quarta-feira, 25 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ Como o ateu pode lidar com as religiões?


Estas observações não são um receituário, mas um levantamento de possibilidades. O ateu ou a ateia é uma pessoa insubmissa por natureza e não aceita enquadramentos, mesmo vindos de quem diz compartilhar sua opinião. O ateísmo não é um conjunto de dogmas prontos, mas uma postura para com as religiões, e a relação de cada um com elas é muito subjetiva e dificilmente quantificável.

As religiões não se confundem necessariamente com a experiência religiosa, ou melhor, com a experiência espiritual. A separação de ambas é um fenômeno recente, pois até a eclosão dos movimentos rebeldes dos anos 1960, ao menos no Ocidente cristão, as instituições religiosas quase monopolizavam a espiritualidade individual e coletiva, condenando desvios e oposições às normas. Esse modelo institucional não é bem aplicável às fés orientais (não incluo aqui o islã), que sempre foram mais abertas ao misticismo pessoal, mas é certo que tal novidade só ganhou espaço por aqui com a atomização das relações humanas, a laicização da sociedade, a consolidação da liberdade de pensamento e a valorização das subjetividades. Hoje, portanto, apesar dos esperados chios clericais, podemos separar tranquilamente a religião como organização humana e a espiritualidade como vivência íntima, às vezes coletiva.

Já o ateísmo ainda não tem uma história tão bonita assim para contar. Corrente originariamente ocidental, surgiu como palavra na Grécia antiga para rotular os que contestavam os deuses oficiais (mas sem necessariamente descrer em outros de sua escolha) e assim permaneceu, apropriada pelo cristianismo, até o século XVIII. Então, manifestaram-se os primeiros pensadores que refutavam de modo sistemático e articulado a crença em qualquer divindade ou realidade sobrenatural, sem reunir, porém, a adesão esperada com a Revolução Francesa e com o progresso científico do século XIX. A partir daí, e até hoje, o ateísmo, jamais claramente definido pelos seus adeptos ou pelos seus detratores, foi declarado pelos três grandes monoteísmos e suas crias como seu maior inimigo, junto com o secularismo, que visa livrar a esfera pública da ditadura das religiões (e não as afastar totalmente dela, como interpretam alguns), e com todos os matizes do socialismo, cujo objetivo é fazer as pessoas comuns dirigirem seus próprios destinos, e não os entregarem a chefões ou manipuladores.

Felizmente, a maioria das religiões soube se adaptar às mudanças das sociedades em que nasceram ou se implantaram. As heterodoxias puderam florescer para atender às necessidades da modernidade ou de grupos em ascensão antes marginalizados ou inexistentes. Todo grande sistema doutrinário de qualquer natureza, se não se presta à abertura para o diálogo e à leitura atualizada da realidade circundante, corre o risco de se tornar um cadáver exposto e de mais atrapalhar do que ajudar seus seguidores e as instituições vizinhas. Contudo, mudar implica extinguir ou reduzir os privilégios de algumas facções, e então surgem os radicalismos, extremismos e fundamentalismos, nem sempre fisicamente violentos, mas já ultrapassados de nascença. Em determinado momento histórico, se ocorre de triunfarem, inevitavelmente terminam derrotados tão cruelmente quanto pernicioso tenha sido seu domínio. Os heterodoxos vencem, enfim, para fazer a sociedade circular.

Os ateus costumam ser muito duros com as grandes religiões, pois respondem à dureza com que elas lhe tratam e deixam aflorar a revolta natural que uma minoria estigmatizada dirige a um poder dominante. Mas nem sempre fica evidente a distinção entre os institucionalismos majoritários e os dois maiores obstáculos naturais à sua integridade e influência já citados acima, ou seja, a fé pessoal e as dissidências progressistas. As manifestações mais frequentes da espiritualidade individual no Brasil costumam ser a crença em Deus ou Jesus Cristo sem filiação religiosa ou a transigência com as regras oficiais, por exemplo, na interpretação de um sonho, numa suposta visão, no recurso a simpatias, na relação particular com as entidades sobrenaturais, entre outras. É difícil medir o quanto alguém ou um grupo se apega a um velho preconceito, mas, na maioria dos casos, especialmente com a população comum, o mais seguro é conscientizar para a convivência pacífica e tolerante na diversidade, sem atacar frontalmente os antigos valores, a não ser que eles estejam causando prejuízos sérios e evidentes a seus aderentes.

