria dos partidários da religião do amor ameaça de igual maneira a paz e a integridade física dos atuais expoentes do movimento ateísta, acostumados a receber mensagens diárias contendo ameaças e impropérios. Dawkins, na verdade, é o protagonista do capítulo mais recente de uma polêmica que se desenrola desde a Antiguidade de Epicuro e Lucrécio (estes dois talvez tenham sido os maiores alvos da campanha difamatória secular e magnificamente bem-sucedida movida pela Igreja Católica. Até hoje, o nome do “porco” Epicuro é associado à satisfação dos prazeres no sentido mais vil. Acerca de Lucrécio correm as anedotas depreciativas forjadas por São Jerônimo, que falam da loucura intermitente e do suicídio do filósofo).

O aluvião de críticas gerado pelo livro de Dawkins foi proporcional à sua visibilidade como um best-seller em vários países. The God Delusion permaneceu na lista dos mais vendidos do New York Times por cinquenta e uma semanas, até setembro de 2007. Em novembro de 2007 as vendas chegaram a 1,5 milhões de cópias e o livro foi traduzido para trinta e uma línguas. (4) Como consequência, dezenas de “refutações” surgiram na forma de livros. Citemos alguns títulos (até agora poucos foram traduzidos para o português): O delírio de Dawkins, de Alister McGrath; O anjo de Darwin: uma resposta seráfica a “Deus, um delírio”, de John Cornwell; As cartas para Dawkins, de David Robertson; Against Atheism: Why Dawkins, Hitchens, and Harris Are Fundamentally Wrong, de Ian Markham; Richard Dawkins’ God Delusion: A Repentant Refutation, de Klaus Nürnberger; God Is No Delusion: A Refutation of R. Dawkins, de Thomas Crean; God and the New Atheism, de John Haught; Is God a Delusion?, de Eric Reitan; God’s Undertaker: Has Science Buried God?, de John Lennox; Deluded by Dawkins? A Christian Response to “The God Delusion”, de Andrew Wilson; Why There Almost Certainly Is a God: Doubting Dawkins, de Keith Ward; God, Doubt and Dawkins: Reform Rabbis Respond to “The God Delusion”, de Jonathan Romain; Dawkins’ Dilemmas: Deluded or Not Deluded? That’s the Question!, de Michael Austin. Para retomar a tirada de Lênin, não é regozijante ver nessas múmias ressequidas por uma escolástica morta – talvez pela primeira vez na vida – animarem-se os olhos e colorirem-se as bochechas sob os bofetões que lhes distribuiu Richard Dawkins? Não é nossa intenção afirmar que todas as críticas à obra de Dawkins são infundadas. Pretendemos apenas mostrar que a maioria das críticas é inaceitável. Para tanto, propomos uma análise dos principais argumentos de The God Delusion (Deus, um delírio) e das principais críticas feitas a eles.


Dawkins, escritor “popular”?

Acreditamos que parte das críticas foi motivada pelo estilo “popular” da prosa de Dawkins, incompatível com as “profundidades” esotéricas do jargão de muitos filósofos, teólogos e cientistas. Na verdade, o estilo livre de sofisticações desnecessárias, longe de ser um defeito, é uma das maiores qualidades da obra de Dawkins. Para o eminente paleontólogo e escritor Stephen Jay Gould, todo trabalho científico deveria ter como meta a vulgarização:

Agarrei-me obstinadamente a uma regra pessoal em todos os meus chamados “escritos populares” (o termo “popular” é admirável em seu sentido literal, mas foi degradado e adquiriu o significado de “simplificado” ou “adulterado” para uma audição fácil e sem esforço). Acredito – como Galileu acreditou quando escreveu suas duas maiores obras como diálogos em italiano em vez de tratados didáticos em latim, como Thomas Henry Huxley acreditou quando compôs sua prosa magistral livre de jargões, como Darwin acreditou quando publicou todos os seus livros para audiências gerais – que podemos ainda ter um gênero de livros científicos adequados e igualmente acessíveis a professores e a leigos interessados. Os conceitos científicos, em toda sua riqueza e ambiguidade, podem ser apresentados sem nenhum comprometimento, sem nenhuma simplificação equivalendo a distorção, em linguagem acessível a todas as pessoas inteligentes. As palavras, é claro, devem variar, para ao menos eliminar o jargão e a fraseologia que mistificariam qualquer um alheio ao “sacerdócio”, mas a profundidade conceitual não deve de modo algum variar entre a publicação profissional e a exposição geral. (5)

Gould forneceu as coordenadas que devem pautar toda escritura científica: a linguagem deve ser acessível a todas as audiências inteligentes, mas o conteúdo científico deve ser o mesmo para leigos e especialistas. Alguns divulgadores científicos, no entanto, foram além da mera preocupação com a acessibilidade e souberam produzir uma prosa repleta de encantos. Dawkins foi capaz de unir como nenhum outro escritor científico (penso nos nomes de Carl Sagan e do próprio Gould) a exatidão das informações científicas a um estilo literário de grande beleza. Algumas passagens de The Greatest Show on Earth (2009) mostram que a arte da escritura científica foi levada à perfeição.


Dawkins invade o terreno da filosofia?

Dawkins é acusado de ser um cientista em uma incursão ilegítima pela província da filosofia. Ora, a crítica revela um total desconhecimento da história das idéias. Para muitos filósofos (materialistas e fenomenistas de todas as épocas), a filosofia se confunde com o próprio saber científico: poderíamos citar os atomistas antigos, Meslier, Hobbes, La Mettrie, Holbach, Hume, Kant, Comte, Cabanis, Mill, Moleschott, Büchner, Vogt, Feuerbach, Haeckel, Avenarius, Mach, Russell, Schlick, Carnap, Ayer, Dennett e tantos outros. De acordo com a concepção científica ou positiva de filosofia, a filosofia e a ciência não são separáveis. As observações metodologicamente conduzidas constituem a substância íntima do conhecimento filosófico. O filósofo francês Julien Offroy de La Mettrie (1709 – 1751) entrou para a história como o autor de O homem máquina, obra seminal do materialismo antropológico moderno. Nela encontramos uma exposição do método que afirma a exclusividade gnosiológica da experiência e promove o elogio dos fisiologistas (filósofos-médicos). La Mettrie declara que

Somente a experiência e a observação devem nos guiar aqui [no presente tratado]. Um número incontável delas pode ser encontrado nos anais dos médicos que foram filósofos, e não nos filósofos que não foram médicos. Estes percorreram e esclareceram o labirinto do homem. (6)

