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16 abril 2019

A religião grega tradicional

É simplória a historiografia que faz de Tales de Mileto o primeiro filósofo do Ocidente. Uma reflexão filosófica encorpada sempre fez parte da religião grega tradicional. Com muita lucidez, Robert Parker, uma das maiores autoridades contemporâneas no assunto, equipara as obras de William Paley aos argumentos produzidos por poetas como Homero, Píndaro e Sófocles. (1) Não que se trate de uma metafísica idêntica à de Paley: os deuses gregos provêm da matéria acéfala. No entanto, eles são a causa de todos os demais fenômenos. O mundo é semelhante a um rio que brota da matéria impensante e deságua como um caudal de atos teleológicos; tudo se passa como se os deuses fossem alienígenas oriundos da seleção natural darwiniana. Consequentemente, os teólogos naturais da estirpe de Homero julgam provar a existência de uma teleologia derivada, a qual tem raízes na noite da matéria. (2)

Há alguns anos, quando o ateu militante Christopher Hitchens foi diagnosticado com câncer no esôfago, muitos religiosos, regozijando-se, não perderam a oportunidade de falar em punição divina. Em resposta, Hitchens, que rejeitou o consolo da religião até o fim, apontou o caráter indiscriminado das ocorrências de cânceres e assim traçou, em negativo, uma constrição empírica que poderia favorecer a alegação dos religiosos: “Se você sustenta que deus concede cânceres sob medida, também tem de levar em conta o número de crianças com leucemia. Muita gente devota morreu jovem e com dor”. (3) Está desenhado aqui, em negativo, um quadro hipotético em que somente os ímpios são acometidos por cânceres.

Tais raciocínios filosóficos são tão antigos quanto a capacidade de raciocinar. Os adeptos da religião grega tradicional, homens que uma historiografia preconceituosa deseja relegar ao limbo da irracionalidade, estavam imersos em teorizações estruturalmente idênticas à de Hitchens. Homero e seus pares viam design em determinadas sequências de eventos do mundo humano. Ao constatar a existência de um nexo entre a impiedade e a desgraça, o pai de Ulisses exclama: “Zeus Pai, vós, os deuses, ainda existis deveras no alto Olimpo, se realmente os pretendentes sofreram o castigo de sua desabusada insolência”. (4) Na religião grega tradicional, como explica Parker, “A maior evidência [...] de que os deuses existem é o fato de que a piedade funciona”. (5)

Terremotos, tempestades, raios, inundações, secas, epidemias: pensava-se que tais fenômenos expressavam o descontentamento e a ira dos deuses. Em contrapartida, a brandura do tempo, a estabilidade da terra e a prosperidade das plantações eram vinculadas à prática zelosa de sacrifícios.

Assim, não admira que a ascensão do cristianismo na Antiguidade tenha sido encarada pelos pagãos como uma espécie de teste científico das alegações religiosas. Havia na época de Agostinho um provérbio popular que condensava o aspecto filosófico da religião grega tradicional: “Se não chove, a causa são os cristãos” (Pluvia defit, causa Christiani). (6) A supressão dos sacrifícios tradicionais foi considerada, inclusive, a causa de uma calamidade devastadora, o saque de Roma por Alarico, rei dos visigodos, em 410. (7)

Os pagãos da época de Agostinho raciocinavam cientificamente sobre o sentido da existência, e não raciocinavam mal, ainda que estivessem afastados da verdade. Há filósofos idôneos que julgam que Auschwitz foi uma refutação empírica do teísmo. De acordo com Theodor Adorno, “O terremoto de Lisboa foi suficiente para curar Voltaire da teodiceia de Leibniz, e o desastre visível da primeira natureza foi insignificante em comparação com o segundo, o desastre social que desafia a imaginação enquanto destila um inferno real a partir da maldade humana”. (8)