Quanto aos dissidentes religiosos, sejam líderes de instituições novas, mas pequenas, sejam correntes marginais de grandes grupos, o diálogo é quase sempre possível (mais até do que com certos ateus, diga-se de passagem), especialmente se forem progressistas: é natural que busquem contatos variados para adquirir força e visibilidade e se aliem à luta pelo direito à pluralidade e pelo Estado laico, coisas que os ateus geralmente desejam. A troca de ideias e as concessões mútuas são praticamente uma necessidade, desde que haja intercompreensão e renúncia ao proselitismo. Às cisões conservadoras nem vale a pena dar muita atenção, pois costumam ser frutos ainda mais apodrecidos do que a árvore da qual caíram.

Parece irrealista dispensar um mesmo tratamento a todas as grandes denominações religiosas, isso quando é possível tirar alguma conclusão. Como poderes realmente fortes, vale empregar com elas o pragmatismo e a coerência. Pragmatismo para saber que não cairão apenas pelo berro de um ou outro inconformado e que podem muito facilmente jogar a opinião pública e popular contra qualquer um de seus oponentes. E coerência para, apesar das barreiras, não deixar esmorecerem a crítica aos aspectos enganadores, abusivos e corruptos das religiões e a batalha contra a tirania de assuntos privados sobre esferas que originalmente devem atender e representar todos os grupos e indivíduos de uma sociedade.

Há outros elementos que, por serem subjetivos, podem ficar de fora, como o comparecimento a cerimônias religiosas familiares, o porte de algum enfeite religioso, o cumprimento de feriados e a fruição de arte sacra. Mas, em qualquer caso, devem prevalecer o bom-senso, a educação, o conhecimento histórico, a consciência de que nenhuma força invisível vai lhe escravizar por executar este ou aquele ritual e até a lembrança daquele ditado popular: “Em Roma, faça como os romanos”. Todas as formas de expressão cultural merecem espaço, desde que respeitem a integridade e a dignidade física e psicológica de outras pessoas e não exijam regalias que lhes permitam transitar acima da lei.

(Bragança Paulista, 25 de dezembro de 2011.
Levemente modificado a 25 de julho de 2012.)

domingo, 22 de julho de 2012

Erick Fishuk – Um abraço à vida e à realidade


Se alguém ferir seu escravo ou escrava a pauladas, e o ferido lhe morrer nas mãos, aquele será punido. Porém, se sobreviver um dia ou dois, não será punido, pois aquele foi comprado a dinheiro. (Êxodo 21, 20.)

Quais são esses direitos naturais? Viver e sobreviver, é o mínimo, supõe a satisfação das necessidades do corpo e do espírito à medida que, assim apaziguados, permitam a existência de um corpo que seja e dure livre de todo sofrimento, assim como a de uma alma, nas mesmas condições, desde que ela, por si própria, seja conservada dentro da dignidade. (Michel Onfray, A política do rebelde, p. 51.)

É provável que todas as pessoas, desde o operário braçal que mal tem tempo de pensar em si até o playboy ou socialite que vive da herança bilionária deixada pelo pai ou avô empresário, já refletiram sobre o propósito de sua existência. Parece uma atitude óbvia, pois o ser humano se diferencia dos outros animais pela faculdade do raciocínio, da abstração e do planejamento. Porém, às vezes, os acontecimentos passam tão depressa e nos preocupamos tanto com os detalhes mais “importantes”, que costumamos esquecer o que parece menor, mas que na verdade tem uma importância fundamental na compreensão de nossa natureza. Qual é, pois, a finalidade da vida humana, e por que, embora tenhamos os mais belos sonhos, o mundo parece nunca querer se enquadrar nem às utopias dos mais nobres pensadores da humanidade, nem aos humildes desejos dos que apenas dispõem de sua força de trabalho para vender?