O materialista alemão Jacob Moleschott afirma que a filosofia é apenas a “expressão abstrata da soma dos fatos conquistados pelos sentidos do homem na época correspondente”. (7) O itinerário da filosofia na Alemanha apresenta-nos um exemplo eloquente de substituição das especulações metafísicas pela filosofia científica. Após a derrocada do Idealismo Alemão (Fichte, Hegel, Schelling) em 1830 (ano da Revolução Francesa de Julho, conforme F. A. Lange (8) ), a ciência tornou-se a única atividade intelectual capaz de realizar a obra que a religião e a metafísica foram incapazes de realizar. O neokantiano Lange oferece um relato bastante útil desse percurso no Segundo Livro de sua célebre História do materialismo (cuja primeira edição é de 1865). De acordo com Lange, o brado de “retornemos a Kant!” de Otto Liebmann (autor de Kant e seus epígonos) e o florescimento do materialismo alemão (Moleschott, Büchner, Vogt, Haeckel) ocorreram como a reação do bom senso ao paroxismo da especulação metafísica que emergiu como uma das heranças da filosofia kantiana. Kant e os positivistas tinham algo em comum: a imposição de limites rígidos à especulação, que não poderia ultrapassar o âmbito da experiência. O desenvolvimento prodigioso de todos os ramos das ciências da natureza mostrou que os cérebros filosóficos podiam renunciar à especulação metafísica sem perder um campo de atuação imensamente rico: a experiência. Pedimos a sinceridade dos leitores: qual filósofo foi capaz de fornecer conhecimentos tão admiráveis quanto aqueles fornecidos por Darwin? A origem das espécies não promove uma revolução noética sem precedentes? A descendência do homem não contém uma antropologia filosófica de máxima significação? Certa vez, quando o poeta J. P. Eckermann perguntou a seu amigo Goethe qual era o maior filósofo da nova geração, este lhe respondeu que, certamente, era Kant, e que sua filosofia havia penetrado de tal maneira a consciência alemã, que sua leitura não era necessária. (9) O juízo de Goethe poderia ser plenamente aplicado ao estado da recepção da teoria de Darwin, com uma diferença: não se trata apenas da cultura de um país, mas da cultura da humanidade em geral. Com uma possível exceção da bíblia, qual doutrina foi capaz de penetrar a consciência humana com tanta intensidade? De modo que poderíamos afirmar: o estabelecimento científico da genealogia humana foi a maior conquista da filosofia de todos os tempos.

Quem somos? De onde viemos? Tais perguntas fundamentais encontraram respostas adequadas na ciência moderna. Os críticos de Dawkins traçam uma linha arbitrária entre aquilo que é e aquilo que não é considerado filosofia. Nada mais que um eco da velha “filosofia” de padres, segundo a qual positivistas e materialistas “sequer são filósofos”. Alguns casos são burlescos. Ao falar do Iluminismo na França, o católico espanhol Julián Marías “refuta” o materialismo com um golpe sumário de pena: “Os principais pensadores desse núcleo [materialista] são o médico La Mettrie [...] Helvétius [...] e, sobretudo, um alemão residente em Paris, o barão de Holbach [...] o valor filosófico de suas obras, pouco originais, é ínfimo”. (10) Isso é tudo o que podemos encontrar sobre o materialismo das Luzes na História da filosofia do teólogo espanhol. Marías, é claro, não se deu ao trabalho de ler as obras dos materialistas franceses antes de despachá-los. Prova disso é a inclusão de Helvétius entre os materialistas, filósofo que jamais professou o materialismo cosmológico (ateísmo) e o materialismo antropológico (a redução da consciência a uma atividade do cérebro). Se os grandes materialistas da história receberam tal tratamento, por que Dawkins, um “mero biólogo”, seria poupado do achincalhe preconceituoso dos teólogos?


A argumentação filosófica de Dawkins é ingênua?

Esta é uma objeção diretamente ligada à anterior. O filósofo calvinista americano Alvin Plantinga fez a seguinte declaração:

Apesar do fato de seu livro ser em grande parte filosófico, Dawkins não é um filósofo (ele é biólogo). Entretanto, mesmo levando isso em conta, muito da filosofia que ele propaga é simplória, na melhor das hipóteses. Poderíamos dizer que suas “filosofadas” estão, no máximo, no nível de um estudante de primeiro período, mas isso seria injusto com os estudantes; a verdade é que muito de seus argumentos seriam reprovados numa aula de filosofia qualquer. (11)

Não nos enganemos: tudo indica que a queixa de Plantinga, na verdade, dirige-se ao estilo isento de cacoetes acadêmicos de Dawkins. Para universitários acostumados a mascarar a pobreza de seus discursos com ornamentos verbais e sofisticações inúteis, a prosa límpida e elegante de Dawkins é um pecado imperdoável. Acrescentemos ainda um fato desagradável (para eles): Dawkins granjeou uma popularidade sequer sonhada pelos filósofos acadêmicos.

Plantinga caçoa das “filosofadas” de Dawkins. No entanto, a maior realização da carreira acadêmica do teólogo calvinista foi uma apresentação requentada (como se fosse a maior novidade do mundo) de um velho argumento cético desenvolvido por Descartes em um passo da Primeira Meditação (quando Descartes afirma que, sem a existência de um Deus veraz e benévolo, nossas faculdades mentais não seriam confiáveis). O nome de Descartes não é citado em nenhum momento. Ademais, Plantinga procura estabelecer uma separação artificial entre filosofia e ciências da natureza (“Dawkins não é um filósofo”), separação que o próprio Plantinga desrespeita quando se intromete no evolucionismo biológico para promover uma pretensa refutação do naturalismo (por exemplo, na já mencionada crítica à confiabilidade das faculdades cognitivas que emergiram da evolução orgânica). Plantinga ainda afirma que os argumentos de Dawkins “estão, no máximo, no nível de um estudante de primeiro período, mas isso seria injusto com os estudantes; a verdade é que muito de seus argumentos seriam reprovados numa aula de filosofia qualquer”. Ora, na realidade, os argumentos de Plantinga seriam reprovados numa aula de biologia qualquer, e sequer poderiam ser admitidos por um estudante de ensino fundamental: sabemos que o teólogo calvinista é um defensor do criacionismo, doutrina proscrita do ensino de biologia em todos os estabelecimentos de ensino do mundo civilizado. Em suas palavras,

O cristão sabe que a criação é do Senhor; e ele não está bitolado por dogmas a priori acerca de como o Senhor a teria realizado. Talvez isso tenha ocorrido através de meios evolutivos, ou talvez não. No presente momento, “talvez não” parece ser a melhor resposta. (12)

Apenas um indivíduo carente de formação científica poderia ignorar o fato de que a teoria da evolução orgânica é sustentada por uma superabundância de evidências empíricas provenientes de áreas como a paleontologia, a anatomia comparada, a embriologia, a biogeografia e a biologia molecular.