Há uma versão especial do argumento do desígnio, que eu chamo de “versão providencialista”. Ela não diz respeito às adaptações biológicas e nem ao suposto fine-tuning (ajuste fino) das constantes cosmológicas, mas a sequências de eventos humanos, eventos que podem ser históricos ou ter um significado mais restrito. Ela já foi muito popular entre os teólogos naturais, mas hoje no mundo acadêmico as versões biológica (design inteligente) e cosmológica (argumento do fine-tuning) são bem mais prestigiadas. (9)

Por algum motivo que me escapa, e que pode muito bem ser meramente psicológico, a engenhosa estrutura dos organismos não causava espécie num Homero, a não ser quando se julgava haver evidências de que a irrupção de uma adaptação biológica estava teleologicamente associada a um evento do mundo humano. Isolado de outro ou de outros eventos, o carneiro unicórnio que nasceu numa fazenda de Péricles não demanda uma explicação teleológica; ele não é mais maravilhoso do que Afrodite, a deusa que emergiu, sem design inteligente, do pênis decepado de Céu. Porém, considerado como um presságio da unificação dos partidos políticos de Péricles e de Tucídides, o mesmo carneiro passa a ser visto como uma obra dos deuses, ou seja, como um organismo adaptado a comunicar aos homens uma mensagem. (10)

A versão providencialista do argumento do desígnio, baseada na observação de sequências de eventos humanos, já existia nas sociedades pré-históricas. O homem primitivo realizava testes empíricos rudimentares, imaginando que os fenômenos naturais resultavam da conduta para com os deuses; a escassez de caça, por exemplo, era atribuída a transgressões. (11) Afirmo sem pejo que a cosmovisão do homem primitivo era filosófica; custa-me entender como uma associação entre a água e os fenômenos vitais, que valeu a Tales o título de fundador da filosofia ocidental, possa ser intrinsecamente mais filosófica do que uma associação entre a impiedade e a carestia. Além disso, havia desde o início a possibilidade de que alguma versão do argumento do mal pesasse contra a crença religiosa. Tal argumento aparece em negativo na crença de que o comportamento humano está atrelado a uma resposta adequada dos deuses. (12)

Seja como for, o argumento providencialista do desígnio tornou-se mais sofisticado nas mãos dos adeptos da religião grega tradicional, identificando-se com o tipo de raciocínio empírico que, hoje, costuma ser empregado na filosofia da religião. Sem perder o vínculo com a essência da teologia natural pré-histórica, Heródoto relata algumas anedotas que chegam a impressionar. Com efeito, Heródoto descreve certas constrições empíricas que reduzem a vagueza das evidências aduzidas por um Homero. Há, por exemplo, um episódio em que, nas palavras do historiador, “a mão de Deus manifestou-se do modo mais evidente”. (13) Certa feita, depois de assassinarem dois emissários persas e de presenciarem augúrios que anunciavam a ira de Taltíbio, padroeiro dos emissários, os espartanos concluem que somente um sacrifício vicário poderia expiar o crime. Enviam então à Pérsia dois emissários como bodes expiatórios. Xerxes, recusando-se a cometer um crime análogo, despacha os dois espartanos. O que ocorre então, na visão de Heródoto, e tenho de admitir que seu raciocínio não é inteiramente ruim, é um fenômeno que constringe cabalmente o âmbito das explicações plausíveis. Muitos anos depois, durante a guerra do Peloponeso, os filhos dos espartanos poupados por Xerxes vão à Ásia como emissários. Traídos no caminho, são mandados para Atenas e executados.

A “suma teológica” propiciada por esse tipo de argumentação não era vultosa: por meio da razão desassistida, o adepto da religião tradicional podia saber apenas que os fenômenos eram imediatamente causados por inteligências sobre-humanas que reagiam ao comportamento humano. Havia também os oráculos, que forneciam revelações sobre o futuro e sobre o modo correto de oferecer sacrifícios, e os videntes. Considerando-se tais fontes de informação, resulta claro que as práticas ritualísticas não eram informadas por um conjunto volumoso de crenças.