À primeira vista, são notáveis as mazelas sociais e econômicas que afligem o mundo atual, como a fome, o desemprego, a violência, a ausência de fraternidade, as crises cíclicas do capitalismo, a desorientação quanto ao que fazer da vida e quais referências seguir (o que parece ser endêmico nos jovens à beira do vestibular) e outras. Todos os anos são redigidas páginas e páginas impressas ou online para descrevê-las ou tentar dar-lhes uma solução definitiva. Embora seja comprovada a falácia de qualquer teodiceia, de qualquer conciliação entre a teórica primazia do Bem e a onipresença do Mal, todos concordam que as aflições que castigam o planeta possuem causas puramente humanas. Demônios à parte, parece ser verdadeiro aquele chavão segundo o qual o homem é o lobo do próprio homem.

A cultura brasileira possui outro clichê, talvez mais autoexplicativo, que afirma a predominância dos interesses particulares, pessoais (me arrisco a dizer ainda, grupais), sobre os gerais, coletivos: é a famosa lei de Gérson e a “teoria do jeitinho”. Paralelamente, contradizendo a malícia do “jeito”, nossas tradições são bastante moralistas, autoritárias e acríticas, qualidades típicas da herança ibérica e jesuítica trazida pelos portugueses há mais de 500 anos. Essa sisudez pode ter a ver com o particularismo desses grupos fechados, quando uns se digladiam contra os outros e se arrogam o domínio de uma “Verdade” supostamente válida para todos os cidadãos do Brasil, quiçá da Terra. Tal é a materialização de um paradoxo que alguns pensadores expuseram, por vezes, sem querer: ao mesmo tempo em que somos expostos a moralismos, leis e regras ditados por cúpulas que arrogam ser mais “vividas” e mais “sábias”, a busca da satisfação e do prazer pessoal, geralmente sem grandes resultados, tornou-se para muitos a única razão de sua existência.

Mas será que uma vida regrada e controlada, visando à moderação que leve, por sua vez, à abundância constante, é incompatível com a colocação da satisfação e do desfrute (eu diria ainda, bem-estar) em primeiro lugar? Não concordo. Para mim, o segundo fato é condição primordial do primeiro. Se não possuímos uma vida que nos satisfaça plenamente, o descontrole nas horas de “fome e sede”, e mesmo o excesso de autoimposições psicológicas, pode nos levar até mesmo a adoecer. As amarras mentais, seja do vício pelo gozo, seja da tara pelas restrições, nos fazem viver para o futuro, pensar apenas no que virá, e não concluir que a razão de nossa existência está no presente. “Só terei satisfação no amanhã, quando cumprir uma série de regras que me anestesiem (para os libidinosos) ou me aumentem (para os ascéticos) o sofrimento”, dizem essas pessoas. Elas esquecem que o esforço para o sucesso é necessário, mas nem demais nem de menos. A vida é agora, e não amanhã.

O filósofo francês Michel Onfray, na primeira parte de seu magnífico livro A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão (minha edição é da Rocco, 2001), expõe magistralmente uma apologia do individualismo e do amor pela vida para que nos mantenhamos equilibrados, satisfeitos e, creio eu (embora ele não diga), aptos para fazermos as melhores coisas pelos outros. Os regimes totalitários, e mesmo o mundo capitalista de hoje, pregaram uma “igualdade” entre as pessoas que termina por formatá-las, privá-las de sua individualidade, de suas particularidades; igualdade, lembre-se, que só existe dentro da Pátria, da Família, da Religião, do Partido e outros grupelhos. Ao mesmo tempo, contudo, alguns são mais “iguais” do que os outros, surgindo as diferenciações hierárquicas.