Dawkins invade o terreno da teologia?

Dawkins também é acusado de pisar indevidamente no solo sagrado da teologia. No entanto, a atitude de Dawkins é apenas o reflexo invertido (ou o lado negativo) da atitude dos partidários do argumento do desígnio (intelligent design, de acordo com a denominação que o argumento assume em sua mais recente encarnação em solo americano). A teologia natural fisicalista (ou “argumento físico-teológico”, nas palavras de Kant) baseia-se em características observáveis do universo físico: a complexidade funcional do mundo orgânico, dizem, só poderia ser explicada por meio da postulação de um artífice inteligente. Se este artífice não é uma parte do mundo material (um alienígena dotado de poderes extraordinários, por exemplo), ele é uma entidade metafísica. Mas um pretenso “ser” situado fora do espaço e do tempo poderia ser a causa de efeitos empíricos? Um efeito empírico com uma causa metafísica não seria uma impossibilidade lógica (um círculo quadrado)? Portanto, são os próprios teólogos físicos que misturam as esferas da metafísica e da física e conspurcam o santuário da teologia quando postulam a imersão de Deus nos assuntos do mundo sensível. William Dembski, um dos pais do intelligent design, realça o caráter fisicalista (“interno”, na terminologia de Rudolf Carnap) do argumento do desígnio:

O que emergiu foi um novo programa de pesquisa científica conhecido como design inteligente. Na biologia, o design inteligente é uma teoria da origem e do desenvolvimento biológico. De acordo com sua tese fundamental, causas inteligentes são necessárias para explicar as estruturas complexas e ricas em informação da biologia, e estas causas são empiricamente detectáveis. Dizer que causas inteligentes são empiricamente detectáveis é dizer que existem métodos bem definidos que, com base em características observáveis do mundo, são capazes de distinguir com segurança causas inteligentes de causas naturais não dirigidas. (13)

As palavras de Dembski bastam para provar que o Deus de Dawkins (e dos teólogos naturais) é uma entidade mundana submetida ao julgamento da ciência empírica. E quais são os teístas que se sentem incomodados com tal interferência? Não creem que Deus é capaz de intervir no curso ordinário da natureza e perturbar a cadeia de causas secundárias, por meio de milagres? Não creem em aparições de anjos, demônios e fantasmas? Não creem que Deus é capaz de ouvir e de atender a preces, e que a ressurreição de Jesus é um fato histórico que envolve a vida de um indivíduo de carne e osso? Em suma, se Deus não é uma entidade metafísica vazia (sem nenhuma conexão com a realidade empírica), sua existência é uma hipótese sujeita ao escrutínio cientifico. De fato, uma entidade metafísica nada teria a ver com a investigação científica, e tampouco com a vida dos indivíduos de carne e osso. Um Deus empírico, por outro lado, seria um item do sistema do mundo. Sua existência é análoga à existência de unicórnios, extraterrestres, espectros, duendes etc. Carnap expõe com clareza a distinção entre a “teologia mitológica” (empírica) e a “teologia metafísica”:

Muitos teólogos têm um conceito de Deus nitidamente empírico (este conceito pertence, portanto, em nossa terminologia, à espécie mitológica). Não há, neste caso, pseudoenunciados [proposições desprovidas de sentido], mas tal interpretação apresenta, para o teólogo, o seguinte inconveniente: os enunciados da teologia são enunciados empíricos e, por isso, pertencem ao julgamento da ciência empírica. Em outros teólogos, o emprego é nitidamente metafísico. (14)

Não há lugar para dúvidas: Dawkins tem como objeto um conceito empírico de Deus. O procedimento é plenamente válido se os enunciados teológicos investigados são empíricos. Aliás, como poderíamos refutar um enunciado metafísico? Como poderíamos provar a um solipsista, por exemplo, que sua consciência não é a única consciência existente? Decorre daí que a acusação contra Dawkins é improcedente, pois a invasão de terreno foi cometida inicialmente pela própria teologia que se mistura aos assuntos mundanos. Parece evidente, assim, que é possível testar cientificamente a hipótese da existência de uma divindade que desempenha um papel ativo na economia do universo. O Deus judaico-cristão-islâmico, por sinal, é uma entidade conceitualmente dotada de uma imensa capacidade de participação empírica. Alguns críticos, no entanto, sentiram-se incomodados com o procedimento de Dawkins e advogaram um regime de não-interferência. Trata-se de um clichê epistemológico exemplarmente defendido por Stephen Jay Gould em Rocks of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life. Para Gould, ciência e religião devem ser colocadas em compartimentos estanques, de modo a evitar conflitos: elas são “magistérios não-interferentes” (MNI, ou NOMA no original em inglês: “non-overlapping magisteria”). A ciência lidaria com o estudo da natureza, e a religião, somente com a moralidade. A manobra de Gould é clara e consiste simplesmente numa redefinição da religião como filosofia moral. Mas a realidade não corresponde à pureza megárica das categorias de Gould. A tese dos MNI contradiz o modus operandi das religiões, que realmente postulam interferências e assumem uma conexão explícita com o mundo empírico. Ademais, teria sido Gould capaz de provar que a moral é um assunto alheio à ciência? A moral utilitarista de filósofos como Helvétius, Beccaria, Bentham e Mill não desmente o outro aspecto do separatismo de Gould?


O “deus” do Antigo Testamento era um monstro moral?

