sábado, 28 de janeiro de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande – A bíblia e a ciência


Colocação do problema

A bíblia, o texto sagrado de judeus e cristãos, é considerada pelos crentes uma obra inspirada por um Deus sobrenatural. De acordo com o apóstolo Paulo, “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2 Timóteo 3:16); o apóstolo Pedro corrobora as palavras de Paulo: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). Mas a tese da inspiração divina seria racionalmente sustentável? Quais indícios objetivos poderiam atestá-la? A questão que se coloca é simples e clara: a bíblia é a palavra de Deus ou a palavra de alguns homens? Há algo na bíblia que não possa ter saído do cérebro de seres humanos da época? Com efeito, conhecemos o autor através de suas obras. A resposta à questão colocada deverá ser obtida por meio de um exame intelectual e objetivo, e não por meio de considerações sentimentais. Não pretendemos analisar a atitude psicológica e irracional da grande massa dos crentes atuais, segundo a qual “a bíblia contém boas mensagens; portanto, ela só poderia vir de Deus (entendido de maneira mais ou menos consciente como o ideal subjetivo de bondade e de beleza)”; o mesmo “raciocínio” é aplicado à música de Bach e a outras obras consideradas “divinamente inspiradas” pelo julgamento popular. O léxico, por sinal, registra o adjetivo “divino” com o significado de “maravilhoso”, “sublime”, “perfeito”, como quando dizemos que uma comida é “divina”. É óbvio que o conceito de “inspiração divina” com que lidamos neste texto não é o conceito relaxado da mentalidade popular. O conceito teológico rigoroso de “verdade revelada” supõe a intervenção concreta (empírica) de Deus no espaço e no tempo, com a finalidade de comunicação: um milagre, ou seja, uma violação das leis da natureza com um objetivo específico. Somente este conceito nos interessa. De qualquer forma, temos consciência do fato de que, para a maioria dos crentes, a adesão a uma forma de religião ocorre em decorrência de motivações emocionais e de hábitos psicológicos. Evidentemente, tal atitude é completamente irrelevante para o exame objetivo e racional das crenças religiosas.

A bíblia contém conhecimentos sobrenaturais (revelados por Deus)?

Alguns apologetas costumam afirmar que a bíblia contém assombrosas predições científicas, e que tal conhecimento extraordinário seria uma prova de sua origem divina. De acordo com eles, por exemplo, a bíblia descreve corretamente o processo de evaporação da água: “Faz subir os vapores das extremidades da terra; faz os relâmpagos para a chuva; tira os ventos dos seus tesouros” (Salmo 135:7); de condensação da água: “Prende as águas nas suas nuvens, todavia a nuvem não se rasga debaixo delas” (Jó 26:8); menciona dinossauros: os monstros Beemote (Jó 40:15-24) e Leviatã (Jó 41:1-34); contêm conhecimentos fisiológicos acurados: “Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma” (Levítico 17:11); menciona o formato esferoide da terra: “Ele é o que está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar” (Isaías 40:22), etc.

Meia dúzia de palavras esparsas e ambíguas sobre eventos e seres da natureza; observações de fenômenos do cotidiano que poderiam ser levadas a cabo até mesmo por crianças: eis a suma do conhecimento científico que os apologetas creem encontrar na bíblia. Nada que não pudesse ser obtido pelo conhecimento humano ordinário da época. Nada, portanto, que sirva como prova de uma origem sobrenatural. Os filósofos da Antiguidade, com efeito, forneceram intuições científicas bem mais impressionantes, inequívocas e geniais. É o caso do materialista romano Tito Lucrécio Caro, que viveu entre 96 e 55 a.C. e foi autor do poema epicurista “Sobre a natureza das coisas”. Nesta obra, encontramos, como parte de uma cornucópia de teorizações científicas impressionantes, a antecipação da teoria da evolução por seleção natural (formulada por Darwin no século XIX), exposta de maneira clara e precisa pelo filósofo antigo. Na passagem a seguir, Lucrécio fala da geração de mutações malsucedidas, incapazes de auxiliar seus portadores na luta pela sobrevivência:

Foi nessa altura [no início] que a Terra tentou criar numerosos monstros de estranho aspecto e membros, por exemplo, o andrógino, intermediário entre os dois sexos... e os seres que não tinham pés ou que não tinham mãos, e também os que não tinham boca e eram mudos e os que se encontravam cegos e sem face e os que tinham os membros inteiramente presos ao corpo e não podiam fazer coisa alguma, nem andar nem evitar o mal nem apanhar aquilo que seria útil [devido à ausência de adaptações] (1973, p. 115).

Lucrécio prossegue e afirma que as mutações malsucedidas foram eliminadas posteriormente por uma seleção natural de características vantajosas às espécies:

Tiveram então que desaparecer muitas raças de seres vivos que não puderam, reproduzindo-se, dar origem a uma descendência. Todas aquelas que vês se alimentarem das auras vitais têm, ou a manha [habilidade], ou a força, ou então a mobilidade que, desde o princípio, protegeram a raça e a conservaram (Ibid.).

Comparemos o texto do filósofo romano com as migalhas de sabedoria fornecidas pelos profetas judaicos. Não somos injustos? Em seguida, Lucrécio especula sobre a ascensão do ser humano a partir de um estado primitivo, e fornece a seguinte descrição da compleição física dos progenitores da raça humana:

A raça humana que houve naqueles campos foi muito mais dura, como era natural, dado que a tinha criado uma dura terra; tinha como fundamento ossos maiores e mais sólidos e as carnes estavam ligadas por fortes nervos, de modo que nem os impressionava [abalava] facilmente ou o calor ou o frio ou a novidade da comida ou qualquer das ruínas do corpo (Ibid., p. 116).

A descrição de Lucrécio pode ser facilmente comparada às descrições do homem de Neanderthal fornecidas pela ciência moderna. Lucrécio, é evidente, era um filósofo, e não um visionário ou profeta. Sua sabedoria mundana, a filosofia, como obra do intelecto natural, levou-o a teorizações de extraordinário valor. Repito: Lucrécio era apenas um filósofo: um homem que raciocinava sobre o mundo. Imaginemos o escarcéu que seria feito pelos crentes se intuições tão poderosas fossem encontradas nas escrituras sagradas de alguma religião! Por muito menos os apologetas acreditaram que seus livros sagrados foram inspirados por uma divindade onisciente. Umas duas palavras ingênuas sobre a chuva, outras palavras ambíguas sobre o “círculo da terra”... Se a bíblia é considerada um livro inspirado por Deus, ela deveria conter sinais que o comprovassem. O autor é revelado em sua obra. Mas o que encontramos nela? Sinais de uma origem mundana, humana, natural. Nada que não seja encontrado, de maneira mais excelente, em escritores mundanos como Platão, Aristóteles, Galeno, Lucrécio...

A bíblia afirma, numa das passagens mais citadas pelos defensores de sua pertinência científica, que Deus “suspende a terra sobre o nada” (Jó 26:7). Para muitos apologetas, tais palavras obscuras e poéticas seriam mais uma prova da inspiração divina da bíblia e conteriam uma verdade confirmada pelo conhecimento astronômico posterior. Ora, como já mostramos, não há nenhum conhecimento neste versículo que não possa ter sido concebido pela mentalidade humana da época (fato provado pelas tradições sagradas de outras religiões e pelas obras filosóficas da mesma época, repletas de “insights” e especulações equivalentes ou superiores). E o próprio texto de Jó contém passagens derrogatórias que afirmam que a terra é provida de “fundamentos” e “bases” (38:4-6), passagens que contradizem a afirmação de que a terra está suspensa sobre o nada. Em Jó ainda lemos que o céu é sustentado por colunas (26:11). Assim como as comunicações mediúnicas e os relatos de supostos abduzidos por extraterrestres, o texto bíblico nada contém que não possa ter sido produzido pela humanidade da terra (por que médiuns não psicografam tratados de física de cientistas “desencarnados”, mas apenas homilias que poderiam ser escritas por crianças? Por que supostos abduzidos não trazem informações conformes ao elevado nível intelectual de seus raptores intergalácticos, mas apenas comunicados tolos sobre a iminência de uma nova era da evolução terrena?). O mesmo capítulo de Jó declara que Deus “com sua força fendeu o mar; com o seu entendimento abateu a Raabe [ou Tiamat]” (26:12), monstro marinho da mitologia babilônica. Em outras palavras, o livro “inspirado sobrenaturalmente” afirma que Deus abateu uma criatura marinha da mitologia de povos vizinhos... Se uma referência a um evento lendário inverossímil aparece no mesmo capítulo que contém o versículo sobre a suspensão da terra no nada, por que deveríamos afirmar que sua correção científica foi obra da inspiração divina?

A bíblia foi confirmada pela ciência moderna?

Como se não bastasse sua insignificância epistemológica, a bíblia contém numerosas asserções incompatíveis com o conhecimento científico. Vejamos alguns exemplos. Para os escritores bíblicos, o sol gira em torno da terra; num episódio do livro de Josué, ocorre um milagre no qual o sol se detém (10:13); a mesma noção aparece em Salmos 19:4-6. Alguns apologetas obstinados poderão dizer que Josué falava somente do movimento aparente do sol, manobra exegética que se apóia num argumento ad hoc forçado e antinatural. Com efeito, o que seria mais provável? Que um escritor da Antiguidade julgasse (como os sábios gregos Ptolomeu e Aristóteles), de acordo com o senso comum da época, que a terra era o centro do universo, ou que o povo judeu recebesse instruções de um ser divino? No caso da segunda hipótese, onde estão os sinais objetivos que comprovam tal instrução? A afirmação do geocentrismo, com efeito, é um sinal da origem mundana (natural) dos textos bíblicos. Sua presença em textos antigos é plenamente explicada pelo estágio do desenvolvimento científico dos povos que os escreveram.

A narrativa criacionista do primeiro capítulo de Gênesis compreende um período de meros seis dias. Aqui, a palavra “dia” (“yom”) aparece em imediata conjunção com as palavras “noite”, “tarde” e “manhã” (“E chamou Deus à luz dia, e às trevas, noite. E houve tarde e manhã – o primeiro dia”), fato que invalida a exegese tendenciosa dos apologetas que desejam salvar o discurso bíblico a qualquer custo, segundo os quais a palavra “dia”, na verdade, seria uma alegoria para um vastíssimo período de tempo, conforme o conhecimento geológico moderno. Se um “dia” equivalesse a milhões de anos, os períodos conhecidos como “manhã”, “tarde” e “noite” também durariam milhões de anos, o que é absurdo. Todos sabemos que as partes do dia (manhã, tarde e noite) estão contidas em um período de 24 horas. Contraria todas as normas da boa exegese a tentativa de forçar noções modernas para dentro do universo do texto bíblico. Na leitura de qualquer texto pagão, os apologetas cristãos não teriam nenhuma dificuldade para admitir que os autores simplesmente estavam errados, e que portanto não receberam ensinamentos de uma divindade perfeita. Mas, no caso da bíblia, os apologetas (como advogados de uma “religião doméstica” necessariamente isenta de erros) sentem-se no direito de lançar mão de expedientes alegóricos temerários para conciliar a escritura sagrada com o progresso da ciência. Mais uma vez, a bíblia nada contém que exija o reconhecimento de uma revelação sobrenatural.