A filosofia de Onfray postula que todos os seres humanos fazem parte de uma só espécie (e, para mim, a palavra “espécie” ressalta nossa condição primordial de animais, de parte da natureza, sem qualquer traço divino que nos dê qualquer superioridade sobre os outros seres), mas que devemos manter a unidade indivisível que compõe essa “grande família”, que é a individualidade, base de todo o direito que se pretenda justo. Os únicos princípios aplicáveis a todos os lugares e épocas, assim, longe de toda ideologia, são os da manutenção da vida e do direito à sobrevivência, desrespeitados pelas inúmeras ditaduras do século XX. Assim, longe da pregação de um individualismo egoísta, Onfray valoriza a satisfação pessoal e o desfrute da existência (a qual, para ele, já é o mais puro prazer), longe do ideal ascético e de “renúncia do eu” pregado pela direita e outros setores mais conservadores. Ou seja, Onfray é um hedonista, sem que esse termo tenha qualquer sentido negativo.

Retornemos, então, às questões postas no início do texto: por que existe o sofrimento no mundo? O que fazer diante dele? Como todo materialista, acredito que suas causas são puramente materiais, em outras palavras, relacionam-se basicamente à péssima distribuição material nas sociedades capitalistas e à exploração desenfreada do trabalho alheio, não diferindo em nada da “boa e velha” escravidão. Na atualidade, a ânsia pelo lucro faz com que o proletariado possua apenas o mínimo para viver, sem espaço para o estudo, a reflexão e o lazer. Outros, porém, caem na miséria por terem sido expulsos de seus empregos, sob o pretexto, dizem as empresas, de “otimizar a produção”. Junte falta de educação e lazer aos mais pobres com pessoas sem as mínimas condições de vida: o que temos? Explosões de violência e indigência, das quais os exploradores acabam sendo vítimas, com os assaltos às suas mansões ou carros de luxo. Aí, sim, é que se começa a falar em "problemas sociais"!

Novamente entra em cena a ênfase na individualidade: é esse bem precioso que perdem os explorados políticos e econômicos, que se tornam meros números, seja na prisão, na fábrica ou mesmo no cemitério. Aliás, quase todos nós já somos um número, o RG, para o Estado! Todas as elites da sociedade se interessam por ocultar o conhecimento ao povo, pois seu esclarecimento lhe revelaria a verdadeira raiz de seus problemas e poderia causar uma insatisfação generalizada jamais vista antes. E os intelectuais, embora não devam ser uma espécie de “vanguarda messiânica”, deveriam tornar esse conhecimento mais acessível e basear toda a sua produção nas necessidades das classes subalternas, deveriam ajudar na elaboração de soluções aos problemas científicos e sociais do mundo. Mas não! A televisão, as revistas, os jornais sensacionalistas, as religiões, o cinema e certos sites estão aí para eternizar a “política do pão e circo”: benefícios rápidos a custo baixo, vendidos como verdades imutáveis. Enquanto isso, a intelectualidade é paga pelas classes dominantes para fazer apologia delas e legitimar suas ideias diante do público leitor, que “compra” todos os “analgésicos” oferecidos para a escamoteação de suas chagas.

Por isso, mantermos e afirmarmos uma individualidade própria e dedicarmo-nos ao conhecimento da história, da natureza e dos sistemas sociais é fundamental para nos tornarmos agentes dessa mesma história, para nos fortalecermos como verdadeiros modificadores, ainda que com pequenas ações, do meio que nos rodeia, seja o bairro, a cidade, o estado ou o país; e, potencialmente, do mundo e do opressivo regime capitalista, a ser reformado ou, se necessário, derrubado. Chegou a hora de abraçarmos a vida e a realidade a fim de sabermos quais são as verdadeiras causas dos males da humanidade e que sua solução não exige mais do que o esclarecimento racional dos indivíduos, a vivência do presente e a consciência da materialidade do mundo, sem idealismos, “analgésicos” ou tapa-olhos.