São conhecidas as seguintes palavras de Dawkins:

O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. (15)

Por incrível que pareça, certos teólogos repudiaram essa constatação ancestral. Com efeito, um leitor atento e imparcial da bíblia seria obrigado a concordar com todos os adjetivos da lista de Dawkins. Este afirma que o Deus do Antigo Testamento talvez seja o personagem mais desagradável da literatura universal. De fato, encontramos personagens comparáveis apenas nos romances do Marquês de Sade: Jeová seria um correligionário de Noirceuil, Saint-Fond, Clairwill, Brisa-Testa, o Papa Pio VI e toda a trupe de Juliette. Mas Jeová, como um tirano superlativo, foi capaz de executar devastações incrivelmente mais vultosas. Num arroubo de depravação, Juliette chega a “desejar, como Tibério, que a raça humana tenha apenas uma cabeça, para ter o prazer de cortá-la com um único golpe”. (16) Ora, Jeová não se limitou a desejar semelhantes torpezas. Qual celerado pôde, como ele, destruir toda a população da terra (com exceção de uma família, a de Noé)? Os cristãos têm a tradição de demonizar os deuses pagãos, e deixam de enxergar o verdadeiro demônio das histórias bíblicas. “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7). A lista de malfeitorias sancionadas pela bíblia é interminável. Em Deuteronômio 20:13-17, Deus estabelece como regra o massacre de todos os seres vivos de uma cidade conquistada: homens, mulheres, crianças e animais devem ser “passados ao fio da espada”. Josué 6:20-21 narra a tomada de Jericó: “E tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento”. Deuteronômio 2:32-35 narra a tomada de Siom: “E o Senhor nosso Deus no-lo entregou, e o ferimos a ele, e a seus filhos, e a todo o seu povo. E naquele tempo tomamos todas as suas cidades, e cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos a ninguém. Somente tomamos por presa o gado para nós, e o despojo das cidades que tínhamos tomado”. Números 31:18 declara que, de acordo com os comandos divinos, todas as virgens midianitas deveriam ser levadas como servas sexuais dos soldados israelenses. Mas o assassinato de inocentes parece ser a atitude mais cara ao Deus do Antigo Testamento: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos” (1 Samuel 15:2-3). E poderíamos multiplicar os exemplos ad libitum.

Na realidade, a percepção de Dawkins é tão antiga quanto o próprio cristianismo. Desde os primórdios, as inteligências imparciais não deixaram de observar a incompatibilidade entre a sã moral e a conduta do Deus bíblico. O heresiarca cristão Marcião de Sínope (c. 85 – 160 d.C.) já havia estabelecido uma descontinuidade entre o caráter legalista, bárbaro e cruel do Deus do Antigo Testamento e o caráter brando e compassivo do Deus do Novo Testamento. Os dois testamentos, dizia Marcião, não podem ser atribuídos ao mesmo Deus. Tal descontinuidade coloca um grave problema aos teólogos cristãos: ou estes admitem, como Marcião, que o “deus” do judaísmo (o demiurgo) não é o mesmo Deus do cristianismo (o Deus Pai), ou são obrigados a admitir que Deus não é imutável; ora, a imutabilidade é um dos atributos essenciais de Deus. No século XVIII, deístas e materialistas prestaram tributos às idéias de Marcião. Para Thomas Chubb, as vilezas do texto bíblico depõem decisivamente contra a hipótese de uma inspiração divina: “Este livro, chamado de Bíblia sagrada, contém muitas coisas que estão bem abaixo e são indignas da Suprema Deidade”. (17) Holbach afirmou que

O deus de Israel, que entra nos menores detalhes sobre tudo o que diz respeito aos sacrifícios, aos ritos e às cerimônias, passa muito ligeiramente sobre a moral, ciência que parece ter sido completamente ignorada por este deus e por seu profeta [Moisés]. Em cada página da Bíblia encontramos a rapina, a traição, a rebelião, a fraude, a usurpação, as violações mais manifestas do direito natural e das pessoas, autorizadas e comandadas aos hebreus pela divindade ou por seus intérpretes. Os anais dos judeus nos mostram como amigos de Deus, como homens que seguem seu coração, como heróis e santos, uma multidão de personagens que a sã moral nos faria enxergar como monstros marcados pelas crueldades mais revoltantes e pelos crimes mais medonhos. (18)

De acordo com Thomas Paine, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América,

Sempre que lemos as histórias obscenas, os deboches voluptuosos, as execuções cruéis e torturantes, e o espírito implacável de vingança com os quais mais de metade da Bíblia [no caso, do Antigo Testamento] está preenchida, seria mais consistente que a chamássemos de a palavra de um demônio, do que de a Palavra de Deus. Trata-se de uma história de maldade, que serviu para corromper e brutalizar a humanidade; e, de minha parte, eu sinceramente a detesto, assim como detesto tudo que é cruel. (19)

Os cristãos, no entanto, não são bons leitores de seu livro sagrado. O poder de controle exercido pelas religiões organizadas deixou de ser significativo na vida das pessoas. Consequentemente, vivemos na época do subjetivismo religioso mais libertário, na qual cada indivíduo se sente no direito de construir uma cosmovisão religiosa particular em conformidade com os pendores de seu coração. “O divino é o agradável”, e as massas são movidas pelo hedonismo. A ausência de reconhecimento de um conteúdo doutrinário rígido aproximou a religião da literatura popular de autoajuda. Assim, as maldades sancionadas pela bíblia são simplesmente ignoradas. Victor Stenger foi um observador perspicaz do cristianismo no mundo atual:

A maioria dos crentes atuais ignora tais passagens [imorais da bíblia] [...] Os cristãos raramente leem o Antigo Testamento. No entanto, eles não podem simplesmente descartar essa história. Ela fornece uma evidência por meio da qual podemos testar a alegação de que um Deus benevolente está encarregado do mundo. Deveríamos esperar que o mundo exibisse sinais de bondade e perfeição moral. Em vez disso, encontramos atrocidades e sofrimento gratuito, os quais parecem falsificar a hipótese de um Deus moralmente perfeito. Mas Jeová é também o Deus cristão. De alguma forma o Deus cruel e vingativo do Antigo Testamento reformou a si mesmo para tornar-se o Deus pessoal, atencioso e amoroso de que se fala no púlpito nas megaigrejas protestantes de hoje. Com maior probabilidade, Deus sempre foi uma ilusão, e a forma desta ilusão é que mudou com o tempo. (20)

Stenger também desvendou a consciência dos cristãos hodiernos e a atitude subjetivista e emotivista que a domina: “Os novos crentes descobriram um fato antigo. A experiência religiosa é pessoal, autocentrada, e agradável. Não importa o que a Bíblia diz, o que os teólogos argumentam, ou o que a história nos conta. Isso pode ser ignorado”. (21)