A bíblia implica que o universo tem cerca de apenas 6000 anos, cifra obtida a partir da contagem das gerações das genealogias, de Adão a Jesus (4000 anos das genealogias bíblicas + 2000 anos). No entanto, há estrelas situadas a bilhões de anos-luz da terra, de modo que a luz proveniente delas levou bilhões de anos para chegar até nossos olhos ou instrumentos ópticos. A crença bíblica numa terra jovem, longe de indicar uma revelação divina, está em plena conformidade com a mentalidade pré-científica dos autores das escrituras sagradas.

De acordo com o Gênesis, a terra foi criada antes do sol, da lua e das estrelas: com efeito, lemos que a terra é criada no primeiro dia, e que o sol, a lua e as estrelas são criados somente no quarto dia (1:1-16). Na realidade, a terra formou-se oito bilhões de anos depois das primeiras estrelas. Mais uma vez, a bíblia ostenta sinais de uma origem mundana (natural). Com efeito, por que os escritores bíblicos, homens comuns da Antiguidade, seriam obrigados a conhecer as profundidades da astronomia? Não seria infinitamente mais sensato atribuir o texto bíblico à mentalidade humana de uma certa época, em vez de atribuí-lo ao desejo de um Deus de comunicar-se com a raça humana?

Conforme a bíblia, doenças são causadas pelo pecado, e não por mecanismos naturais: “E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados” (Marcos 2:3-5). Num outro episódio narrado no quarto evangelho, a conexão entre as doenças e o pecado é novamente estabelecida: “Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado. Então os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar o leito. Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma o teu leito, e anda. Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito, e anda? E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão. Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” (João 5:9-14). Ademais, Jesus atribui enfermidades a possessões demoníacas: “E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele com a sua palavra expulsou deles os espíritos, e curou todos os que estavam enfermos” (Mateus 8:16). Uma série de questões graves é colocada pelos episódios narrados nos evangelhos: plantas e animais seriam pecadores? Eles não estão sujeitos ao adoecimento (como um fenômeno decorrente de causas naturais)? Conhecemos a resposta dos apologetas obstinados: o pecado foi introduzido no mundo pelo homem, no episódio da queda de Adão e Eva. O que dizer, então, das doenças que acometiam os seres vivos que já existiam antes do surgimento do Homo sapiens? Calcula-se que 99% das espécies de animais que já existiram no planeta terra (desde os primórdios da vida) foram extintas. Diversos estudos paleontológicos apontam a existência de enfermidades letais em espécies extintas milhões de anos antes da existência humana na terra. Animais pré-históricos também morriam de câncer: há ossos fossilizados de dinossauros que apresentam tumores. Mais um exemplo que mostra o quanto o conhecimento científico (de origem completamente mundana) é superior ao conhecimento pretensamente sobrenatural da bíblia.

As numerosas profecias contidas na bíblia poderiam servir como prova de uma inspiração divina. O apologeta cristão Tim LaHaye afirma que

Mais de um quarto do conteúdo da Bíblia foi profético no momento em que foi originalmente escrito. Até o momento, mais da metade dessas mais de mil profecias se realizaram até os mínimos detalhes... É irônico e infeliz que vários professores da Bíblia, nos últimos anos, foram incapazes de reconhecer a inegável importância da profecia, principalmente quando se percebe que as profecias realizadas validam a própria Bíblia. Como todas as profecias bíblicas realizadas se provaram meticulosamente precisas através dos séculos, é plenamente razoável acreditar que as outras coisas tratadas na Bíblia – como os atributos de Deus, coisas específicas sobre a criação e a existência do céu e do inferno – também são 100% precisas. Também fica evidente que o conteúdo da Bíblia não foi escrito pelo homem, mas tem suas origens fora de nosso continuum espaço-tempo, porque registra a história antes de ela acontecer. Na essência, a profecia é a história escrita antecipadamente (2009, pp. 45-46; grifos do autor).

A realidade, infelizmente, desmente as declarações peremptórias de LaHaye. Alguns exemplos são bastante eloquentes. Isaías prediz a destruição da cidade de Damasco (capital da Síria): “Peso de Damasco. Eis que Damasco será tirada, e já não será cidade, antes será um montão de ruínas” (17:1). Damasco, no entanto, continua a existir até hoje. De acordo com uma profecia de Zacarias, “todas as profundezas do Nilo se secarão” (10:11), evento que jamais se confirmou. Segundo Ezequiel 29, o Egito seria devastado por Nabucodonosor, e sua destruição duraria quarenta anos; a história real do Egito desmente as predições de Ezequiel. Os escritores neotestamentários, por seu turno, oferecem exemplos picarescos de supostos cumprimentos de profecias. Mateus afirma que o episódio da saída de Jesus do Egito (ocorrido após a fuga para este país) é uma confirmação de uma profecia do Antigo Testamento: “E, tendo eles se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho” (2:13-15). “Do Egito chamei o meu Filho”; o profeta a que se refere Mateus é Oseias, autor da seguinte frase: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho” (11:1). No entanto, a frase de Oseias não se refere a um indivíduo (Jesus), mas ao povo de Israel como um todo, libertado outrora do cativeiro egípcio por Jeová. O sentido claro e original das palavras de Oseias não foi um empecilho para a adulteração desavergonhada de Mateus. Ainda de acordo com os evangelhos sinóticos, Jesus declara a seus discípulos que seu retorno e o estabelecimento de seu reino ocorrerão no espaço de tempo de uma geração, antes da morte daqueles que o acompanham: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras. Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino” (Mateus 16:27-28). Em outro capítulo de Mateus, Jesus relata uma série de eventos que deverão ocorrer no dia do Juízo Final e acrescenta: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (24:34). Segundo Marcos, Jesus “Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder” (9:1). Pois bem: a segunda volta de Jesus não ocorreu até agora. Se a bíblia de fato apresentasse uma profecia minuciosa, precisa e bem-escrita, algo como: “No primeiro decênio do terceiro milênio, um homem de pele escura chegará ao posto de dirigente da maior nação do planeta”, e se pudéssemos verificar seu cumprimento, então seríamos obrigados a levar a sério a hipótese de uma inspiração divina. No entanto, o que ela nos oferece? Predições que causam embaraço até mesmo no exegeta mais caridoso?

Conclusão

Conhecemos um autor através de suas obras. Necessitamos de sinais adequados para estabelecer com segurança a origem de um determinado artefato. Vimos que a bíblia ostenta somente sinais de uma origem mundana (natural). Ela é desprovida de qualquer informação que não possa ser atribuída a seres humanos da época. As obras de filósofos antigos (homens guiados somente pela razão natural) contêm ideias científicas bem mais impressionantes e inequívocas. Além disso, a bíblia apresenta inúmeras passagens que contradizem o conhecimento científico. Como mostra Ernest Renan, o povo judeu antigo jamais foi um povo filosófico. O conhecimento exibido pela bíblia está em completa conformidade com o caráter intelectual deste povo da Antiguidade. Aproximadamente na mesma época em que Jesus realizava exorcismos e atribuía enfermidades ao pecado, o médico grego Hipócrates lançava as bases da medicina científica (baseada na razão e na experiência), e o materialista Epicuro desencantava a natureza ao propor explicações naturais para fenômenos naturais. Renan explica que Jesus ignorava completamente

a ideia nova, criada pela ciência grega, base de toda filosofia e que a ciência moderna confirmou grandiosamente, a saber, a exclusão dos deuses caprichosos aos quais a crença ingênua das eras antigas atribuía o governo do universo. Quase um século antes dele, Lucrécio havia exprimido de uma maneira admirável a inflexibilidade do regime geral da natureza [as leis naturais]. A negação da existência de milagres, a ideia de que tudo é produzido no mundo por meio de leis onde a intervenção pessoal de seres superiores não tem parte alguma, era de direito comum nas grandes escolas de todos os países que haviam recebido a ciência grega. Talvez até mesmo a Babilônia e a Pérsia não fossem estranhas a esta ideia. Jesus nada conheceu acerca de tal progresso. Ainda que nascido numa época no qual o princípio da ciência positiva já havia sido proclamado [sobretudo pelos atomistas Epicuro e Lucrécio], ele viveu em pleno sobrenatural... Jesus em nada diferia de seus compatriotas. Ele acreditava no diabo, que ele considerava uma espécie de gênio do mal, e ele imaginava, como todo mundo, que as doenças nervosas eram causadas por demônios, que se apoderavam do paciente e o agitavam. O maravilhoso [sobrenatural] não era para ele o excepcional; era o estado normal. A noção do sobrenatural, com suas impossibilidades, surge somente no dia em que nasce a ciência experimental da natureza. O homem estranho a toda ideia da ciência física, que acredita que, por meio de preces, ele altera o percurso das nuvens, faz cessar a enfermidade e até mesmo a morte, não encontra no milagre nada de extraordinário, já que o curso inteiro das coisas é para ele o resultado das vontades livres da divindade. Tal estado intelectual foi sempre o de Jesus (1863, pp. 40-41).

O descompasso entre a mentalidade judaica dos tempos bíblicos e as noções científicas da mesma época é flagrante. Jesus e os profetas do Antigo Testamento conceberam uma divindade proporcional às dimensões de seus intelectos. Mas a mente de um Deus sobrenatural não poderia ser equiparada à mente pré-científica do povo judeu da Antiguidade. O livro sagrado de judeus e cristãos, portanto, não pode ser considerado a palavra de uma divindade sobrenatural. Assim como as profecias de Nostradamus e os horóscopos não merecem nosso crédito, as profecias e as supostas predições científicas da bíblia não poderiam validar a hipótese de uma origem sobrenatural.


Bibliografia

LAHAYE, T. Jesus. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2009.

LUCRÉCIO. Da natureza. São Paulo: Abril, 1973.

RENAN, E. Vie de Jésus. Paris: Michel Lévy Frères, 1863.

Bíblia sagrada. Edição contemporânea de Almeida. São Paulo: Editora Vida, 1994.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Erick Fishuk – O que há por trás do engrandecimento do ser humano?

Escrevi e, se não me engano, publiquei este texto a 4 de setembro de 2009 no meu antigo blogue “Pensadores Libertos”, que mantive entre 2009 e 2010 com um conhecido meu do curso de História da UNICAMP. Republico-o, bastante adaptado, a pedido do Giuliano, que havia se lembrado vagamente dele, mas não sabia que era exatamente este texto. Ele pertence a uma fase em que eu ainda não tinha conseguido canalizar bem a revolta contra o cristianismo que estava se transformando em ateísmo, e por isso se atém, em minha opinião, a vários pontos que, numa crítica da religião, hoje julgaria superficiais. Mas o destino e os leitores impiedosos saberão qual pode ser seu devido valor, atualidade e lugar que deve ocupar nos escaninhos intelectuais.