(Bragança Paulista, 6 de julho de 2009,
publicado no meu antigo blogue "Pensadores Libertos".
Levemente modificado a 22 de julho de 2012.)


P.S.: O título deste texto foi inspirado num velho conjunto de reflexões de um antigo colega da faculdade de História, e que pode ser lido aqui.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ Ser ateu é bom? (3 – Ter ou não ter fé?)


Uma acusação quase sempre imputada ao ateu é a de que ele “não tem fé em nada”, ou seja, leva uma vida seca, sem regras, obscura e triste, portanto, sem moralidade, sem freios aos impulsos naturais e sem motivos para respeitar as outras pessoas. Assim, o ateu seria naturalmente alguém vazio e, ocasionalmente, até criminoso. Pode-se contrapor a isso que a fé, entendida como crenças pessoais, não é uma exclusividade das religiões, e que um ateu, por isso, pode levar uma existência radiante e plena de significado.

É claro que dizer que o ateu PODE adotar princípios individuais edificantes não significa que ele DEVA fazê-lo, ou que SEMPRE o faça. Não existem regulamentos que determinem no que o ateu deve ou não acreditar ou seguir, até porque, como eu já disse, o ateísmo por si só é a “crença numa ausência”, por isso não implica valores positivos compulsórios. Desse modo, podem existir ateus muito desorientados, mas o fato principal é que nem todo religioso alcança a felicidade e a satisfação com seus dogmas. Às vezes, eles lhe foram impostos de fora, sem escolha consciente, e se incrustaram em seu psicológico, constituindo, pois, mais um fardo do que um guia de aconselhamento. Esse foi o meu caso, e por isso meu rompimento com a religião foi mais doloroso.

Agora, uma questão crucial. Estudos clínicos dizem que as pessoas ativamente religiosas (trocando em miúdos, as que têm mais fé) vivem mais e são menos propensas a ficar doentes. E é verdade, além do que suas crenças constituem muitas vezes um consolo na fraqueza ou na iminência da morte. Admito isso, mas outras pesquisas também apontam que a moralidade não vem da religião, mas sim, de fatores bastante terrenos, desligados do seguimento a este ou aquele mito específico. Vamos tentar extrair um denominador comum: confiança em si, autonomia intelectual e perspectiva de um futuro cheio de planos ligados à realização pessoal. Pronto: o fator ESPERANÇA!

A esperança, sim, é o denominador comum de todas as formas de confiança nos próprios princípios e na própria capacidade de superar problemas. Ela provém da consciência do quanto somos importantes para nós mesmos, para nosso círculo íntimo ou talvez até para grupos maiores. E como cada ser humano é um universo em si, apenas ele mesmo irá determinar o que desperta sua segurança. Deve-se reconhecer que a religião tem fatores que a deixam na frente, como a mitologia costumeiramente otimista e grandiloquente, o ritualismo hipnotizador e o senso de pertencimento a uma comunidade unida e solidária. Contudo, nada que possa ter papel diferente da leitura ou contato com exemplos de vida enobrecedores, da fruição do que há de melhor na arte visual e musical e de um círculo de amigos ou coidealistas fiel e sincero.

Além disso, a lista de prioridades ético-sociais (sempre ligada, como se afirmou acima, a uma suficiente autoestima e a um conhecimento da importância do sujeito para o meio em que vive) varia muito de acordo com as experiências particulares. Um ponto pacífico é que, por razões evolutivas e históricas, nunca nos sentimos bem ou seguros quando os outros são prejudicados (ao menos que sejamos vítimas de um rancor anormal), já que cada vez mais ampliamos nossa capacidade comunitária existente desde a condição de primatas. E o que condiciona a manutenção desse estado é justamente a liberdade para que todos sejam si mesmos, desde que isso não prive os vizinhos do mesmo direito. E, o mais importante, nós mesmos não nos privarmos de tal desfrute, seja por pressões internas ou externas à nossa mente.