De fato, os teólogos não poderiam ignorar a imoralidade da bíblia. Quando não recorreram a expedientes alegóricos que despojam as narrativas sagradas de todo conteúdo empírico, elaboraram racionalizações grotescas. Desde Orígenes (c. 183 – 254), alguns teólogos desonestos têm o hábito de utilizar o artifício da alegoria como uma tentativa de salvar do opróbrio as passagens mais embaraçosas das escrituras sagradas. Charles de Brosses (1709 – 1777), pioneiro da etnologia das religiões, ridicularizou a mania alegorista dos

últimos filósofos platônicos [Clemente de Alexandria, Orígenes...], que atribuíam a nações ignorantes e selvagens um conhecimento das causas mais ocultas da natureza, e encontravam no amontoado de práticas triviais de uma multidão de homens estúpidos e grosseiros as ideias intelectuais da mais abstrata metafísica. (22)

Para De Brosses, a exegese alegórica é semelhante ao fenômeno psicológico da pareidolia: “A alegoria é um instrumento universal que se presta a tudo. Uma vez admitido o sistema do sentido figurado, vemos nele facilmente tudo aquilo que queremos, como nas nuvens”. (23) De Brosses dizia que os fetiches das religiões africanas não eram imagens de um “poder divino superior” (como os adeptos da mania alegorista gostam de afirmar), mas objetos materiais comuns ou animais reais (no caso da religião egípcia) adorados exatamente como entidades mundanas prosaicas. O alegorismo não passa de uma tentativa forçada e arbitrária de dar às mitologias religiosas uma dignidade intelectual da qual elas originalmente não são dotadas. Do mesmo modo, os exegetas alegoristas enxergariam os significados mais metafísicos por trás das histórias bíblicas de matanças de inocentes. Outros teólogos menos imaginativos rejeitaram a licenciosidade da interpretação alegórica e propuseram interpretações literais. É o caso do apologeta cristão William Lane Craig, que promoveu em seu site (Reasonable Faith) um arrazoado em defesa das atrocidades do Antigo Testamento. Craig afirma sem nenhum pudor que as crianças assassinadas pelos exércitos de Moisés foram mandadas diretamente para o céu, e que matá-las, afinal, foi o mesmo que salvá-las: “Se acreditamos, como eu acredito, que a graça de Deus abarca aqueles que morrem na infância ou como crianças pequenas, a morte dessas crianças foi realmente sua salvação [...] Portanto, Deus não prejudica tais crianças ao tomar suas vidas”. Temos a impressão de que, com as justificativas estapafúrdias de Craig, a emenda ficou pior do que o soneto. Ainda de acordo com Craig, Deus está isento de obrigações morais e tem o direito de dispor da vida de seus filhos inocentes: “Ele pode conceder e tirar a vida como bem entender”. De modo que o poder de Deus sobre a vida de seus filhos seria o mesmo poder paterno perversamente advogado por Rodin, o cirurgião filicida de Justine:

Eu vejo um pouco de semente [esperma] eclodida com o mesmo olho (ao peso aproximado) com que vejo aquela que me agrada desperdiçar em meus prazeres. Jamais fiz mais caso de uma do que a outra. Somos senhores para retomar o que concedemos; nunca o direito de dispor de seus filhos foi contestado por algum povo da terra. Os persas, os medos, os armênios e os gregos gozavam deste direito em toda sua amplitude. As leis de Licurgo, o modelo dos legisladores, não somente deixavam aos pais todos os direitos sobre seus filhos, mas até condenavam à morte aqueles que os pais não desejavam alimentar, ou aqueles que nasciam malconformados. Uma grande parte dos selvagens assassina seus filhos assim que eles nascem [...] Rômulo permitiu o infanticídio; a lei das doze tábuas o tolerou da mesma maneira, e até Constantino, os romanos expunham ou assassinavam impunemente seus filhos. Aristóteles recomenda este pretenso crime; a seita dos estoicos o considerava louvável; ele ainda é muito comum na China. Todos os dias encontramos nas ruas e canais de Pequim mais de dois mil indivíduos imolados ou abandonados por seus pais, e qualquer que seja a idade de uma criança, neste sábio império, um pai, para se desembaraçar dela, tem apenas a necessidade de colocá-la nas mãos de um juiz [...] De acordo com as leis persas, podíamos assassinar nosso filho, nossa filha ou nosso irmão, mesmo na idade núbil; César encontrou este costume geral na Gália; várias passagens do Pentateuco provam que era permitido assassinar seus filhos entre o povo de Deus; e o próprio Deus, enfim, exigiu-o de Abraão. (24)


Somos todos ateus (relativamente aos deuses dos outros)?

Alguns apologetas criaram chicanas mesquinhas a respeito de uma alegação de Dawkins, segundo a qual somos todos ateus (relativamente ou absolutamente):

Eu me divirto com a estratégia, quando me perguntam se sou ateu, de lembrar que o autor da pergunta também é ateu no que diz respeito a Zeus, Apolo, Amon Rá, Mithra, Baal, Thor, Wotan, o Bezerro de Ouro e o Monstro do Espaguete Voador. Eu só fui um deus além. (25)

Os detratores de Dawkins limitam-se a afirmar uma obviedade que não foi posta em questão por nenhum ser humano: o fato de que os teístas não são ateus completos, pois professam a crença numa determinada divindade. São Justino (chamado de “Mártir”) escreveu duas Apologias (c. 155 d.C.) dedicadas ao imperador Antonino Pio, nas quais responde a várias acusações contra os cristãos. Uma das acusações dizia que os cristãos eram ateus. Justino declara na primeira Apologia: “Nós admitimos que somos ateus relativamente a deuses como estes [da mitologia de outros povos], mas não relativamente ao Deus mais verdadeiro [o deus da mitologia doméstica de Justino]”. (26) São Justino ainda explica que Sócrates foi condenado à morte em decorrência de uma acusação de ateísmo (relativo a certos deuses, pois o filósofo grego defendia a existência de uma mente sobrenatural ordenadora do universo). Dawkins, portanto, apenas formula uma argumentação análoga à de São Justino. Não é de outra maneira que Tertuliano argumentava no Apologético (197 d.C.), obra endereçada aos governadores de províncias romanas. Os cristãos eram acusados pelos romanos do crime de lesa-religião. Tertuliano procura mostrar que os deuses pagãos não existem como verdadeiros deuses, mas somente como demônios disfarçados. Assim, se não há outros deuses, o Deus cristão é o único Deus verdadeiro. Tertuliano inverte a perspectiva e transfere a acusação de lesa-religião aos próprios acusadores romanos. No que se refere aos deuses pagãos, os cristãos, de fato, são ateus:

Se é certo que vossos deuses não existem, é certo que vossa religião também não existe; e, se é certo que vossa religião não existe, porque vossos deuses não existem, é certo também que nós não somos culpados do crime de lesa-religião. Mas, ao contrario, é sobre vós que recai a condenação feita contra nós, sobre vós que adorais a mentira e que, não se contentando em negligenciar a verdadeira religião do verdadeiro Deus, procurais combatê-la. (27)

Tertuliano expõe de maneira excelente a lógica das religiões. Todas as religiões são falsas, com exceção da religião doméstica na qual um determinado grupo de fiéis foi educado. Nas palavras de David Strauss,

O crente muçulmano acredita que a verdade está contida somente no Corão, e que a maior porção da Bíblia é fabulosa; o judeu da época atual, embora admita a verdade e a origem divina do Antigo Testamento, rejeita o Novo; e a mesma crença exclusiva na verdade de seu próprio credo e na falsidade de todos os outros foi professada pelos mestres da maioria das religiões pagãs anteriores ao período do Sincretismo. Mas qual comunidade está correta? Não é possível que todas estejam corretas, pois a afirmação de cada uma exclui as outras. Mas qual comunidade particular? Cada uma reivindica para si a verdadeira fé. As pretensões são idênticas. (28)

É extremamente simples diferenciar o ateísmo relativo (comum a todos os teístas) do ateísmo absoluto. Para o argumento em questão, o importante é aquilo que ambos têm em comum: o ponto de vista de quem não crê na existência de divindades. O argumento tem unicamente o intuito de mostrar que até mesmo os religiosos são ateus em relação aos deuses de outros cultos, e que os ateus stricto sensu somente deram um passo a mais e abandonaram os privilégios arbitrários de uma comunidade religiosa circunscrita. Logo, as críticas ao argumento de Dawkins são infundadas. Elas poderiam ser dirigidas com o mesmo direito aos Santos Padres Justino e Tertuliano, correligionários eminentes dos atuais apologetas cristãos.


O argumento central do livro de Dawkins é filosoficamente ingênuo?

Dawkins dedica-se sobretudo à análise crítica do argumento do desígnio (ou argumento teleológico). Nas palavras de Kant (ele mesmo um detrator do presente argumento), “Esta prova merece sempre ser citada com respeito. Trata-se da mais antiga, mais clara e mais conforme com a razão humana comum”. (29) Ademais, a predileção particular de Dawkins pelo argumento do desígnio é facilmente explicável. O cientista britânico é um biólogo evolucionista e um prócer da divulgação das idéias de Darwin. O argumento do desígnio (atualmente chamado de intelligent design) é tradicionalmente apresentado em sua versão biológica, baseada nas maravilhas das adaptações (funcionalidades) orgânicas. De Galeno a Paley, a complexidade das funcionalidades orgânicas foi utilizada como uma poderosa arma contra as explicações materialistas da origem das espécies. No século XVII, Leibniz contrapôs a modalidade biológica do argumento do desígnio às explicações genéticas naturalistas de Descartes e de Spinoza:

Todos os que veem a admirável estrutura dos animais são obrigados a reconhecer a sabedoria do autor das coisas. Aconselho aos que têm algum sentimento de piedade e mesmo de verdadeira filosofia a afastarem-se das frases de alguns espíritos demasiadamente pretensiosos, que dizem que vemos porque temos olhos, e não dizem que os olhos foram feitos para ver. (30)

De acordo com a intuição geral dos criacionistas, a matéria estúpida (que opera segundo o acaso e a necessidade) seria incapaz de gerar a “admirável estrutura dos animais” de que fala Leibniz. Em meados do século XIX, Darwin e Wallace forneceram uma teoria materialista que se tornou amplamente aceita e arruinou definitivamente o argumento do desígnio em sua versão biológica. Marx escreveu numa carta a F. Lassalle de 1861 que “O livro de Darwin [A origem das espécies] desfere pela primeira vez um golpe mortal na teleologia das ciências da natureza”. (31) Podemos afirmar que Darwin pagou as notas promissórias fornecidas pelos materialistas anteriores e mostrou como a matéria estúpida é capaz de criar as adaptações orgânicas. O mecanismo proposto por Darwin é chamado de evolução por seleção natural. A evolução darwiniana é um processo gradual que vai do simples ao complexo e que ocorre por meio da conservação das características hereditárias que favorecem a sobrevivência e a reprodução dos organismos.

O argumento central do livro de Dawkins é derivado da teoria darwiniana da evolução. Ele pode ser sumarizado da seguinte maneira: “Qualquer inteligência criativa, de complexidade suficiente para projetar qualquer coisa, só existe como produto final de um processo extenso de evolução gradativa”. (32) Trata-se de um argumento contra o teísmo: “O argumento da improbabilidade, empregado de forma adequada, chega perto de provar que Deus não existe. O nome que dei à demonstração estatística de que Deus quase com certeza não existe é a tática do Boeing 747 Definitivo”. (33) O nome é derivado de uma imagem concebida pelo astrônomo britânico Fred Hoyle: “Hoyle disse que a probabilidade de a vida ter surgido na terra não é maior que a chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho, ter a sorte de construir um Boeing 747”. (34) Na verdade, o argumento de Hoyle é um clássico da história da filosofia. Ele pode ser remontado à Antiguidade, particularmente à querela entre o criacionista Galeno e os partidários do materialismo de Epicuro. A estratégia de Dawkins consiste em partir dos próprios pressupostos dos criacionistas para refutá-los: “Por mais estatisticamente improvável que for a entidade que se queira explicar através da invocação de um designer, o próprio designer tem de ser no mínimo tão improvável quanto ela. Deus é o Boeing 747 Definitivo”. (35)

O argumento de Dawkins também não é novo. Uma versão análoga foi proposta pelo filósofo e padre francês Jean Meslier (1664 – 1729), o primeiro escritor abertamente ateu da história, como parte de uma crítica da teologia fisicalista de Fénelon:

Se o universo, como diz o autor [Fénelon], porta a marca de uma causa infinitamente potente e industriosa, com uma razão mais forte aquele que o teria produzido, sendo muito mais perfeito do que o universo, portaria em si mesmo a marca de uma causa infinitamente potente e industriosa [...] Mas se aquele que teria produzido o universo, tão perfeito quanto ele possa ser, não porta a marca de uma causa infinitamente potente e industriosa, por que, então, ele [Fénelon] deseja sustentar que o universo, que é sem dúvida muito menos perfeito do que aquele que o teria produzido, portaria a marca de uma causa infinitamente perfeita e industriosa? (36)