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“Os críticos insistem em descrever como ‘profundamente religioso’ qualquer um que admita uma sensação de insignificância ou impotência do homem diante do universo, embora o que constitua a essência da atitude religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a reação que busca um remédio para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário, irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra.” (Sigmund Freud, “O futuro de uma ilusão” [originalmente publicado em 1927] em Freud, São Paulo, Abril Cultural, 1978, coleção “Os pensadores”, p. 109.)

Hoje essa frase do pioneiro da psicanálise, máxima de que gosto muito, me fez pensar em algumas questões relativas ao papel do ser humano no Universo ou, sendo mais modesto, no planeta Terra. Na verdade, queria expressar minha opinião, baseado no excerto, sobre algumas correntes que aparentemente veem e interpretam nossa existência de modo distorcido e, muitas vezes, fraudulento.

A princípio, a conclusão de Freud bate de frente com a interpretação que Albert Einstein fazia sobre si mesmo no quesito “espiritualidade” e que pode ser lida no início de seu livro Como vejo o mundo. O cientista se pensava um ser humano “profundamente religioso” ao assumir uma extrema pequenez diante do cosmos e admitir que não poderíamos desvendar o caráter do fascínio que sentimos ao admirar uma flor, a Lua, as estrelas, os animais e outras maravilhas da natureza. Em resumo, para ele, esse encantamento seria a “religiosidade”.

Não é esta a ocasião para avaliar a validade do que o cientista chama, na mesma obra, de “religião cósmica”, mas aproveito o gancho para me posicionar firmemente na questão: não acredito que a religião torne o ser humano ínfimo perante a natureza, e até respaldo convictamente a ideia freudiana de que a atitude irreligiosa, ligada à ciência como deve ser, coloca as coisas no seu devido lugar. Ou seja, o ser humano se torna um grão de areia da Terra, que é outro grão de areia do Sistema Solar, por sua vez um ínfimo ponto dentro da gigantesca Via Láctea, a qual consiste em apenas mais uma entre incontáveis galáxias pairando pelo Universo.

Deve-se ter em conta como verdade irrefutável que o ser humano é, biologicamente, um animal como todos os outros. Somos feitos de matéria orgânica, nascemos, comemos, excretamos, nos reproduzimos e morremos. Até mesmo recebemos, como qualquer outro ser, o sonoro epíteto de Homo sapiens sapiens, indicando, inclusive, que não fomos o começo, mas apenas a culminância de uma longa caminhada evolutiva em que tivemos até mesmo primos como o Homo sapiens neanderthalensis, por exemplo. Mas se não nos diferenciamos materialmente dos outros seres, o que nos faz tão especiais?

Penso que basicamente três coisas nos separaram de primatas e outros mamíferos: o polegar perpendicular aos outros dedos, a proporção maior entre as massas do cérebro e do corpo inteiro e o fato de andarmos sobre as duas “patas traseiras”. É preciso lembrar que somente a interação desses três fatores nos teria possibilitado chegar aonde chegamos. Pois vários macacos também possuem o polegar invertido, mas têm um cérebro menor do que o nosso e andam sobre as quatro patas, na maior parte do tempo. O movimento de pinça que esse dedo nos proporciona foi o que desencadeou inúmeras revoluções tecnológicas desde que descobrimos o fogo, inventamos a roda e construímos instrumentos de caça, até a elaboração de complexos computadores e veículos que podem levar pessoas a quilômetros de distância do solo terrestre.

Quanto ao cérebro, pode-se recordar que há muitos animais imensamente maiores que nós, e que portanto possuem mais massa encefálica. Contudo, segundo texto online da revista Superinteressante, embora animais como golfinhos tenham uma vida social mais complexa do que a de vários outros seres, a porcentagem do cérebro humano na massa corporal é de 2,1%, enquanto a de muitos gigantes da terra e do mar não passa de 1%. Não tenho certeza, e gostaria que me corrigissem se erro, mas esses dados devem ter importância em meu argumento. O que fecha minha hipótese, enfim, é a liberação das “patas dianteiras” (chamadas depois de “mãos”) para a manipulação da natureza e a construção de artefatos complexos que facilitaram nossa sobrevivência em meios hostis e nos possibilitaram até transformá-los significativamente.

Paro por aqui a incursão na Biologia por ser leigo na matéria, e começo a fazer uma ponte entre o que disse acima e até onde quero chegar. Conforme o que foi dito até agora, conclui-se que são poucas as coisas que nos diferenciam geneticamente de outros membros do mundo animal, embora façam muita diferença na hora de lidar com o ambiente externo. Mesmo assim, são provas de nossa pequenez a sujeição a inúmeros males patológicos, a extrema sensibilidade às variações do clima ou a fenômenos terrestres endógenos, a grande resposta da natureza que recebemos ao alterar muito drasticamente suas características e a necessidade maior ou menor que temos de suprir nossas necessidades fisiológicas com produtos naturais (seres vivos em geral) de características pouco alteradas.

Quais são os grupos que nos desnaturalizam e procuram nos tornar seres aparentemente extraterrestres? O primeiro dele é o dos veganos, cujo principal atributo é o de não comer nenhum alimento de origem animal, nem mesmo aqueles que não derivam da morte dos bichinhos, como o ovo, o leite e derivados. O argumento central é o de que os animais também possuem direito à vida, consciência e sentimentos, como todos nós, e por isso não devem viver ou ser criados exclusivamente com fins predatórios ou comerciais. Outro motivo levantado é o da depredação ambiental gerada, por exemplo, pela criação do gado bovino (desmatamento, queimadas, excesso de flatulência emitida na atmosfera e outros males, tudo isso relacionado principalmente ao aquecimento global), o que dá ainda ao veganismo um forte traço militante político e ambiental.

Ressalto que não trato das pessoas que não comem certos tipos de alimentos por causa de restrições orgânicas, como a rejeição à proteína do leite. Obviamente elas precisam encontrar outras fontes que supram tudo aquilo que o consumo dos alimentos intoleráveis lhes proporcionaria. O assunto aqui são aqueles que deixam de consumir alimentos animais seguindo a cartilha que resumi acima. Posso estar errado, mas é totalmente antinatural que deixemos de comer essas coisas com base em considerações éticas que só têm sentido em se tratando da convivência humana; e aí, obviamente, está uma das diferenças entre os animais e nós.

Queiramos ou não, a “imperfeita” e “maldosa” evolução, não se sabe por que motivo, determinou que, para sobrevivermos, nos consumíssemos uns aos outros. E eis uma das coisas que o criacionismo não explica: animais grandes devorando “mães” e “filhos” de outras espécies, destruindo vidas e a convivência social harmoniosa de outras espécies. Com o ser humano não poderia ser diferente: desde a Pré-História, consumimos, por meio da caça, a carne de seres terrestres, anfíbios, aéreos ou aquáticos, e a evolução desfavoreceu justamente aqueles que possuíam intolerância a tal alimento.

Ah, sim, mas o problema é a criação em massa, e não a caça – o que, para efeitos de não se comer nada de origem animal, não faz muita diferença–? Porém, o que ocorreria se a enorme população humana, rapidamente aumentada com o surgimento das cidades, vivesse exclusivamente da caça? E como se supriria a radical separação que se deu entre a selva e o ambiente civilizado? A agricultura e a pecuária responderam a essas carências cada vez mais gritantes do mundo humano tornado complexo, denso e coletivista.

A soja, por ser muito rica em proteínas e aminoácidos, costuma suprir todas essas necessidades no lugar da carne, do leite e do ovo. Para começar, não sei por que os vegetais não entram no rol de “seres que têm consciência e, portanto, necessidade de respeito e direitos”: parece-me que uma flor arrancada ou uma árvore desmatada sofrem, na proporção do ser, quase tanto quanto um ser humano amputado acidental ou propositadamente sem os cuidados necessários. Quem cuida de plantas sabe que distribuir sopapos em árvores ou arbustos não é uma atitude inteligente não só por causa da própria estupidez do ato em si, mas devido ao mal-estar produzido neles.

Mas o problema não para por aí. Segundo verbete da Wikipédia, a soja, justamente em face de seu altíssimo valor nutricional, deve ser consumida com moderação, a não ser que se concorde em ingerir diariamente um alto volume de calorias. Não é à toa que regimes vegetarianos ou veganos não são regimes de emagrecimento, e que sua adoção não leva à obtenção do corpinho dos sonhos de qualquer modelo, fisiculturista ou metrossexual. E os danos de seu plantio para o meio-ambiente? Soja exige espaço, que é o que mais sobra no Brasil. Quis o destino que ele fosse, todavia, geralmente ocupado por florestas com ou sem tribos indígenas, o que leva grandes agricultores como Blairo Maggi e outros a ganhar a “Motosserra de Ouro”, muitas vezes, para espanto de todos, às expensas desses supostos defensores do meio-ambiente.

O segundo grupo é o dos religiosos, em especial os cristãos dos mais variados matizes. Espanta-me, aliás, a expansão da ideia de um “cristianismo” supostamente puro, comum e único, quando ainda hoje se perde tempo com disputas do tipo “Sabedoria, Eclesiástico e outros cinco livros da Bíblia católica são ou não inspirados por Deus?”, “Para onde vão as almas dos bebês não batizados após a morte?” ou “Devo consertar ou não meu chuveiro quebrado no sábado?”. O primeiro capítulo do livro do Gênesis, versículo 27 (tradução de João Ferreira de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil), é mais do que claro: “E criou Deus o homem à sua imagem [...]”. O versículo seguinte vai mais além: “[...] e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”. Há demonstração mais clara da colocação do ser humano no centro do mundo ou do Universo?

No que um criacionista deve acreditar? Pela extrema vagueza com que a Bíblia trata do assunto, e pelas próprias afirmações que seus crentes dão a respeito da criação, pode-se dizer que Deus teria feito o mundo do jeito que ele é hoje, com todos os animais, plantas e – por que não? – bactérias, protozoários e fungos. Isso teria acontecido, é claro, há alguns milhares de anos, apenas! Não teria havido qualquer modificação nas formas de vida que habitam sobre a superfície terrestre desde esse momento. Na melhor das hipóteses, a evolução seria uma balela ateísta. Acho que a nota de rodapé da Bíblia das Edições Paulinas (edição pastoral de 1990, p. 14) diz tudo por si só: “A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio na Babilônia (586-538 a.C.) [...]” (grifo meu). E olha que quem diz isso são exegetas católicos, hein?

Não vejo problemas na narrativa em si, tomada como um texto literário historicamente localizado: na época, independentemente se os autores consideravam ou não sua produção como um relato científico (ou pelo menos plausível, se levarmos em conta que não havia ciência como a entendemos hoje), pouco se conhecia sobre o passado biológico e geológico de nosso planeta. Não havia meios de se deduzir a existência de espécies extintas, como os dinossauros e as preguiças-gigantes, e por isso a imaginação, impulsionada pela indistinção entre leitura empírica do mundo e ritualismo mítico-religioso, encontrava passe livre nas lacunas ainda não preenchidas pela compreensão humana. Com efeito, o mais grave é ver pessoas rejeitando a ciência em bloco (a mesma ciência que lhes proporciona a cura de suas doenças mais graves, isso quando até para tal finalidade ela é marginalizada), em prol do que já foi refutado como lenda e de pseudoprovas que supostamente atestariam a veracidade dessas fábulas. A dessacralização da espécie humana, confirmada pelas pesquisas de Charles Darwin, parece não ter tocado ainda seu discernimento.