Encontramos, finalmente, a essência da “fé do ateu”, se é que pode ser assim chamada e se é que, por vicissitudes próprias, todos comungam desta mesma qualidade: o fim da escravidão às unanimidades forçadas e a coragem de se colocar como subjetividade autônoma, cujas vivências e contribuição ao mundo têm valor igual ou maior ao de iluminações privadas transformadas em códigos imutáveis, idólatras e alienantes.

(Bragança Paulista, 25 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 16 de julho de 2012.)


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ Ser ateu é bom? (2 – Ciência e subjetividade)


Muitas vezes, o ateísmo é associado a uma sobrevalorização da ciência, e de fato, quando deixam de seguir os regulamentos religiosos, os ateus costumam guiar sua vida e seu raciocínio pelas descobertas científicas e pela autonomia crítica. Porém, é um erro pensar que a ciência é uma nova deusa que resolve todos os problemas, e mesmo o ateu que pensa assim termina por castrar sua inteligência e seus sentimentos.

Na sociedade ocidental, ciência e religião só começaram a separar-se na prática por volta do fim da Idade Média, no início da revolução renascentista. Antes, não se desligavam os ofícios eclesiásticos das atividades intelectuais, e por isso tantas igrejas originaram universidades, e tantos sacerdotes foram homens de letras e de investigações empíricas. A laicização do Ocidente fez com que se reconhecesse oficialmente essa separação epistemológica efetiva entre produção do conhecimento e serviço espiritual.

No contexto cultural ocidental, a negação de Deus está relacionada à superação das categorias duais corpo/mente, carne/espírito, razão/emoção e outras correlatas, intrínsecas ao encontro da filosofia neoplatônica com a patrística cristã. Outras civilizações trataram de abordar os mistérios do pensamento e da realidade em termos bastante diferentes, ou até mesmo mais integrados, e por isso “seus” ateus e secularistas podem raciocinar com leves diferenças. Mas agora, cabe tentar fechar o círculo que frequentemente vincula o ateísmo ao primado da apreensão da realidade bruta.

A partir da laicização citada acima, os benefícios trazidos pelo progresso técnico implicaram num gradual reconhecimento de sua utilidade e predominância sobre as concepções mágicas do mundo. Porém, eles também evoluíram lentamente em doutrinas que julgaram ser a percepção exterior passiva a única forma de encontrar a si mesmo no mundo, negando, portanto, qualquer valor das particularidades de cada sujeito na construção do próprio ser. Essa “ditadura da objetividade” descambou nos totalitarismos e formas de supressão da subjetividade conhecidos no século XX, e fez com que muitos oportunistas clericais caíssem no outro extremo ao conferir à iluminação divina o único mérito pelo conhecimento autêntico, ou ao menos pregassem a existência de uma “dimensão religiosa” inerente a todos (que não seria uma ideia má se não fosse imbricada à própria crença de quem a postula).

Mas seria desagradável voltar à situação de antes. Nem mesmo para os laicos a tentação dualista confere produtividade na apreensão do meio, e certamente um imanentismo saudável, que considere a validade igual das contribuições pessoais e dos compartilhamentos coletivos, acabe de vez com a perpetuação de categorias que escravizam o Ocidente há dois mil anos. Não se trata mais de lutar de modo quixotesco contra seres mitológicos, mas, acima de tudo, de extirpar os autoritarismos de nosso modo de pensar e de agir: tanto o do “corpo do povo” que tiraniza o indivíduo quanto o do sonho privado jogado goela abaixo dos subordinados ou concidadãos.

Assim, chegamos à conclusão de que um passo importante do “fato ateu” é superar, ao mesmo tempo, o fracionamento das experiências humanas em partes desconectadas e a supressão do eu em prol de falsos universais, mais semelhantes à castração a ser combatida do que à emancipação humana pretendida com o fim da religião.

(Bragança Paulista, 24 de setembro de 2011.
Levemente alterado a 13 de julho de 2012.)