Na realidade, os teólogos estão colocados diante de uma aporia: uma vez assumida a conexão entre o ser de Deus e o mundo empírico (como no intelligent design), o argumento de Dawkins entra em cena e passa a operar; uma vez negada a conexão, o argumento perde sua esfera de aplicação, e Deus também perde o contato com o mundo concreto. Os teólogos só dispõem de uma maneira para contrariar o argumento de Dawkins: afirmar que Deus é uma entidade metafísica. Trata-se da estratégia adotada por Ian Markham:

Embora seja verdade que, dentro do mundo físico, um cachorro possa fazer muito mais do que uma cenoura, em virtude de sua complexidade, a religião alega que Deus – como um espírito – cria. Assim, embora o axioma seja geralmente verdadeiro dentro do mundo físico, a alegação cristã nos diz que ele não é verdadeiro na dimensão transcendente. Dawkins necessita demonstrar ou a verdade do materialismo (que tudo necessita estar conectado à realidade física) ou a impossibilidade ou a improbabilidade de uma dimensão espiritual transcendente na qual operam leis diferentes. (37)

Markham sintetizou a questão com maestria. O Deus cristão só escapa ao desafio de Dawkins através de uma fuga para os recessos numênicos: “Deus não é uma entidade física”. (38) Muito bem. Mas uma entidade metafísica não poderia ser a causa de efeitos físicos: um Deus transcendental agiria globalmente (na existência como um todo), e não em setores particulares do universo (porém, a causa de tudo não é a causa de nada). Suas ações, portanto, não teriam um significado empírico. De modo que Deus, como uma entidade metafísica, não seria o Deus do intelligent design. Um Deus metafísico está fora do mundo (é externo, segundo a terminologia de Carnap); e um ser externo ao mundo não poderia agir dentro do mundo. Os teólogos fogem de Cila para cair nas garras de Caríbdis. Holbach tinha plena consciência do dilema que assedia a teologia:

Supondo por um instante que seja impossível conceber o universo sem um artífice que o tenha formado e que zele pela sua obra, onde colocaremos esse artífice? Será dentro ou fora do universo? Ele será matéria ou movimento? Ou então será apenas o espaço, o nada ou o vazio? Em todos esses casos, ou ele não seria nada ou estaria contido na natureza e submetido às suas leis. Se ele está na natureza, não posso ver nela senão a matéria em movimento, e devo concluir disso que o agente que a move é corporal e material e que, por conseguinte, ele está sujeito a se dissolver. Se esse agente está fora da natureza, não tenho mais nenhuma idéia do lugar que ele ocupa, nem de um ser imaterial nem da maneira como um espírito sem extensão pode agir sobre a matéria da qual ele está separado. (39)

Se Deus não é uma entidade transcendente (metafísica), mas um item do sistema do mundo, o argumento central do livro de Dawkins é plenamente válido. Ora, se admitimos que Deus é o autor da complexidade funcional dos organismos (conforme a tese fundamental do intelligent design), somos obrigados a admitir que Deus é necessariamente um habitante do universo. Assim, um Deus que age no interior do sistema da natureza necessita ser examinado e julgado de acordo com o ponto de vista da biologia evolutiva. Em outras palavras, uma entidade empírica dotada das propriedades comumente atribuídas a Deus (uma inteligência extraordinária) seria obrigatoriamente explicada por meio de um processo que vai do simples ao complexo: o mecanismo darwiniano de evolução por seleção natural. No entanto, os partidários do intelligent design pressupõem a inteligência do artífice divino, ou seja, incorrem numa petição de princípio: “explicam” a origem da complexidade por meio da postulação de uma complexidade suplementar inexplicável. Somente a perspectiva darwiniana oferece um mecanismo plausível para explicar o surgimento da complexidade a partir de estruturas mais simples. A ingenuidade, na verdade, não pertence ao argumento de Dawkins, mas aos teístas que assumem a complexidade em vez de explicá-la. Como na época da biologia vitalista, a existência de uma “força vital” misteriosa é utilizada como um disfarce conceitual para encobrir a ignorância a respeito da natureza dos fenômenos orgânicos. Molière zombou impiedosamente da inépcia dos argumentos circulares dos vitalistas em O doente imaginário: “Por que o ópio faz dormir? Porque ele é dotado de um poder dormitivo”. Poderíamos, então, perguntar: “Qual a origem da complexidade orgânica?” E responder como os criacionistas: “Uma inteligência altamente complexa”. Repetimos: o argumento central do livro de Dawkins é apenas o reflexo invertido do principal argumento do intelligent design.


A explicação evolutiva da origem da religião e da moralidade é pertinente?

Dois capítulos de The God Delusion são dedicados à investigação das origens biológicas da religião e da moral (“5. As raízes da religião” e “6. As raízes da moralidade: por que somos bons?”). Dawkins, aqui, está diante de um dilema: ou ele comete a falácia genética ou elabora uma argumentação que, embora válida, é irrelevante. Com efeito, a elucidação da origem evolucionária da religião é irrelevante para a determinação da validade intrínseca do teísmo. Trata-se, portanto, de uma argumentação cujo pressuposto teórico central está equivocado. No entanto, mesmo aqui, Dawkins conta com predecessores filosóficos ilustres: o século XIX foi o século dos campeões da falácia genética: Feuerbach e Freud (a religião como projeção do ser humano), Nietzsche (a religião como produto do ressentimento) e Marx (a religião como um derivado do contexto socioeconômico). Ora, o ópio não seria menos verdadeiro (ou falso) por ser um entorpecente, assim como a religião não seria menos verdadeira (ou falsa) por ser uma projeção da consciência humana, um fruto da “moral dos escravos”, um fenômeno do sistema econômico ou, segundo a visão particular defendida por Dawkins, um subproduto da evolução por seleção natural. A esfera da lógica e das evidências empíricas não deve ser confundida com a esfera dos hábitos psicológicos e dos condicionamentos biológicos e sociais.

