18 fevereiro 2026

Os primeiros ateus (parte 2)

Cumpre agora verificarmos o desempenho hermenêutico dos princípios estabelecidos acima na aplicação a casos concretos. Em conformidade com o conceito de irrupção hesiódica e com o argumento do mal, houve ateísmo na Antiguidade clássica? O punctum saliens do ateísmo é o que procuramos apalpar quando examinamos uma ampla variedade de pensadores; o punctum saliens, a saliência indicativa, o signo diagnóstico. A tarefa, creio, não é fácil. Somente a prática pode trazer à tona as dificuldades reais e permitir que encaremos com desconforto uma declaração como a de Kant:

Quando ouço que uma mente incomum demonstrou que a liberdade da vontade humana, a esperança por uma vida futura e Deus não existem, estou ávido para ler o seu livro, pois espero que o seu talento seja capaz de me fazer progredir em meus conhecimentos. Já de antemão tenho certeza de que não foi bem-sucedido na resolução de nenhuma dessas questões [...]. (1)

Sem avaliar agora a justeza dos NOMA tão queridos de Kant (que sabe de antemão que os argumentos ateus fracassam porque ele instala a ciência e a religião em compartimentos estanques), quando leio a passagem acima não posso evitar de sentir uma comichão de curiosidade. O filósofo manda buscar a literatura ateísta mais recente... Ao passar os olhos pela Crítica da razão pura, o leitor embotado pela ideologia dos NOMA não dá atenção às palavras de Kant. Em mim, contudo, ainda quando sob o sortilégio dos NOMA, sobressaía o desejo de saber que livros eram aqueles que ocupavam o cérebro de Kant após o jantar, no momento em que uma chama tremulante entretinha a sobremesa de um filósofo já farto de lautas reflexões.

Kant escreveu tais coisas na década de 1790. Nomes familiares como Holbach, Naigeon, Diderot e Hume vêm à mente, mas meus devaneios costumavam recair sobre um espectro sem rosto que se esgueirava por entre gabinetes de curiosidades e antigos laboratórios. Um rumor ancestral brotava de alguma fresta infame, roçando bestas empalhadas com olhos de vidro, pairando sobre coleções de amonites e vitrinas de madeira entalhada, resvalando em retortas, balões de destilação e um pesado crânio de megatério. Talvez ali pudesse haver um materialismo que não estivesse sujeito à estreiteza da filogênese lucreciana: uma feliz combinação do transformismo (doutrina que remonta a Hesíodo e a Anaximandro) com a teoria das composições casuais. Um enlevo semelhante levou-me a imaginar as páginas para sempre perdidas de Les journées de Florbelle (1807), romance que Sade considerou sua obra-prima. Tal como uma criança que admira o cartaz de um filme proibido, e que, excitada pela curiosidade, absorve os sinais evidentes e imagina as cenas mais escandalosas, eu apalpava os materiais em busca de uma trouvaille, uma pepita, um grelo intumescido. Tomei conhecimento de que Les journées de Florbelle tinham uma estatura colossal – os fragmentos remanescentes davam notícia de coisas extraordinárias: sacrifícios humanos num templo erguido a Baco, touradas envolvendo mulheres, pessoas arremessadas por foguetes e outras enormidades. (2) Eu também podia julgar, é claro, com base na obra publicada de Sade. Em Os 120 dias de Sodoma, um homem penetra nas feridas de uma mulher com um “condom de pele de cão-do-mar”. (3) Deus e o diabo estão nos detalhes; se, no aerólito fumegante que é A história de Juliette (minha edição da Pléiade estende-se por mais de mil páginas), Sade ensaiou os voos mais arrojados da imaginação libertina e forneceu algumas das exposições mais requintadas do pseudomaterialismo das Luzes, talvez Les journées de Florbelle, sua obra mais bem-acabada e extensa, pudessem abrigar um casamento entre o evolucionismo de Lamarck (ou o de Buffon, não importa) e a teoria lucreciana das combinações aleatórias. Eureca! Ite, missa est. Enterrada em algum ponto obscuro da obra monumental, no meio de toneladas de descrições de orgias, a concepção do híbrido que, em Darwin, fundou o materialismo científico e mudou a história. Nenhuma improbabilidade depõe contra minha fantasia: as Recherches sur l’organisation des corps vivants de Lamarck foram publicadas em 1802. E Sade, como bem notou Jean Paulhan, “leu tantos livros quanto Marx”. (4)