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Erick Fishuk – Ser ateu é bom? (1 – Questão de valores)


Será que ser ateu é bom? Será que o ateísmo é melhor do que a religião? Isso depende do que você faz de sua vida depois que abandona a crença em deuses e em sacerdotes, portanto ela pode se tornar melhor ou pior. Mas uma coisa é certa: as vantagens são garantidas se a transformação se dá no sentido da preocupação com o outro, do desenvolvimento do senso crítico e da supressão de medos espirituais.

Primeiro, o que é o ateísmo, afinal? Longe das definições filosóficas estritas, neste texto vale o seguinte consenso, com base no que se observa mais comumente: rejeição da crença em seres ou mundos sobrenaturais e da condução da vida conforme regras ditadas por pessoas que dizem tê-las aprendido por revelação ou iluminação instantânea, portanto regras sagradas. Não é a ausência de crença, mas a crença numa ausência, ou seja, no mais das vezes, “ateísmo forte”. Se fosse só ausência de crença, todos os não teístas (taoístas, budistas, confucionistas, agnósticos, céticos e outros) seriam ateus, o que excluiria a frequente negação de antigas tradições consolidadas.

Ora, mas muita gente não matou em nome do ateísmo? Na verdade, não. Na Revolução Francesa, teístas ou deístas também mataram, acima de tudo, representantes de um poder absolutista opressor e atrasado, inclusive de seu braço espiritual, a Igreja Católica. Já nos países socialistas, a perseguição foi contra os adversários do regime e da filosofia marxista que virou doutrina de Estado. Nesses expurgos, muitos comunistas ateus fiéis também foram subtraídos de suas vidas.

Mas o ateísmo não implica a ausência de valores morais? Não necessariamente. Para começar, muitos dos valores ocidentais modernos vieram de fora do cristianismo: liberdade de expressão e pensamento, democracia política, tolerância à fé e às ideias alheias, estima da inteligência e do raciocínio, livre comércio, Estado laico, sexo sem culpa e por aí vai. Houve e há muitos ateus cretinos, mas houve e há também religiosos iguais. Herança genética e criação familiar e social parecem ter mais peso sobre a formação do caráter, e o que nele há de bom ou de ruim pode ser potencializado pela tranquilidade ou agressividade com que se defende uma crença, religiosa ou não.

Na verdade, a libertação da religião impele a pessoa a buscar valores mais ligados à própria vontade, felicidade e capacidade ou disposição a contribuir para o bem da humanidade. O ateu consciente aproveita para preencher a nova lacuna com uma ética construtiva e altruísta, centrada no respeito ao próximo, na desconfiança cética dos dogmas cegos, no amor ao conhecimento e ao aprimoramento pessoal, na busca de um prazer livre de arrependimentos, mas sem excessos, e na conservação do meio-ambiente e da qualidade de vida.

É claro que cada um vai traçar sua própria hierarquia de prioridades, mas é certo que o ateísmo, conservada sua roupagem progressista e democrática original, é muito bom. Ele nos leva a sermos donos de nossa própria consciência, a assumirmos a responsabilidade por nossos próprios sucessos e fracassos e a nunca nos contentarmos com uma só fonte de informação, mas aceitarmos sempre comparar opiniões diferentes em busca do correto e do verdadeiro.


(Bragança Paulista, 17 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 11 de julho de 2012.)


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Erick Fishuk ‒ O que é viver filosoficamente?


Uma vida guiada pelo espírito filosófico, a alternativa mais saudável, moderna e inteligente para acompanhar a complexidade dos dias de hoje, consiste em três atitudes básicas que se conseguem apenas com muito esforço e que não são compatíveis com soluções messiânicas ou “mágicas”. A primeira é dispor-se ao conhecimento de como funciona o mundo. A segunda é encontrar propósitos pelos quais se possa viver e objetivos que se busque alcançar, ainda que não sejam realizáveis num prazo curto. E a terceira é engajar-se num projeto político de transformação da sociedade, utilizando o máximo possível de competência e instrumental disponíveis. Tais pontos, nessa ordem, levam uns aos outros e não são realizáveis isoladamente.