O mesmo ocorre no estudo evolucionário da origem da moralidade. O naturalismo evolucionista transformou o problema da moralidade na investigação da existência de uma faculdade moral impressa na psicologia individual dos seres humanos e de outros animais sociais. Este gênero de explicação, no entanto, condena os valores ao relativismo e impede o fornecimento de uma boa fundação para a moral. Como explicou o filósofo evolucionista Michael Ruse,

O evolucionista moderno afirma que os seres humanos têm uma consciência da moralidade [...] porque tal consciência é dotada de um valor biológico. A moralidade é uma adaptação biológica comparável a mãos, pés e dentes. Considerada como um conjunto de afirmações racionalmente justificáveis sobre algo objetivo, a ética é ilusória. A moralidade é um produto efêmero do processo evolutivo, assim como as outras adaptações. Ela não tem uma existência ou ser fora disso, e todo significado mais profundo é ilusório (embora colocado em nós por boas razões biológicas). Considere uma analogia. Vemos um trem em movimento com nossos órgãos sensíveis, que claramente mostram seu valor adaptativo assim que caminhamos espertamente para fora do caminho do trem. Mas ninguém negaria que o trem genuinamente existe, quer o vejamos ou não. Talvez, portanto, o mesmo possa e deva ser dito sobre a moralidade. É verdade que nossa consciência do certo e do errado depende de órgãos evoluídos, e que essa consciência tem valor adaptativo, mas isso não significa negar a existência independente de padrões morais. (40)


Conclusão

Como dizia o autor do Eclesiastes, “nada há novo debaixo do sol”. A atitude teórica de Dawkins e as reações críticas dos apologetas estão longe do ineditismo. Como em outros episódios do secular embate entre a ciência e a religião, as críticas dos teístas, em sua maior parte, são injustificáveis. Muitos ataques são motivados pelo estilo literário de Dawkins e pela penetração popular de suas obras, como se a riqueza da exposição e a correção científica fossem incompatíveis com uma prosa isenta de jargões e dirigida a um público mais amplo de pessoas inteligentes. Numa época em que, a despeito dos progressos extraordinários do secularismo e da educação científica, a religião domina uma parcela significativa das consciências e o ateísmo é uma posição de má reputação, o significado popular da obra de Dawkins é um de seus maiores méritos. Outros não admitem as incursões de Dawkins pelos domínios da filosofia, como se a ciência não tivesse nada de importante a dizer sobre o universo e sobre a existência humana. Acreditamos que a obra de Charles Darwin seja dotada de um profundo significado filosófico, e que Dawkins seja o maior representante da atual consciência darwiniana. O argumento ateísta central do livro de Dawkins (o “argumento do Boeing 747 Definitivo”) é reflexo de um entendimento apurado da ciência de Darwin. Trata-se de um argumento irrefutável no interior do sistema da natureza. Com efeito, se Deus interage com o mundo material, ele não é um ser espiritual (metafísico). Efeitos materiais têm necessariamente causas materiais. Portanto, um Deus empírico seria muito mais estatisticamente improvável do que qualquer entidade que se pretendesse explicar por meio dele. As explicações genéticas válidas não assumem a complexidade como um dado inicial, mas buscam derivá-la como um resultado tardio de uma cadeia de transformações evolutivas que parte das formais mais simples. Em outras palavras, a postulação de uma causa inteligente da complexidade é uma petição de princípio. O pendor darwiniano de Dawkins o levou também a especular sobre as origens evolutivas da religião e da moralidade, procedimento que poderia ser caracterizado como uma falácia genética ou como uma investigação irrelevante (para a questão da validade intrínseca das crenças e da objetividade dos valores morais). No entanto, as considerações sobre as raízes da religião e da moralidade são secundárias e não comprometem o valor e a justeza da argumentação geral desenvolvida por Dawkins em seu livro.


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Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) V. I. LÊNIN, Materialismo y empiriocriticismo, p. 9.

(2) Ibid., pp. 390-391 (grifos do autor).

(3) Ibid., p. 391 (nota).

(4) V. STENGER, The New Atheism, p. 32.

(5) S. J. GOULD, Wonderful Life, p. 16.

(6) J. O. LA METTRIE, L’homme machine, p. 147.

(7) J. MOLESCHOTT, La circulation de la vie, p. 10.

(8) F. A. LANGE, The History of Materialism, Segundo Livro, Primeira Seção, p. 245.

(9) J. P. ECKERMANN, Conversations of Goethe with Eckermann and Soret, p. 393.

(10) J. MARÍAS, História da filosofia, p. 288.

(11) Apud D. ROBERTSON, As cartas para Dawkins, pp. 13-14.

(12) Apud M. RUSE, Darwinism and its Discontents, p. 25.

(13) W. A. DEMBSKI, Intelligent Design, p. 106.

(14) R. CARNAP, Le dépassement de la métaphysique. In: Manifeste du Cercle de Vienne et autres écrits, p. 162.

(15) R. DAWKINS, Deus, um delírio, p. 55.

(16) Marquês de SADE, Histoire de Juliette, Œuvres III, p. 901.

(17) T. CHUBB, The Posthumous Works: Remarks On The Scriptures, p. 7.

(18) Barão de HOLBACH, Sistema da natureza, p. 10 (grifo do autor).

(19) T. PAINE, The Age of Reason, p. 34.

(20) STENGER, The New Atheism, p. 110.

(21) Ibid., p. 111.

(22) C. DE BROSSES, Du culte des dieux fétiches, p. 5.

(23) Ibid., pp. 6-7.

(24) Marquês de SADE, Justine, ou les malheurs de la vertu, pp. 141-142.

(25) R. DAWKINS, Deus, um delírio, p. 84.

(26) S. JUSTINO MÁRTIR, The First and Second Apologies, p. 26.

(27) TERTULIANO, Apologétique, p. 133.

(28) D. STRAUSS, The Life of Jesus, Volume I, p. 55.

(29) I. KANT, Crítica da razão pura, p. 384.

(30) G. W. LEIBNIZ, Discurso de metafísica, p. 93.

(31) Apud T. F. GLICK, What about Darwin?, p. 273.

(32) R. DAWKINS, Deus, um delírio, p. 56.

(33) Ibid., pp. 154-155 (grifo do autor).

(34) Ibid., p. 155.

(35) Ibid., p. 156.

(36) J. MESLIER, Notes contre Fénelon, p. 8.

(37) I. S. MARKHAM, Against Atheism. Why Dawkins, Hitchens, and Harris Are Fundamentally Wrong, p. 15.

(38) Ibid., pp. 15-16.

(39) Barão de HOLBACH, Sistema da natureza, p. 592.

(40) M. RUSE, Darwinism and Its Discontents, pp. 262-269.