A listagem das improbabilidades pode ser estendida até a lenda bíblica do dilúvio. Resumirei ao básico, já que quase todos a conhecem. Deus ordenou a Noé que construísse uma grande arca para abrigar sua família (incluindo esposas dos filhos) e casais de todas as espécies animais vivas, em vista do dilúvio destruidor que Deus enviaria à Terra por causa das maldades humanas. O resto da história já é muito conhecido, por isso dispenso mais comentários. Mas já se pode notar a ausência das plantas (sempre elas...) na história: não seriam também seres dignos de compaixão? E como teriam elas sobrevivido a evento tão devastador? Como se sabe, um simples deslizamento de terra causado por um temporal comum é capaz de arrastar árvores inteiras. O que não teria feito o dilúvio, se ele fosse real?

O atentado à inteligência do leitor (e notavelmente, na maioria das vezes, não se chega a essas descrições lendo, mas ouvindo) se torna mais claro quando se sabe que existem dezenas de milhões de espécies na Terra, desde as invisíveis (sim, a diversidade desses seres também chega à casa dos milhões!), passando pelas insignificantes (formigas, pernilongos e minhocas), incluindo anfíbios e peixes (que precisariam também de água para viver, mesmo dentro da arca: Noé precursor do aquário?), até as enormes (girafas, elefantes e baleias; notavelmente não aparecem aí os pobres dinos). Isso tudo, lembrando, se tomarmos o criacionismo como verdadeiro. Mesmo assim, Deus deu apenas sete dias (repito, sete dias!!!) para o recolhimento de todos esses casais (por vezes, “sete pares”! – tradução da Paulinas), de acordo com Gênesis 7, 4. Dizer que aí houve milagre já é demais, não? Ou será que exige menos esforço dizer que “para Deus, nada é impossível” do que tentar entender cientificamente a origem da vida?

O argumento de que várias culturas têm a mesma lenda diluviana e que, por isso, a catástrofe teria realmente ocorrido, não parece melhor. Primeiramente, na Antiguidade era muito fácil divinizar qualquer grande enchente, ainda mais se levando em conta o tamanho do mundo conhecido e das cidades até então. As grandes civilizações, como se sabe, surgiram à margem de rios caudalosos, e isso pode ter feito com que histórias do tipo tenham se tornado comuns. Em segundo lugar, teríamos de escolher uma dentre várias histórias para considerá-la como “hipótese científica”. Uma delas, como se sabe, seria a de Noé. Ou a verdadeira seria o mito grego de Deucalião e Pirra, em que esse casal, após ficar nove dias (e não quarenta, como na história bíblica) numa barcaça, atirou para trás pedras que se transformavam em novas mulheres e homens? A diversidade de relatos só torna o fato ainda mais implausível.

Acho que não tenho mais nada a dizer, a não ser algumas considerações finais:

– A divinização do ser humano, e mesmo a centralidade que ele tomou com as doutrinas antropocentristas do Renascimento, mas já implícita no relato bíblico da criação, legitimou uma dominação impetuosa sobre a natureza, que legou catástrofes ambientais irreversíveis.

– Tentativas de fugir totalmente de nossa natureza biológica e de aplicar a outros seres conceitos que só cabem se relacionados à sociedade humana terminam em empreendimentos contraditórios e nocivos à saúde das pessoas, além de possuírem um fundo político duvidoso e frágil.

– O desprezo da ciência em prol de mistificações que só visam à perpetuação da influência material e intelectual de certos grupos ideológicos de probidade contestável atenta contra a inteligência das pessoas que têm o mínimo de educação e leitura e atrasa o desenvolvimento da compreensão sobre o mundo natural, com graves consequências sanitárias, culturais e tecnológicas.

– Finalmente, reconhecer que somos pequenos em nossa grandeza nos dá mais humildade para encarar nosso grande Universo e nos torna mais curiosos em desvendar os mecanismos ocultos por trás desse glorioso acontecimento chamado vida.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande – “Dicionário dos ateus antigos e modernos”, por Sylvain Maréchal

De Sylvain Maréchal (1750-1803), filósofo francês herdeiro do materialismo das Luzes. Publicado pela primeira vez em 1800, teve uma nova edição lançada recentemente pela editora francesa Coda. A obra de Maréchal tem o mérito de mostrar o quanto o ateísmo materialista é uma opinião difundida, independentemente de seu reconhecimento consciente e declarado. É esclarecedor observar como os conceitos materialistas estão imiscuídos nas mais diversas opiniões religiosas.

Fiz abaixo uma seleção de alguns verbetes bastante interessantes do dicionário de Maréchal. Quando julguei necessário, acrescentei alguns comentários de minha autoria, entre colchetes.

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ATOMISTAS. Da filosofia ou do sistema dos átomos, como dos flancos do cavalo de Tróia, saíram todos os gêneros conhecidos de ateísmo.

AVERRÓES. Conhecido como o comentador por excelência de Aristóteles, assim como aquele que melhor reconheceu seu gênio, jamais admitiu uma causa primeira e nem pôde compreender esta divindade. Ainda que fundamentada, a opinião de Averróes sobre Aristóteles é, no fundo, ímpia, pois leva a crer que a alma, que é propriamente a forma do homem, morre com o corpo. Averróes negava que a criação fosse possível. Avicena era da mesma opinião.

BERKELEY. Bispo irlandês. Sua hipótese, ou, de forma mais geral, a filosofia dos idealistas, levada tão longe quanto ela possa ir, conduz diretamente ao ateísmo. [Maréchal tem razão; basta observar o curso que o fenomenismo seguiu na história da filosofia, passando por Hume e desembocando no positivismo lógico do séc. XX. “Esse est percipi”: então Deus, que não pode ser percebido, não existe...]

BRASIL. Os habitantes do Brasil não tinham religião: “nullos omnino colunt Deos” (Maffée).

BUDA. Antes de dar seu último suspiro, ele chamou seus mais caros discípulos e lhes assegurou que ele tinha escondido a verdade, até este momento, sob expressões figuradas e metafóricas; mas que ele não reconhecia realmente outros princípios eternos além da natureza, de onde tudo tinha saído, e para onde tudo retornava. Perguntou-se um dia ao legislador dos primeiros hindus: “Por que você não admite a existência de um Deus?” Ele respondeu: “A matéria ocupa todos os lugares. Eu não saberia onde colocá-lo”.

DESCARTES. “Quanto ao estado da alma após a morte, tenho bem menos conhecimento do que Digby... Confesso que, unicamente pela razão natural, podemos fazer muitas conjeturas em nosso favor e possuir agradáveis esperanças; mas nenhuma garantia” (carta a Elisabete). [Maréchal cita uma passagem de uma carta de Descartes à princesa Elisabete, sobre a probabilidade de uma sobrevivência da alma; Maréchal, no entanto, desperdiça o principal e deixa de mencionar as partes da filosofia cartesiana que são materialistas ou conduzem ao materialismo: refiro-me à sua física, particularmente à cosmogonia mecanicista e à fisiologia do animal-máquina. Segundo a cosmogonia cartesiana, todos os componentes do universo (seres animados e inanimados) têm uma origem material, natural; segundo a fisiologia do animal-máquina, todas as funções de um organismo (com exceção das puramente intelectuais) são explicadas pelo movimento da matéria (antivitalismo). Trata-se de uma via aberta por Descartes que conduziu ao materialismo antropológico de La Mettrie.]

HOBBES. Ao falar de Deus, diz: “Tudo o que não é nem corpo, nem acidente de um corpo, não existe. Não há substância distinta da matéria”.

HOMERO. Pode ser visto como um ateu, pois afirmava que a origem dos deuses era o oceano ou a matéria fluida.

JESUS CRISTO. “Este é meu corpo, este é meu sangue”, diz Jesus Cristo ao apresentar a seus apóstolos o pão e o vinho. E nós diremos: isso é materialismo puro. Um “Deus pão”, “pão Deus”. Certamente, Spinoza jamais levou tão longe as virtudes da matéria.

LUTERO. Lemos na “Perroniana”, p. 20: Lutero negava a imortalidade da alma e dizia que ela morria com o corpo. A prosperidade dos maus e a adversidade das pessoas de bem são coisas que desagradam tanto nossa razão, que ela conclui disso que Deus não existe ou que ele é injusto... Tal injustiça é provada por argumentos aos quais nenhuma razão e nem a luz natural podem resistir (“Do servo arbítrio”).

MATERIALISTA. Os teólogos abusaram tanto desta palavra, da qual eles jamais puderam fornecer ideias claras, que, enfim, ela se tornou sinônimo de “espírito esclarecido” (Helvétius). Os materialistas são verdadeiros ateus (Formey). Os ilustrados da China são materialistas por filosofia; as pessoas do povo o são por ignorância.

FILÓSOFOS antigos. Quase todos os antigos filósofos podem ser considerados ateus (J. F. Buddeus). Aqueles que se consagram à filosofia renunciam à crença em Deus (Cícero).

PORTUGAL. O horrível tremor de terra ocorrido em Lisboa, em 1755, povoou Portugal de ateus. Muitos dentre os melhores crentes não puderam conciliar esta catástrofe espantosa com a ideia de uma Providência.

TERTULIANO. Não é espantoso que Tertuliano tenha considerado a alma corporal, pois ele dava um corpo ao próprio Deus. Ainda que Deus, ele diz, seja um espírito, quem negará que ele seja um corpo? Um Deus desprovido de substância não seria nada.

TEÓFAGOS. Os deístas da seita dos católicos não deveriam perseguir os filósofos partidários de Spinoza e do materialismo. Pessoas que, todas as manhãs, comem seu Deus, na mesa de Eucaristia, não são espiritualistas de maneira alguma. Para comer seu Deus, é preciso crer num Deus material. Pobre espécie humana! Quantas loucuras passaram por sua cabeça!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande – O problema da ressurreição

Colocação do problema

Para os apologetas, o problema é de grande importância. Eles raciocinam da seguinte forma: se a ressurreição é um fato histórico, nós estamos diante de um milagre divino, ou seja, de uma evidência da existência de Deus. De modo que o problema da ressurreição está vinculado ao problema mais importante da filosofia: o problema da existência de Deus. Em outras palavras, se os milagres são verdadeiros e um Deus criador existe, o materialismo cosmológico é falso. Trata-se de um dos argumentos tradicionais para a existência de Deus: o argumento dos milagres.

O problema da ressurreição diz respeito à historicidade dos relatos bíblicos. Eles contêm o registro de um fato empírico (literal) ou apenas uma lenda? De acordo com o pensamento de Paulo, se Jesus não ressuscitou realmente, como um homem de carne e osso, “é vã a vossa fé” (1 Coríntios 15:14). O problema da ressurreição está vinculado ao destino dos indivíduos, ou seja, à vida dos seres humanos como entidades empíricas. Se a ressurreição não é um fato histórico, mas apenas uma metáfora, o destino dos cristãos após a morte é o mesmo destino afirmado pelos materialistas: a dissolução do organismo humano consciente.