Os saberes a respeito da natureza e do meio social sempre foram, no que tinham de mais eficaz e essencial, ocultados à maior parte da população por castas fechadas e dificilmente acessíveis, que sabiam do potencial revelador e sublevador desses conteúdos. A lenda bíblica da “árvore do conhecimento do bem e do mal” exemplifica bem essa mentalidade: as pessoas comuns não podem conhecer o que os poderosos conhecem, senão lhes seriam proporcionadas as condições materiais e morais para a exigência de sua libertação e para a autonomia de ação e reflexão. Assim, compreende-se que descobrir os segredos da mecânica da vida natural e humana significa prover a consciência de informações que lhe permitam fazer julgamentos ponderados e empiricamente baseados e tirá-la da ignorância a respeito do que a influencia e cerca. Só se pode alcançar isso com estudos, observações e leituras muito disciplinados, e não por meio da “iluminação” dos conteúdos prontos em nossas cabeças por pessoas ou entes superiores; afinal, o sujeito do processo de conhecimento sempre é um ser humano.

Adquirido um arcabouço intelectual básico, pode-se começar a delinear independentemente metas e motivações que sirvam de guia para a existência. Afinal, a principal condição de humanidade é encontrar um porquê para a vida, já que o cérebro humano não se limita a seguir funções biológicas instintivas, mas transcende-as e, além de produzir seus próprios meios de subsistência, também procura, como animal inatamente inconformado, influir nos acontecimentos que o atingem, abstraindo-os e manipulando essas abstrações. Tal é o funcionamento da cultura e de todas as suas subdivisões, como a língua oral ou escrita, a arte, os rituais sobrenaturais, a vestimenta, a música, os preceitos de convivência e outras manifestações. Por isso se diz que a religião tem como função dar um sentido ao existir; mas, como afirmou Sartre, todas as ideologias são revolucionárias quando nascem e reacionárias quando se consolidam, e a fraternidade espiritual deu lugar ao abuso de poder e ao fim das discussões por meio da imposição dogmática. E aí a filosofia encontra seu papel: dar orientações éticas renováveis e adaptáveis à marcha do progresso e ao surgimento de novos problemas.

Contudo, as aspirações não têm razão de ser se não se cogita colocá-las em prática, ou seja, buscar a modificação das estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais conforme padrões de pensamento mais modernos e confortáveis. Obviamente são as necessidades reais que condicionam as ideias de uma época ou de um lugar, e, por isso mesmo, estas devem voltar ao mundo objetivo e cumprir a função para a qual foram criadas. As ondas de mudança são inexoráveis, e o pensamento conservador, buscando manter as estruturas de dominação e privilégio, inculca à maioria da população o conformismo com a situação presente, para que ela aguarde a verdadeira felicidade de um vindouro “paraíso” ou “época de ouro” após a morte ou num futuro distante. A verdade é que a luta por uma sobrevivência melhor não pode ser adiada, pertence ao aqui e agora, e exige que todos usem maximamente suas capacidades, inteligência, energia e força. Tal disposição só pode ser tornada uma “segunda natureza” por meio de prática e tirocínio incessantes, e é impossível, como se sabe, levar a cabo essa empreitada se não se domina o cabedal técnico e lógico legado pelos antepassados, o que, num ciclo, faz o retorno ao primeiro ato da vivência filosófica.

Os cidadãos comuns, em especial os brasileiros, estão acostumados, por motivos culturais e imposições sócio-políticas, a esperar que as soluções para seus tormentos e as respostas para as indagações que lhes são feitas, além de prontas, apareçam “caídas do céu”, o que mina o desenvolvimento do fôlego para a pesquisa e da criatividade e inteligência para a criação própria. É essa lacuna histórica que uma difusão maior da filosofia precisa suprir na educação e nas relações públicas, a fim de acabar com as superstições infundadas e encorajar cada um a tomar seu destino em suas próprias mãos.

(Bragança Paulista, 29 de janeiro de 2011.
Levemente modificado a 5 de julho de 2012.)