O cão-do-mar, uma pequena janela aos recessos sombrios da imaginação sadiana, um burburinho que emerge de profundidades apinhadas de promessas. Nas fossas abissais de sua obra perdida, que outros peixes e monstros marinhos poderíamos encontrar? Jamais saberemos. Nos mares cartesianos, no entanto, minha sorte foi outra: as redes que lancei nas águas dos Principia não retornaram vazias. Chegavam aos meus ouvidos boatos sobre o ateísmo de Descartes. Imaginei então que a coisa deveria estar ali, no manancial científico dos Principia – não parecia possível que um tomo tão caudaloso, tão repleto de engenhos mecânicos e cosmogônicos, tão enamorado da infinita variedade do mundo material (numa comovente ode ao esplendor da matéria, Descartes aborda todas as faces dos fenômenos naturais, das fosforescências marítimas às manchas solares, da formação dos metais nas minas ao magnetismo), não contivesse uma teoria genuinamente materialista da origem das espécies; e ela estava ali (meio camuflada, é verdade), no artigo 47 da Parte terceira.

Encontrei depois várias outras evidências que reforçaram minha tese. Além do mais, como quem recebe um presente imerecido, deparei com uma evidência que sugere um salutar transbordamento da filogênese lucreciana defendida no artigo 47. Assim como o cão-do-mar que brota na superfície é um adorável indício de profundezas ignoradas, um trecho dos Excerpta anatomica sobre o cabeliau (bacalhau) chamou minha atenção para a amplitude das dissecações realizadas por Descartes. (5) Tive um vislumbre de vastas meditações que não chegaram até nós e indaguei: não teria passado por uma cabeça tão astuciosa a ideia de conectar o transformismo à teoria de Lucrécio? Uma ou duas páginas após o cabeliau assomar à superfície, li uma frase que me deixou desconcertado: “Não é de admirar que quase todos os animais gerem; pois aqueles que não podem gerar não são gerados, e, por conseguinte, não se encontram no mundo”. (6) Ora, tratar-se-ia de uma obviedade enunciada gratuitamente, ou de um aceno ao mecanismo da seleção natural? Alfred Fouillé não pôde deixar de propor o que parece ser a única interpretação cabível: “Antecipando Darwin, Descartes pressente a lei que determina que os organismos malconformados desapareçam, ao passo que os outros organismos subsistam com suas espécies aparentemente imutáveis”. (7)