No entanto, a despeito da intenção apologética, a historicidade da ressurreição, se atestada, não invalidaria o materialismo cosmológico, pois um fato empírico (a ressurreição de um homem) não poderia servir de sustentação a uma hipótese metafísica, assim como o desaparecimento real de todas as consciências, com a exceção da consciência imediata, não seria uma comprovação do solipsismo. O fato da ressurreição nada teria a ver com uma hipótese teológica autêntica (referente a uma realidade transcendente); consequentemente, o materialismo continuaria verdadeiro, e nenhum problema existencial realmente importante seria solucionado. Nossa sede do Absoluto não se extingue com a continuidade da vida segundo os parâmetros empíricos. Uma consciência empírica é uma consciência determinada (limitada). Segundo Holbach, até mesmo os anjos (se eles existissem) viveriam separados de Deus por uma distância infinita (Le bon sens). Os anjos seriam criaturas irremediavelmente insatisfeitas, ou seja, constituídas pelo vazio. Para Fichte (A doutrina da ciência de 1794), assim como para Sartre (O ser e o nada), a existência dos seres finitos é caracterizada pelo esforço permanente em direção a um Absoluto impossível. Spinoza declarou: “Sei que não há termo de comparação entre o finito e o infinito; e que, assim, a diferença entre Deus e a maior e mais excelente coisa criada não é menor do que a diferença entre Deus e a última das coisas criadas” (Lettres sur les spectres et les esprits). Nas palavras de Wittgenstein,

A imortalidade temporal da alma humana, isto é sua sobrevivência eterna mesmo depois da morte, não só não está garantida como também a sua suposição não realiza de todo o que com ela se queria alcançar. É algum enigma resolvido pelo fato de eu sobreviver eternamente? Não é esta vida eterna tão enigmática como a presente? A solução do enigma da vida no tempo e no espaço está fora do tempo e do espaço (Tratado Lógico-Filosófico, proposição 6.4312).

De fato, é possível que os apologetas estejam corretos. Na melhor das hipóteses, estaríamos diante da realidade de uma ocorrência intramundana que apenas dá continuidade à vida empírica do ser humano: a perpetuação da existência condenada, da roda de Sansara. Há apenas duas possibilidades lógicas: a anulação ou a perpetuação da consciência empírica, de modo que o milagre da ressurreição seria incapaz de trazer a salvação. Esta só poderia existir na anulação da consciência empírica (a consciência circunscrita pelo espaço e pelo tempo). No entanto, uma consciência indeterminada não seria consciência de nada. A anulação do eu finito (determinado) é a morte pura em simples.

De acordo com Strauss, milagres são impossibilidades lógicas. A causa absoluta (Deus) jamais poderia perturbar a cadeia de causas secundárias (finitas) por meio de atos arbitrários e particulares de interposição, mas atuaria na produção do próprio conjunto de causas secundárias (Life of Jesus). Dito de outra forma: uma causalidade metafísica é necessariamente externa ao sistema da natureza. Age globalmente, e não em setores delimitados. No entanto, a ocorrência de milagres pode ser rejeitada a priori ou a posteriori. Necessitaríamos apenas determinar as causas dos milagres em questão. Um milagre, como um evento empírico, poderia ser atribuído a uma causa metafísica ou a uma causa empírica. Um evento empírico com uma causa metafísica é uma impossibilidade, um círculo quadrado; por outro lado, um milagre causado por um agente empírico é possível, ainda que improvável. Uma entidade empírica causadora de milagres poderia ser um “deus contingente”, segundo a expressão de Sartre (O ser e o nada), ou qualquer outra parte do mundo espaço-temporal (um indivíduo dotado de poderes extraordinários, por exemplo). De acordo com o Antigo Testamento, os magos do Faraó realizavam prodígios análogos aos de Moisés (Êxodo 7:10-12), e ninguém pensaria em atribuí-los a uma potência externa ao sistema da natureza. De uma forma ou de outra, estamos no terreno do naturalismo puro. Devemos admitir, portanto, a possibilidade de “milagres” (causados por agentes empíricos). O próximo passo é investigá-los segundo um cálculo de probabilidades. Na “Nova vida de Jesus”, Strauss retoma a célebre argumentação probabilística de Hume: se admitimos que o milagre da ressurreição ocorreu, ele necessita ser provado com tal evidência, que a falsidade dessa evidência seria mais difícil de ser concebida do que a realidade que se pretende provar por meio dela. Hume investigou a existência de milagres na seção X (“Of miracles”) da “Investigação sobre o entendimento humano”. Laplace, um dos maiores expoentes da teoria das probabilidades, endossa o raciocínio de Hume: “Quanto mais um fato é extraordinário, mais ele tem necessidade de estar apoiado em provas fortes. Pois aqueles que o atestam, podendo ou enganar, ou estar enganados, estas duas causas são tão mais prováveis, quanto a realidade do fato é menos provável em si mesma”. “A probabilidade da mentira aumenta à medida que o fato se torna mais extraordinário” (Essai philosophique sur les probabilités). C. Sagan converteu a fórmula de Hume-Laplace num enunciado lapidar: “Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”. Há um provérbio romano que diz: “Eu não acreditaria na história mesmo se ela fosse contada por Catão”. Deveríamos pensar que a autoridade de um Catão ultrapassa a incredibilidade do evento relatado? Em certos casos, as palavras de um homem não são suficientes. O peso das evidências deve ser proporcional ao peso das alegações.

Com base nos pressupostos acima, propomos uma breve investigação da validade histórica do relato da ressurreição, a qual consistirá na análise das três fontes bíblicas das quais este relato é derivado: as cristofanias do relato paulino, a visão particular de Paulo e as cristofanias evangélicas.

As cristofanias do relato paulino

Paulo (1 Coríntios 15:5-8) elabora uma lista das aparições do Jesus ressurreto: primeiro a Cefas (Pedro), depois aos doze (o grupo de discípulos íntimos), depois a quinhentos discípulos, depois a Tiago, depois a todos os apóstolos, e por último ao próprio Paulo. A intenção dessa enumeração é fornecer uma prova do caráter histórico da ressurreição.

Paulo é o escritor mais próximo dos eventos relatados (primeira a Coríntios foi escrita por volta do ano 57, ou seja, cerca de 25 anos depois). Mas Paulo não foi uma testemunha ocular dos fenômenos; em 1 Coríntios 15:3, ele afirma que “recebeu” as informações sobre as cristofanias. Segundo Gálatas 1:18-19, sabemos que tais informações foram transmitidas a Paulo por Pedro e Tiago (irmão de Jesus), durante uma estadia em Jerusalém; nas palavras de Paulo, “Depois, passados três anos, subi a Jerusalém para ver a Pedro, e fiquei com ele quinze dias. E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor”. Como explica Laplace, a probabilidade do evento relatado decresce proporcionalmente à distância (determinada pelo número de intermediários) entre ele e a última testemunha da série (Ibid.). Além disso, “a probabilidade de engano cresce à medida que o fato se torna mais extraordinário” (Ibid.). Paulo simplesmente admitiu a veracidade do que lhe foi dito. Depois de experimentar a sua cristofania particular, ele não se sentiu motivado a investigar a realidade das aparições relatadas por Pedro e por Tiago em Jerusalém. Ora, as cristofanias do relato em 1 Coríntios (das quais Paulo não foi uma testemunha ocular) são insuficientes para atestar a realidade de um milagre. E não há, além disso, milhares de testemunhas oculares de eventos extraordinários? Poderíamos citar, por exemplo, as aparições marianas de Fátima (Portugal) e de Međugorje (Bósnia e Herzegóvina), e uma infinidade de relatos de pretensas experiências paranormais em todas as épocas e lugares. A bíblia está repleta de histórias de aparições de anjos e demônios. Após sua morte, o taumaturgo pagão Apolônio de Tiana aparece a seus discípulos etc. Por acaso tais histórias são críveis? Por que os cristãos não encaram com a mesma seriedade as supostas aparições de Apolônio de Tiana ou os milagres atribuídos a Maomé ou ao imperador romano Vespasiano? Como afirma Ehrman,

É um fenômeno extremamente bem documentado o fato de que as pessoas algumas vezes têm visões de seus entes queridos que já morreram... Acontece o tempo todo. É muito bem documentado. Em muitos casos, quem passa pela experiência consegue conversar com a pessoa morta, abraçá-la e senti-la. Há casos documentados de várias pessoas terem passado por algumas experiências visionárias juntas, e não apenas visões de parentes. A Virgem Maria aparece a grupos de pessoas o tempo todo – há milhares de testemunhas. Eu acho que ela realmente apareceu? Não. Ou a avó realmente retornou dos mortos para visitar o quarto da neta? Não. Talvez essas coisas tenham acontecido. Mas é improvável. Na verdade, do ponto de vista do historiador, é praticamente impossível. Mas as pessoas alegam que acontece o tempo todo (Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?).

Na verdade, a própria bíblia fala de muitas outras ressurreições inverossímeis. Mateus menciona vários eventos sobrenaturais que acompanharam a morte de Jesus. De acordo com o evangelista, após um tremor de terra, “Abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressurgiram. E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa [Jerusalém] e apareceram a muitos” (27:52-53). Temos aqui um relato similar ao da ressurreição de Jesus: vários mortos ressuscitam e são vistos por muitas testemunhas. Ora, teríamos o direito intelectual de confiar num relato tão inverossímil? Trata-se realmente de um evento histórico? Ambos os relatos podem ser encontrado na mesma bíblia, no mesmo evangelho. Se o relato da ressurreição dos santos é apenas uma lenda, por que a alegação da ressurreição de Jesus mereceria um tratamento diferente? Paulo oferece algo que não tenha sido oferecido por Mateus? Além disso, teríamos o direito de perguntar: onde estão essas pessoas que, segundo a bíblia, ressuscitaram? Se devemos confiar nos evangelhos de Lucas e de João, o corpo do Jesus ressurreto era um corpo carnal como qualquer outro: capaz de interagir com outros objetos físicos e ingerir alimentos materiais (24:41-43). Então, ascenderam aos céus e agora viveriam em algum outro planeta do Sistema Solar?

Em suma, meros relatos não são suficientes para a comprovação de um fato extraordinário. Alguns fatos mostraram que o valor das testemunhas oculares foi superestimado. O físico Victor Stenger afirma que, nos EUA, várias pessoas condenadas – algumas no corredor da morte – foram inocentadas depois que evidências obtidas a partir do exame de material genético (DNA) provaram que as testemunhas oculares estavam enganadas (God: the failed hypothesis). Ora, no caso de pretensas ocorrências extraordinárias, o peso das alegações de testemunhas oculares decresce proporcionalmente à improbabilidade do evento; e Paulo não foi uma testemunha ocular das aparições que ele enumera. Ademais, estamos diante de relatos feitos por pessoas profundamente interessadas na causa do cristianismo. De acordo com Laplace, a existência de testemunhas interessadas é outro fator que leva à diminuição da probabilidade da ocorrência em questão (op. cit.).