Meus devaneios ao ler a passagem da Crítica da razão pura não estavam de todo errados. A teoria cartesiana da seleção natural (provavelmente conectada a rudimentos de uma visão transformista) nasce de uma leitura de Lucrécio, mas não deixa de misturar-se ao sangue das dissecações de Kalverstraat (a “Rua do Bezerro” em Amsterdã) e aos despojos orgânicos das oficinas em que Descartes trabalhou depois. Mas não nos iludamos! Uma grande confusão permanece à espreita. Não é verdade que os ateus sempre propuseram argumentos como os que eu acabei de descrever. Uma simples vista d’olhos sobre o panorama das Luzes basta para assinalar a relativa infrequência da filogênese casualista, de modo que Kant certamente desmerece a literatura ateia que se baseia em outros argumentos. Mas que outros argumentos poderiam servir de justificativa para o ateísmo? A lista de possibilidades é grande: uma substância imaterial não poderia interagir com a matéria; uma coisa incorpórea sequer é inteligível; os atributos divinos são incoerentes; um ser perfeito não teria a necessidade de criar coisa alguma; um espírito atemporal não poderia agir no tempo. Frases pungentes, não há dúvida, mas a inteligência vigorosa só pensa em encontrar o punctum saliens do ateísmo: qual é a origem das estonteantes adaptações orgânicas que pululam na biosfera? Enquanto a complexidade de um olho permanece irredutível, um ateu escrupuloso pode mandar para o diabo as belas demonstrações da inexistência de um ser incorpóreo. Minha acrimônia é justificada e desejo que o leitor partilhe de meu sentimento. Peço que se considere o cenário ideal de design inteligente – se, por exemplo, a idade da Terra não fosse consistente com a vastidão de tempo necessária à atividade da seleção natural, ainda assim ficaríamos impressionados com os argumentos citados há pouco? No banquete de Belsazar, uma mão misteriosa escreve na parede as palavras “mene, mene, tequel, ufarsim” (Daniel 5:25). Salta aos olhos a mesquinhez dos que, diante do milagre evidente, insistissem em impugnar o conceito de substância incorpórea ou dizer alguma frase repleta de sagacidade sobre a perfeição ou o caráter atemporal de Deus. Pouco importa nossa capacidade de entendimento: pode haver uma forma sutil de matéria (nossos fantasmagóricos neutrinos são mais sutis do que o pneuma da religião estoica); pode haver uma teleologia intrínseca ao mundo dos corpos; podemos não compreender como ocorre a conexão entre duas substâncias radicalmente distintas (até hoje ninguém esteve apto a dar sentido à relação que se institui entre o cérebro e os estados conscientes – aquilo que David Chalmers chamou de hard problem of consciousness). Além disso, as teorias mais materialistas e sofisticadas da atualidade assumem a existência de um substrato incorpóreo: de acordo com Alexander Vilenkin, o espaço surgiu por tunelamento quântico a partir de uma realidade inespacial. Com relação às leis que regem o tunelamento, Vilenkin pergunta: “Na ausência de espaço, tempo e matéria, em quais tábuas elas poderiam estar escritas?”. (8)

Suponhamos que seja verdade, como querem os teóricos do design inteligente, que os animais do Cambriano surgiram sem raízes pré-cambrianas. Eu perco as razões de duvidar. Ouço então objeções contra a ideia de agência divina que se valem da impossibilidade de uma interação entre duas substâncias ontologicamente heterogêneas. Muito bem, tenho todo o direito de julgar que tais objeções são frívolas e covardes. A coisa está ali, diante de nossos olhos. Não significa que sabemos explicar a relação entre um espírito imaterial e o Universo. Talvez os espíritos sejam feitos de um tipo exótico de matéria (conhecemos, por exemplo, a composição da matéria escura?); talvez a interação seja um fato incompreensível.

Em vez de atirarem contra rebordos e rebarbas, os ateus deveriam ter a hombridade de alvejar o verdadeiro núcleo do sistema religioso. Na ausência de uma explicação materialista para a engenhosidade das adaptações orgânicas, podemos facilmente negligenciar (é até mandatório fazê-lo) as razões que prima facie destroem a possibilidade de uma mente incorpórea; na pior das hipóteses podemos bater na mesa e declarar secamente que a complexidade orgânica é uma propriedade irredutível da matéria – afirmação que, contrariamente ao que muitos pensam, é antagônica ao materialismo. Em A nuvem negra (1957), romance do astrofísico Fred Hoyle, uma gigantesca nuvem inteligente estabelece contato com a humanidade. Quando lhe perguntam qual é a origem de sua espécie, ela responde: “Eu não concordaria que houve um primeiro membro”. Os cientistas então comentam: “Oh, oh, lá vamos nós. Os meninos do big bang acabaram de tomar na cara”. (9)

A atitude do filósofo “ateu” Graham Oppy (as aspas indicam que os argumentos de Oppy não são capazes de justificar o ateísmo científico) é um dos exemplos mais pedagógicos de ofuscação do punctum saliens do ateísmo. Depois de provar a inexistência de seres incorpóreos, Oppy argumenta que, se há um Deus, tal ser é um “habitante do nosso Universo e ocupa uma localização particular dentro dele”. (10) (Não é minha intenção examinar o modo como Oppy critica o conceito de existência incorpórea, mas simplesmente dizer que, por alguma razão, Oppy considera que o único Deus possível seria um habitante do nosso Universo.) Ademais, se a velocidade superluminal é uma impossibilidade, Oppy conclui que não há um Deus caracterizado pela onipotência e pela onisciência: “[...] podemos estar certos de que, se não há sinais que viajam mais rápido do que a luz in vacuo, então não há um ser em nosso Universo que é onipotente e onisciente”. (11) A covardia e a pequenez desse arrazoado são manifestas. (12) Afinal, o argumento proposto deixa incólume o túrgido panteão greco-romano – deuses que não são onipotentes nem incorpóreos, mas que mesmo assim ensejaram uma das críticas filosóficas mais requintadas (até mesmo em Platão os astros do céu são deuses corpóreos). (13) Um cosmo habitado pelas nuvens inteligentes de Hoyle mostraria com igual clareza que a incorporeidade e a onipotência são atributos divinos irrelevantes. Cada deus estaria sujeito à limitação da velocidade da luz e seria responsável por um setor particular do Universo. A nebulosa que deu origem ao Sistema Solar, inclusive, poderia ser nossa divindade local. Os detalhes não são importantes, nossa imaginação pode conceber um sem-número de cenários teológicos robustos que prescindem das noções de incorporeidade e onipotência. (14) No entanto, ainda quando parece infringir os ditames mais duros da lógica, o salto em direção a uma realidade imaterial sempre irradia uma luz sedutora quando não dispomos de meios para explicar a origem das espécies e das condições cósmicas primordiais. É por esse motivo que Richard Dawkins pôde escrever que “[...] só depois de Darwin é possível ser um ateu intelectualmente satisfeito”. (15)

Nos parágrafos acima esforcei-me para reconduzir o leitor ao núcleo do ateísmo científico. A tarefa consiste em dissolver as máquinas orgânicas – a “tecnologia natural” de que fala Marx na seguinte passagem: “Darwin interessou-nos na história da tecnologia natural, na formação dos órgãos das plantas e dos animais como instrumentos de produção necessários à vida das plantas e dos animais”. (16) Olhos para ver, mãos para apanhar, intestinos para absorver nutrientes. Podemos perguntar se a explicação materialista ideal (peço ao leitor que procure imaginar o cenário materialista mais perfeito) é diferente da explicação atualmente fornecida pela ciência. Ainda que não haja um designer consciente e incorpóreo, seria verdade que a origem das espécies é semelhante à obtenção de palavras por meio de uma sopa de letras? Seja como for (haverá espaço mais adiante para o tratamento dessa questão), devemos sempre ter na memória a estrutura do argumento hesiódico. Não posso deixar de mais uma vez exprimir minha admiração pela maneira brilhante com que Dawkins dominou a lógica desse argumento: a questão da origem do Universo é “canja” quando lembramos que “O problema que Darwin resolveu [...] era o maior deles”. (17) Em outras palavras, o argumento hesiódico estabelece um paralelo entre as dissoluções cediças dos nódulos de design aparente (a mais notória certamente é a darwiniana) e as regiões da realidade em que a existência de ordem desafia as explicações materialistas. Tudo se passa como se houvesse a mesma estrutura orgânica em duas regiões distintas da realidade: no substrato primordial que precede a cosmogênese (o reino das leis e das condições de contorno que tornam possível o big bang) e na origem das espécies, de modo que a dissolução do design biológico torna irrelevante a existência de um design similar em outras regiões. “O problema que Darwin resolveu era o maior deles”. (18)


Bibliografia

DAWKINS, R. O relojoeiro cego. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

______. Outgrowing God. Nova York: Random House, 2019.

EDIS, T. The Ghost in the Universe. Amherst: Prometheus, 2002.

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HOYLE, F. A nuvem negra. Tradução Érico Assis. São Paulo: Todavia, 2022.

KANT, I. Crítica da razão pura. Tradução Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

MARX, K. O capital. Livro I. Tradução Reginaldo Sant’Ana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

MOORE, S. The Novel. An Alternative History. Nova York: Bloomsbury, 2013.

OPPY, G. What I Believe. In: BLACKFORD, R.; SCHÜKLENK, U. (ed.) 50 Voices of Disbelief. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.

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PAULHAN, J. Le Marquis de Sade et sa complice. Bruxelas: Éditions Complexe, 1987.