A visão de Paulo

E quanto à visão do próprio Paulo, mencionada em 1 Coríntios e relatada em várias passagens de Atos? Na conclusão da lista de cristofanias de 1 Coríntios 15, Paulo menciona sua própria experiência: “e por último de todos apareceu também a mim, como a um abortivo” (v. 8). A aparição a Paulo é mencionada em continuidade com as anteriores, com a utilização do mesmo termo, o que nos leva a concluir que todas as aparições enumeradas são da mesma natureza. Qual seria, então, a natureza da visão de Paulo? Trata-se da visão descrita em algumas passagens de Atos, que apresentam versões discrepantes da conversão de Paulo. Paulo (Saulo, na época), de acordo com a bíblia, era um perseguidor de cristãos. Dirigia-se para Damasco (Síria) quando “subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. E os homens, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém. E Saulo levantou-se da terra, e, abrindo os olhos, não via a ninguém. E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco” (Atos 9:3-8). Atos 22:5-11 apresenta uma versão que contradiz a primeira: os indivíduos que o acompanhavam, agora, “viram, em verdade, a luz, e se atemorizaram muito, mas não ouviram a voz daquele que falava comigo”. E Atos 26:12-15, diferentemente das outras versões, afirma que os acompanhantes caíram com Paulo no chão (há outras discrepâncias que, por motivo de brevidade, não mencionamos). Tais contradições nos relatos da aparição a Paulo mostram o quanto os escritores do Novo Testamento estão preocupados com a exatidão histórica.

O livro de Atos é atribuído a Lucas, o autor do terceiro evangelho. O narrador de Atos, portanto, não acompanhou a experiência de Paulo no caminho de Damasco. Mais uma vez, não temos uma testemunha ocular das ocorrências extraordinárias.

Alguns fatos depõem contra a credibilidade da experiência de Paulo. O próprio apóstolo nos revela sua propensão aos estados mentais extáticos. Em 2 Coríntios 12:1-7, Paulo afirma que, se ele desejasse glória, poderia narrar uma superabundância de visões e revelações vivenciadas por ele próprio. No mesmo contexto, menciona a viagem de um homem ao “terceiro céu”, ao “paraíso”: “Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar. De alguém assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve. E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar”. Não há dúvida: estamos diante dos relatos de um visionário de marca maior (“se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe”). Ora, sabemos que visões subjetivas são comuns em todas as épocas e lugares. Podemos selecioná-las ao nosso bel-prazer em todas as tradições religiosas antigas e modernas. Perguntamos: acaso a ocorrência de visões é suficiente para a validação de uma alegação extraordinária? Em Gálatas 1:15-16, Paulo utiliza palavras que denotam uma revelação interna: “Mas, quando aprouve a Deus... Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios...”. Alguns elementos indicam que as experiências de Paulo poderiam ser atribuídas a ataques de convulsão ou de epilepsia. Como vimos na passagem de 2 Coríntios 12, Paulo declara: “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar”. Conforme seu próprio depoimento, Paulo tinha visões com freqüência. Em algumas passagens, Paulo alude à fragilidade de sua constituição física: “Porque as suas cartas [de Paulo], dizem, são graves e fortes, mas a presença do corpo é fraca, e a palavra desprezível” (2 Coríntios 10:10); “E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne” (Gálatas 4:13). Paulo ainda afirma que seu dom de falar em línguas excedia o de todos os membros da igreja de Corinto: “Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos” (1 Coríntios 14:18). Paulo refere-se à conhecida manifestação frenética tão comum em igrejas pentecostais dos dias de hoje. Assim, temos todos os elementos que nos permitem avaliar a probabilidade do evento extraordinário relatado pelo apóstolo: a ausência de testemunhas oculares; narrações contraditórias que demonstram uma falta de atenção à exatidão histórica; e uma forte propensão às visões extáticas mais fantásticas, talvez associada a uma constituição física enferma, de acordo com as informações da própria bíblia. Experiências similares às de Paulo ocorrem diariamente em todos os cantos do mundo. Deveríamos simplesmente acreditar nas palavras de todos aqueles que narram viagens à Atlântida, a Sírius, ao “terceiro céu” e ao paraíso?

Não há, em suma, nenhuma prova da realidade objetiva da aparição a Paulo. Devemos encará-la como uma mera visão subjetiva, ocorrida somente dentro de sua mente, conforme as declarações dúbias do mesmo: “se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe”. Por outro lado, a determinação da natureza da visão de Paulo permite a determinação da natureza das aparições listadas em 1 Coríntios 15: algumas pessoas tiveram visões subjetivas análogas à do apóstolo, nada mais. Seria altamente temerário fundamentar a realidade dos relatos da ressurreição em evidências tão frágeis. Resta-nos a análise das aparições relatadas nos evangelhos. Forneceriam os evangelistas evidências extraordinárias?

As cristofanias evangélicas

Ora, a situação das narrativas evangélicas é ainda pior. Nenhum evangelho teve como autor um apóstolo ou uma testemunha ocular da vida de Jesus. Os evangelhos foram escritos entre 35 e 65 anos após a morte de Jesus, ou seja, seus autores viveram décadas após os supostos eventos relatados. Conforme Ehrman, “Nossa primeira referência ao fato de a tumba de Jesus estar vazia é o Evangelho segundo Marcos, escrito quarenta anos depois por alguém que vivia em outro país e que ouvira que ela estava vazia” (Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?). Além disso, os relatos que temos da ressurreição são baseados em tradições orais cultivadas por pessoas interessadas na propagação do evangelho. Conforme Laplace, a presença de testemunhas interessadas enfraquece a probabilidade da suposta ocorrência. Finalmente, as narrativas evangélicas são profundamente contraditórias. Os três fatos contribuem para debilitar a probabilidade do evento relatado.

Nas palavras de Ehrman, “Em nenhum outro ponto as diferenças entre os Evangelhos são mais claras do que nos relatos da ressurreição de Jesus” (Ibid.). Os relatos evangélicos da ressurreição, além de mutuamente discrepantes, contradizem as declarações de Paulo em 1 Coríntios 15. Este não menciona as aparições a mulheres, tão significativas nos evangelhos. Lucas e Paulo afirmam que Pedro (Simão, Cefas) foi o primeiro a presenciar uma aparição do Jesus ressurreto, mas nem Mateus nem João relatam esta aparição, e mencionam apenas aquela ocorrida diante de todos os discípulos. Paulo, por sua vez, não menciona a aparição aos dois discípulos que iam para o campo (uma aldeia chamada Emaús), relatada por Marcos e por Lucas. Isso poderia ser explicado pelo fato de que, comparada às aparições aos apóstolos e aos quinhentos cristãos, a aparição no caminho de Emaús seria (para Paulo) de importância reduzida, mas aquela aos quinhentos é ignorada pelos evangelistas, assim como a aparição ocorrida somente a Tiago, mencionada por Paulo. E uma segunda aparição aos apóstolos, a última da lista de Paulo, não é encontrada nos sinóticos, mas somente em João: na primeira ocasião, sem a presença de Tomé, somente dez apóstolos estavam presentes; Jesus volta a aparecer oito dias depois, desta vez para o grupo completo dos onze.

Os apologetas poderão dizer que nem Paulo nem os evangelistas pretendiam mencionar todas as aparições após a ressurreição. Mas este argumento não se aplica ao quarto evangelho, onde as aparições são enumeradas até a terceira (João 21:14). Temos, então, primeiramente, a aparição diante dos onze (João 20:19), ou seja, a segunda da lista de Paulo; em segundo lugar, aquela diante de todos os apóstolos (João 20:26), ou seja, a quinta da lista de Paulo; as aparições a Pedro e Tiago, a primeira e a quarta em Paulo, não são mencionadas, e tampouco aquela a quinhentas testemunhas. Ora, por que esta última seria omitida, se os onze apóstolos deveriam estar entre os quinhentos? No entanto, aquela aos sete apóstolos junto ao mar da Galiléia (João 21:1-14) não é considerada pouco importante para ser mencionada como a terceira aparição, embora nenhum episódio correspondente seja encontrado em Paulo ou em algum dos outros evangelistas.

Para piorar, lemos no início de Atos (1:3) que Jesus, após a ressurreição, foi visto por nada menos do que quarenta dias. No entanto, o evangelho de Lucas (24:1-53), escrito pelo mesmo autor de Atos, afirma que a última aparição post mortem de Jesus ocorreu no mesmo dia da ressurreição. A última aparição de Jesus, segundo Mateus, ocorre na Galiléia (28:16-20), e, segundo Marcos (16:12-20) e Lucas (24:13-53), nas cercanias de Jerusalém. Os dois relatos, evidentemente, não podem ser verdadeiros. Em Mateus, Jesus aparece às duas Marias na manhã da ressurreição, próximo a Jerusalém; por meio delas, manda os discípulos à Galileia, onde uma aparição diante eles, segundo Mateus, ocorre pela primeira e última vez (28:1-20). De acordo com Lucas, Jesus, no dia da ressurreição, aparece aos dois discípulos (no caminho de Emaús), a Pedro e aos onze, em Jerusalém, e manda-os permanecer nesta cidade, até que “do alto sejais revestidos de poder” (24:49). Isso ocorre somente, segundo Atos, no Pentecostes (1:4), ou seja, sete semanas depois. Se, portanto, Lucas está correto, os discípulos não puderam presenciar as aparições ocorridas na Galileia, relatadas por Mateus e por João; em contrapartida, se Mateus está correto, as três outras aparições aos discípulos nas proximidades de Jerusalém (conforme Lucas) não ocorreram.

E poderíamos listar várias contradições adicionais. Mencionemos somente algumas. De acordo com Lucas, Maria Madalena, Joana, Maria, a mãe de Tiago e algumas outras mulheres vão ao sepulcro, veem dois anjos dentro dele, retornam e relatam aos apóstolos e a outros aquilo que presenciaram (24:1-12); de acordo com Marcos, apenas três mulheres, entre elas Salomé em vez de Joana, visitam o sepulcro, veem somente um anjo (em vez de dois) e depois, com medo, nada dizem a ninguém (16:1-8); de acordo com Mateus, somente as duas Marias vão ao sepulcro, veem um anjo sentado sobre a pedra que ele havia retirado, retornam e encontram o próprio Jesus no caminho (28:1-10); de acordo com João, somente Maria Madalena vai ao sepulcro e encontra o local vazio; depois, numa segunda visita, ela encontra dois anjos no sepulcro, e o próprio Jesus ao seu lado (20:1-18).