PLANTINGA, A.; TOOLEY, M. Conhecimento de Deus. Tradução Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2014.

SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma. Tradução Rosa Freire Aguiar. São Paulo: Penguin, 2018.

STENGER, V. God: The Failed Hypothesis. Amherst: Prometheus, 2007.

SUSSKIND, L. The Cosmic Landscape. Nova York: Back Bay Books, 2006.

VILENKIN, A. Many Worlds in One. Nova York: Hill and Wang, 2006.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) Crítica da razão pura, p. 451.

(2) MOORE, The Novel. An Alternative History, p. 433.

(3) Os 120 dias de Sodoma, p. 471.

(4) Le Marquis de Sade et sa complice, p. 37.

(5) AT XI 617.

(6) AT XI 619.

(7) Descartes, p. 67.

(8) Many Worlds in One, p. 205.

(9) A nuvem negra, p. 212-213.

(10) What I Believe, p. 51.

(11) Ibid., p. 51.

(12) O leitor perspicaz não deixará de notar que um pensador com as credenciais de Oppy não poderia ignorar a realidade e o caráter materialista da evolução darwiniana. O problema é que Oppy revela desapreço pela ideia de gênese materialista quando admite que o fine-tuning pode ser um atributo primário da realidade: para Oppy, um naturalista tem o direito de “supor que os valores dos parâmetros cósmicos são necessários”. Cf. The Best Argument Against God, p. 27. Ora, Oppy diria a mesma coisa se quiséssemos explicar a origem das adaptações orgânicas? Tenho para mim que a existência de um olho ou de um cérebro irredutível é inconsistente com o materialismo. Penso também que as condições cósmicas primordiais não são essencialmente distintas de uma adaptação orgânica (o fine-tuning é semelhante a um DNA cósmico).

(13) A lista de advogados da corporeidade divina é praticamente interminável: os antigos israelitas, os milésios, os epicuristas, os estoicos, Tertuliano, Thomas Hobbes, os mórmons... A lista seria ampliada, é claro, se eu incluísse, além da teleologia imanente (a ideia de uma programação intrínseca à matéria), as religiões ameríndias, africanas, asiáticas e oceânicas.

(14) Diversos defensores competentes do ateísmo científico consideram que muitos atributos tradicionalmente associados a Deus são supérfluos. Citarei três exemplos: Michael Tooley não se opõe à ideia abstrata de um Deus constituído de matéria: “E se, contudo, definirmos Deus simplesmente como uma pessoa onipotente, onisciente e moralmente perfeita? Implica isso que Deus tem de ser uma mente imaterial? Ao contrário do que suspeito que muitos filósofos defenderiam, não penso que o implique”. Cf. Conhecimento de Deus, p. 121. Taner Edis igualmente crê que “[...] Deus não precisa ser uma mente pura [...]”. Cf. The Ghost in the Universe, p. 50, nota 55. Victor Stenger, por sua vez, sustenta que “[...] o caso científico [contra a existência de Deus] não está limitado a um deus sumamente benigno, onisciente e onipotente”. Cf. God: The Failed Hypothesis, p. 34.

(15) O relojoeiro cego, p. 25.

(16) O capital, p. 428, nota 89.

(17) Outgrowing God, p. 273.

(18) Leonard Susskind, eminente físico americano, compartilha do juízo de Dawkins – ou, uma vez que seu livro The Cosmic Landscape foi publicado em 2005, é a fonte do argumento hesiódico que Dawkins formula em Outgrowing God (2019). De acordo com Susskind, “[...] a cosmologia moderna realmente começou com Darwin e Wallace”. Cf. The Cosmic Landscape, p. 17. Com efeito, Darwin e Wallace reduziram um microcosmo e mostraram que tipo de redução deveria dar conta do macrocosmo (a depender do ponto de vista, podemos até mesmo afirmar que Darwin e Wallace solucionaram o problema mais difícil). Agrada-me pensar que Susskind fez bom uso da lógica do argumento hesiódico: Deus pode existir, mas em meu aquário doméstico uma lagosta surgiu por geração espontânea.