Temos elementos suficientes para mostrar que os evangelhos não contêm as evidências adequadas para fazer jus à improbabilidade do fato relatado. Eles apresentam somente relatos contraditórios escritos várias décadas após os supostos eventos. Na verdade, crer nas narrativas evangélicas da ressurreição seria antievangélico: os próprios integrantes do círculo íntimo de Jesus, conforme os evangelhos, estavam numa situação epistemologicamente melhor do que a nossa, e mesmo assim só passaram a crer após a exibição de evidências sólidas: segundo Mateus, alguns discípulos duvidaram da ressurreição (28:17); segundo Marcos, os companheiros de Jesus não acreditaram nas alegações de Maria Madalena (16:9-11); Lucas declara que, para os apóstolos, as palavras das testemunhas do túmulo vazio “pareciam como um delírio” (24:11); e João apresenta a história de Tomé, que acreditou somente depois de ver os sinais do corpo de Jesus e tocá-lo (20:24-29).

Conclusão

De acordo com uma análise feita a sangue-frio, as evidências fornecidas pela bíblia são bastante frágeis. Os relatos evangélicos, escritos entre 35 e 65 anos após a morte de Jesus por pessoas profundamente interessadas na propagação do cristianismo, são eminentemente contraditórios. Eles não fornecem, portanto, evidências proporcionais ao caráter extraordinário da alegação da ressurreição. Vimos também que as evidências adequadas tampouco são fornecidas pelas cristofanias do relato paulino e pela narração da visão particular do apóstolo. De modo que a hipótese da ressurreição é incapaz de refutar o materialismo cosmológico. O fato acarreta graves conseqüências à fé cristã: “Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Coríntios 15:14). Em outras palavras, se Jesus não ressuscitou, nenhum indivíduo deixará de ser aniquilado na ocorrência da morte. Como afirmam Borg e Crossan,

Tão fundamental é a factualidade histórica das narrativas da Páscoa para muitos cristãos que, se elas não aconteceram assim, o fundamento e a verdade do cristianismo desaparecem. Para enfatizar essa afirmação, um versículo de Paulo costuma ser citado [1 Coríntios 15:14]... Concordamos com essa declaração, mesmo que não consideremos que, intrinsecamente, ela aponte para a factualidade histórica de um tumulo vazio” (A última semana).

Em seguida, os autores deixam claro qual é o ponto de vista proposto como alternativa à factualidade histórica: o ponto de vista alegórico ou metafórico: “A idéia óbvia é que as parábolas podem ser verdadeiras – verdadeiras e cheias de verdade – independentemente de serem fatuais” (Ibid.). Trata-se de uma conhecida manobra da teologia liberal, a qual esvazia o discurso teológico de seu conteúdo empírico e concreto. Pois bem: se tudo é alegoria, qual cristão gostaria de ter uma vida post mortem alegórica? Nós, indivíduos de carne e osso, não somos alegorias. Apenas uma sobrevivência real (factual) poderia ser significativa para seres espaciais e temporais. O fato é um só: se um homem não ressuscitou, ele simplesmente morreu; se ele simplesmente morreu, o cristianismo não oferece nenhuma garantia de uma vida eterna real. Em outras palavras, a teologia cristã é desprovida de uma ligação com a vida das pessoas de carne e osso.

(Janeiro de 2012.)

Bibliografia

BORG, M. J. e CROSSAN, J. D. A última semana. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

EHRMAN, B. D. Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi? Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.

FICHTE, J. G. Doctrine de la science. Paris: Vrin, 1980.

HOLBACH, BARÃO DE. Le bon sens. Georg Olms, 1970.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano. São Paulo: Unesp, 2004.

LAPLACE, P. Essai philosophique sur les probabilités. Bruxelas: H. Remy, 1829.

PANNENBERG, W. Jesus – God and man. Filadélfia: Westminster Press, 1977.

SARTRE, J.-P. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1999.

SPINOZA, B. Lettres sur les spectres et les esprits. Mille et une nuits, 2004.

STENGER, V. God: the failed hypothesis. Prometheus Books, 2007.

STRAUSS, R. The life of Jesus. Londres: Chapman Brothers, 1846.

______. A new life of Jesus. Londres: Williams & Norgate, 1865.

WITTGENSTEIN, L. Tratado Lógico-Filosófico. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1987.

(Nota: a fonte das citações bíblicas foi a tradução de João Ferreira de Almeida.)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Erick Fishuk - Um movimento estudantil fora da realidade política e científica

(O texto foi montado a 6 de janeiro de 2012 e parece uma colcha de retalhos porque é a fusão imperfeita de dois textos menores com estilos e assuntos diferentes.)

Pode parecer hipocrisia e intrometimento um não militante opinar sobre o movimento estudantil (ME), mas eu queria compartilhar alguns pensamentos.

Primeiro, uma apresentação sobre minha filosofia pessoal. Sou apartidário e não vejo por que me encaixar ou me enquadrar neste ou naquele partido político, pois simpatizo tanto com propostas liberais quanto com bandeiras da esquerda. (Na verdade, se formos ver, socialismo e liberalismo são fruto de um mesmo paradigma ocidental mais geral, e há países como a Suécia que combinaram bem suas vantagens e alcançaram um alto nível de desenvolvimento.) Não tenho gastado tempo com reflexões sobre o que professo ou qual é a "melhor ideologia": simplesmente tento tirar alguma conclusão da minha prática pessoal e intelectual cotidiana e aperfeiçoá-la para aplicar em outras situações.

Em última instância, como uma pessoa que tem preocupações sociais dentro de si (ainda que não seja um militante em tempo integral), mas que dedica a maior parte do tempo à maturação científica, terminei por julgar que a melhor maneira de contribuir para um mundo melhor seria talvez o máximo desenvolvimento de meu talento na área e a sua disponibilização para o máximo possível de pessoas, independentemente de classe social ou cor partidária, desde que mantidas, como se exige na ciência histórica, a objetividade e alguma imparcialidade.

Muitos estão criticando o fato de o ME, no caso o da UNICAMP, ser "antidemocrático" e "fechado a sugestões". Porém, o que consegui experimentar me mostrou que mesmo os grupos mais "radicais" (ou "mais à esquerda", se quiser) estão sempre abertos a conversar, e com eles fiz muita amizade, mesmo não concordando com suas ideias. Porque, antes de tudo, deve-se ver, atrás do "direitista" e do "esquerdista", um ser humano com necessidades e sentimentos comuns aos nossos.

Talvez o problema não se limite às pessoas, ou talvez nem seja o caso. É fácil apontar na subjetividade dos outros a culpa por problemas coletivos, como fez Khruschov ao "denunciar" os crimes de Stálin em 1956. Isso me parece mais, numa observação primária e passível de verificação, uma crise estrutural do modelo de ME. Um modelo ultrapassado e que não corresponde mais às aspirações reais dos estudantes. Vou tentar explicar rápido.

O modelo atual do ME, ao que me parece, surgiu de momentos acres de lutas sociais e econômicas como os anos 1960, especialmente o ano de 1968, e os anos 1980, principalmente a segunda metade, fim da ditadura militar e agravamento da hiperinflação. Ao longo dos anos 1990, houve motivos para manter esse modelo, porque a direitização política e a privatização do público no Brasil eram evidentes.

Bem, na década passada a esquerda (ou uma das várias esquerdas) chegou finalmente ao poder. Primeira consequência: cooptação dos movimentos sociais, fruto da esperteza de Lula ou de quem pensava com (ou por) ele. Para quem acha isso conversa fiada, o exemplo do MST é ainda mais gritante. Consequência posterior: burocratização. O que era para ser fluido e dinâmico virou uma estrutura ossificada, sem contar a extrema "politização" do movimento (mais adiante volto a esse significado de "politização"). Tem benefício moral e material para quem está inserido na estrutura? Tem, sim, e não é questão de ofensa, é de assumir que, assim como nos sindicatos, os contestadores podem virar acomodados.

Mas longe da questão propriamente crítica, ou de "apontar o dedo na cara dos outros", há uma constatação grave. Muita coisa da mentalidade da "sociedade civil" mudou com duas coisas que, aceitemos ou não, o governo do PT trouxe junto: certo crescimento econômico e diminuição da pobreza. Isso se reflete nas atitudes: menos mobilização política ("comodismo", para quem quiser) e mais preocupação com questões intelectuais e de valor.

No que isso, acredito, se reflete no ME? Creio, muito pessoalmente, que ele ficou justamente parado nesse modelo programático e contestatório dos anos 1960-80, cujo contexto é bem diferente do de hoje. Antes, se tinha do que reclamar. Hoje, a maioria dos jovens, reconheçamos, não têm. Por isso, certamente, apenas 20% dos estudantes se preocupou em ir votar nas eleições para a gestão do DCE-UNICAMP de 2011-2012. Isso não seria ruim? Não causaria despolitização do corpo discente? Depende do ponto de vista. Primeiro, deve-se lembrar que o ME sempre carregou, e ainda carrega, as bandeiras mais progressistas em todas as áreas. É ótimo isso, e deve continuar assim. Mas a "estudantocracia" infelizmente, e vejo isso pelas cartas-programa que circulam aí sempre, ficou muito presa a propostas com os quais muitos não se identificam, porque os estudantes de hoje vivem na abastança (considero também os estudantes de baixa renda, mas quem geralmente entra em universidades públicas?), e não naquela necessidade extrema de manifestação social.

Daí isso se refletir também no que a maioria quer: contestar o capitalismo? depor o reitor? fazer barricadas ou piquetes? ocupar a DAC e a reitoria? Nada disso: "Eu quero" garantir meu estágio, meu emprego, meu diploma, minha pós, em resumo, "eu quero ordem e progresso". Ordem acadêmica, sobretudo da DAC para regularizar "meus" documentos, e progresso financeiro. (Não que eu necessariamente compartilhe dessa mentalidade, é apenas uma constatação.) E por que não, também (e agora coloco minha opinião sincera), progresso intelectual? Isso implica também botar mais técnica em detrimento da política (digo a política no sentido de "conchavos" - eis o sentido de "politização" a que me referia -, e não de conscientização social), e se muitos estudantes de hoje "só querem estudar", isso não se reflete nas propostas das chapas: falta a vontade de colaborar no progresso científico, no avanço do conhecimento, que também é uma forma de fazer política. O cientista é por natureza um político. Infelizmente, o ME separou as duas coisas, e por isso temos uma discência tão pobre: políticos não científicos e cientistas não politizados.

Sim, me dirão, mas o conhecimento não deve servir à comunidade? a universidade não deve sair para fora dos muros (alusão, aliás, ao nome de uma das chapas que concorreu ao DCE)? Claro, e é para isso que o cientista deve lutar. O que não se pode fazer, como parece estar acontecendo, é marginalizar a necessidade real de inserção acadêmica e progresso intelectual dentro da própria universidade e de nós mesmos. Senão, que diabos de interventores teremos? Políticos sem técnica? E transformar a realidade como, no quê? Não digo para "despolitizar" a ciência, mas tornar a política estudantil mais realista e ligadas às necessidades reais do contexto atual e menos semelhante ao drama fidalguista que vemos em Brasília.

Parece que o campo da produção científica, inclusive a filosofia e as ciências humanas, hoje está se vendo, ao menos no Brasil, num dilema sério. Por um lado, a produção mais séria, avançada e eficiente não se presta ao serviço as pessoas que mais precisam (mais pobres ou necessitadas, se quiser) e atende apenas a interesses de lucro privado; em outras palavras, quem não tem continua sem, e quem já tem muito fica com mais ainda. Por outro lado, a parte mais progressista e socialmente comprometida do meio acadêmico, e mesmo dos movimentos práticos, parece relegar o pensamento e a prática científicos a segundo plano quando se trata de questões políticas e termina por se deixar guiar pelo dogmatismo ideológico e pelo praticismo grosseiro de algumas correntes da esquerda; isso se nota muito entre os estudantes "doutrinados" que pensam ser a militância a principal parte da vida universitária.

Nos dois casos, o pensamento científico continua encastelado nas faculdades com resultado conhecido: ensino básico conteudista (porque esse pensamento continua como privilégio de acadêmicos e não é passado para os jovens), elitismo e privilégio da memorização (e não da reflexão crítica ou da criatividade) na seleção dos futuros universitários e sujeição e manutenção da maioria da população na ignorância, no preconceito e na superstição.

Eu penso que se faz cada vez mais necessário alterar os paradigmas segregadores da cultura ocidental, ao menos da brasileira, e fundir ciência, política e "povo" numa só unidade orgânica. Não se distinguiria o momento em que estivéssemos fazendo ciência ou política: o trabalho técnico-intelectual seria uma forma de transformar a sociedade, e as necessidades sociais (e não os interesses privados das grandes empresas ou corporações capitalistas) condicionariam aquilo que deveria ser produzido pela ciência. Em outras palavras, o cientista seria um político e o político seria um cientista, mas o "povo" é que atuaria simultaneamente como político e cientista; não haveria mais aquela separação entre academia, Estado e "sociedade civil"/população.

Isso só se daria por meio da universalização do ensino, sua total administração pela sociedade e sua reforma completa, desde a creche até a pós-graduação, com uma integração completa entre todas as partes, tendo como fins não a "aprovação no vestibular", mas o equilíbrio psicológico do estudante, sua inserção na sociedade, o conhecimento dos mecanismos dessa sociedade e o desenvolvimento do pensamento criativo e científico não apenas para reproduzir conhecimentos prontos, mas para produzir novos por meio de uma análise correta da realidade.

Poderia haver tanto dinheiro estatal quanto particular na empreitada (sem aquela distinção dogmática entre "público" e "privado" que a esquerda muitas vezes faz), mas com respeito aos interesses da comunidade, e não dos financiadores. É um projeto utópico, talvez, mas que deve permanecer como meta máxima e ideal da marcha para a transformação estrutural da sociedade brasileira.

Muitos vão contestar o que eu disse, mas me coloco de uma vez para não parecer omisso. Apenas espero que toda a comunidade acadêmica possa crescer junto e enxergar também, como eu disse, cientistas (e por que não também funcionários, que tanto nos ajudam?) com suas falhas humanas, por trás desta ou daquela opinião política, desta ou daquela roupagem burocrática.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Giuliano Thomazini Casagrande - Todos somos ateus


A perseguição a heréticos e heterodoxos sempre esteve presente na história humana. No caso dos ateus (que não são heréticos - todo herético é um religioso), a perseguição também foi uma realidade. Qual ateu pôde declarar-se abertamente antes do século XIX? O Sistema da natureza, maior obra materialista do século XVIII, foi publicado sob pseudônimo...

O caso mais triste de perseguição a um ateu foi a morte do napolitano Lucilio Vanini, autodenominado Julius Caesar (1585-1619). Vanini desprezou Platão e se proclamou filho de Aristóteles. Trata-se do Aristóteles paduano, de Pomponazzi, incompatível com a providência divina e com a imortalidade da alma. Em seu Amphitheatrum aeternae providentiae (1615), mostrou-se partidário da religião católica, inimigo dos ateus, apologista de Moisés, defensor da existência de deus, da providência e da liberdade. Combateu as doutrinas averroístas sobre a eternidade do mundo, o intelecto, a providência e o monopsiquismo (doutrina que negava a imortalidade da alma individual). Um ano mais tarde, em sua obra De admirandis naturae reginae deaeque mortalium arcanis (1616), zombou de tudo o que aparentemente defendia. Confessou sua descrença em todas as religiões, exceto na natureza, que é deus (princípio do movimento); todas as outras religiões são invenções de soberanos para manter seus servos em obediência, e de sacerdotes para obter lucro; não crê na espiritualidade da alma e nem na imortalidade e declara que só crê nessas coisas porque a religião cristã o obriga (separação entre fé e razão).

Vanini foi queimado em Toulouse em 1619, sob a acusação de ateísmo.

Hoje conquistamos a liberdade de expressão, mas o ateísmo continua a ser uma posição filosófica de má reputação.

É tarefa da filosofia promover o esclarecimento. Que inversão terrível de perspectiva a filosofia nos proporciona quando lançamos as luzes da razão sobre a questão do ateísmo! Afinal, quem são os verdadeiros ateus?

Ateus são todos os teólogos físicos: os adeptos da prova físico-teológica. Fénélon afirmava que o espetáculo da natureza revelava a mão invisível de um artífice inteligente, o autor da ordem teleológica do universo. Isso é ateísmo nu e cru: a redução de deus (o ser infinito) a um elo da cadeia de causas e efeitos. O deus dos defensores do argumento do desígnio é uma entidade mundana, empírica, finita, imanente. O transcendente e o imanente são misturados de maneira indiscriminada. Apenas um ser imediato (interno ao sistema do mundo) poderia ser a causa imediata de efeitos imediatos. Um deus que se mistura aos assuntos mundanos (que é causa imediata de efeitos físicos) não é um deus transcendente, é um “vertebrado em estado gasoso” (Haeckel), ou seja, um objeto de idolatria.

Ateus são todos os cristãos: trata-se da crença em Cristo como homem-deus. Como uma parte do mundo empírico – Jesus, um homem – poderia ser um Deus? Isso é idolatria. As esferas da física e da metafísica são confundidas; como no caso da teologia física, deus é rebaixado a um objeto mundano. A lógica mais elementar é capaz de revelar o paralogismo ateísta que habita o coração da cristologia: Cristo não é Deus, é homem, pois A=A; Deus é Deus, e não homem, pois A=A. Como afirmou Paine, “o sistema da fé cristã me parece uma espécie de ateísmo; um tipo de negação religiosa de Deus. Ele professa a crença em um homem, em vez da crença em um Deus” (The age of reason, cap. XI).

Ateus são todos os que julgam possível falar da existência de Deus: apenas objetos empíricos podem existir: pedras, árvores, estrelas, mesas, seres humanos, fadas, etc. Sua existência pode ser constatada, ou seja, contraposta à não existência. É legítimo perguntar: há unicórnios vivendo em Marte? Mas a mentalidade popular atribui a Deus uma existência análoga à dos unicórnios, seres cuja existência faria diferença no mundo empírico. Ora, apenas objetos empíricos podem ter sua existência atestada. Assim, quem afirma ou nega a existência de Deus reduz a divindade a uma parte do mundo material.

Ateus são todos os teólogos metafísicos: uma realidade metafísica não poderia, em princípio, ser verificada; logo, sua existência não poderia ser contraposta à não existência. Uma entidade metafísica é um puro nada sujeito à eliminação pela navalha de Ockam. Imaginemos dois mundos: o primeiro, em que um Deus metafísico existe; o segundo, em que um Deus metafísico não existe. Eles são absolutamente idênticos. Se houvesse uma diferença, Deus seria um objeto empírico, ou seja, não seria uma realidade metafísica. Se os dois mundos são idênticos, Deus não é nada.

Conclusão: todos somos ateus.

Apresentação e introdução do blogue "Materialismo - Filosofia"

Olá a todas e todos que visitam este blogue pela primeira vez! Sejam bem-vindos ao "Materialismo - Filosofia", uma extensão da iniciativa da comunidade no Orkut de mesmo nome que também foi aplicada ao Facebook (grupo) e agora chega ao Blogger para dar maior facilidade ao máximo possível de internautas.

A comunidade "Materialismo - Filosofia" foi fundada no Orkut a 8 de junho de 2006 pelo filósofo e professor Giuliano Thomazini Casagrande para discutir as diversas correntes materialistas da história da filosofia e questões relacionadas a elas. Há vários anos ocorrem lá vários debates sérios e bem embasados entre pessoas bastante seletas e interessadas na troca amigável de ideias e de conhecimento.

Há alguns anos, eu, Erick Fishuk, formado em História pela UNICAMP em 2011, também entrei na comunidade e fiz amizade com o Giuliano. Quando criei minha conta no Facebook, também decidi criar uma "filial" do grupo nesse site, mas por enquanto o transplante de textos tem sido muito moroso e predominam discussões mais gerais sobre filosofia, moralidade, política, sobrenaturalismo e, acima de tudo, religião.

A ânsia em divulgar a maior parte da qualificada produção do Giuliano foi o que havia me incentivado a criar a "filial", mas creio que o dinamismo do grupo atrapalhou um pouco o tempo para o trabalho com os textos. De fato, o próprio Giuliano, tendo entrado no Facebook há pouco tempo, não o julga muito adaptado para a divulgação de textos e para a realização de debates. Assim, permanecendo em mim essa vontade, decidi criar este blogue para tornar o material ainda mais disponível, mesmo para quem não pertence a nenhuma das referidas redes sociais.

Devo confessar que a escolha por fazer um blogue também deriva de minha intenção de publicar escritos pessoais, passados ou presentes, após duas tentativas falhas de manter blogues independentes, de atualizá-los regularmente e de postar os textos em ordem cronológica. Sim, eu também gosto de escrever e o Giuliano aceita com prazer contribuições minhas na comunidade do Orkut, daí nossa cumplicidade suficiente para criar este blogue. Nós dois somos ateus materialistas (embora mantendo concepções de mundo levemente distintas) e gostamos de discorrer sobre temas relacionados.

Por isso, muito do que aparecer aqui concernirá a filosofia, religião, ateísmo e sobrenaturalismo, mas também haverá certa variedade de assuntos, dada nossa formação acadêmica distinta, o que implicará em incursões na história, na política, na linguística, na cultura, na poesia e em outras áreas do saber mais ou menos atraentes a pessoas minimamente cultas. Essa variedade pode até causar algum desvio do projeto original do Giuliano no Orkut, mas certamente tornará o blogue mais útil a um público diversificado, dentro do nosso referencial comum: a visão materialista da realidade, com a rejeição de explicações mágicas e sobrenaturais, o privilégio da racionalidade e da inteligência (a "inteligência viva", como dizia José Saramago) e a estima pelo crescimento intelectual sadio e pacífico de todos os que se envolverem com o trabalho.

É claro que devo alguma reverência à experiência e à bagagem maiores do Giuliano e à sua primazia na criação do modelo "Materialismo - Filosofia", mas nossa mútua colaboração fraternal nos põe em pé de igualdade na propagação do esclarecimento e do livre pensamento numa internet tão conturbada e cheia de porcarias e inutilidades. Espero que o blogue, desta vez, possa prosperar e permanecer online por muitos anos!

Um abraço e uma boa visita a todas e todos!


Bragança Paulista, 15 de janeiro de 2012