Os gregos, contudo, dispunham também de um vasto sortimento de mitos. É verdade que os relatos mitológicos constituíam o elemento móvel da religião grega, já que nunca houve a obrigação de os abraçar como dogmas. Não havia escrituras sagradas na Grécia antiga. Ainda assim, seria má estratégia tentar extirpar a religião tradicional de um núcleo duro de noções mitológicas que, embora destituído de caráter dogmático, não deixava de ser um componente orgânico de uma cosmovisão. O adepto da religião tradicional não se achegava do altar com a mente livre de um acervo de concepções mitológicas. (14) E o mais interessante é que esse acervo incluía crenças relativas à origem do mundo e dos deuses.

Heródoto sintetiza da seguinte maneira a relação entre a religião e o mito:

De onde cada deus surgiu, se todos eles sempre existiram, que forma eles tinham – tais coisas eram completamente ignoradas pelos gregos até anteontem, por assim dizer. Com efeito, Homero e Hesíodo foram os primeiros a compor teogonias, a dar aos deuses seus epítetos, a conceder a cada um seu cargo e sua ocupação, e a descrever suas formas. (15)

Antes desses poetas os cultos já eram praticados, sem dúvida, e os teólogos naturais, os oráculos e os videntes abriam uma fresta para a contemplação do mundo dos deuses. Homero e Hesíodo, no entanto, enriqueceram o ideário religioso com o desnudamento da natureza divina.

A teogonia de Hesíodo é uma ontologia materialista. A matéria, no caso, são o desejo sexual e a fisiologia reprodutiva dos deuses. De acordo com Stephen Scully, “O mais perto que o mito grego [de Hesíodo] chega de propor o design inteligente é com a figura de Eros, mas o desejo sexual e o destino biológico têm pouco a ver com a intenção consciente”. (16)

A tese de Scully é fortalecida pelo fato de que, fora da esfera da teogonia, a irracionalidade é efetivamente um elemento constitutivo do modo como os gregos representavam o comportamento de seus deuses. Assim como os homens, os deuses frequentemente agem de modo irrefletido, como forças cegas da natureza. Há um pareamento, portanto, entre a metafísica sexualista de Hesíodo, que desempenha a função de uma explicação das origens, e a existência ocasional (e indubitável, para quem já percorreu as páginas dos poemas homéricos) de irracionalidade na região da teleologia derivada.

Os deuses hesiódicos originam-se de causas ininteligentes. Em alguns casos, o surgimento de um deus é aparentemente tão imotivado quanto um evento quântico: Terra, uma das deusas primordiais, simplesmente brota do caos, uma realidade que, em Hesíodo, é definida como um grande espaço vazio (ainda não estamos na época de Ovídio, o poeta cosmogônico que concebeu o caos como uma matéria confusa). Os outros deuses, em sua maioria, provêm de relações sexuais análogas às humanas.

É de se notar que o caráter materialista da teogonia hesiódica não existiria sem o evolucionismo. Adstrita à partenogênese e a relações endogâmicas com seus próprios descendentes, Terra tira de si mesma uma progenitura bastante diversificada: de seu útero saem entes geológicos, monstros e criaturas marcadamente antropomórficas. Subsiste, no entanto, alguma ambiguidade aparente, que pode ser dissipada por meio do exame da vizinhança intelectual de Hesíodo. Pergunta-se, com efeito, se a teogonia hesiódica seria realmente um processo evolutivo. Na hipótese alternativa considera-se que os deuses apenas reproduzem características pré-existentes, e que, portanto, o plano corporal mais destoante estava abrigado como uma boneca russa no corpo de Terra. Esta hipótese não é materialista, pois é possível argumentar que o corpo de Terra seria portador de uma teleologia irredutível, e que seus descendentes nada mais fariam do que copiar uma estrutura teleológica primitiva. Sem a emergência de novidades autênticas, portanto, não haveria materialismo.

O fato, no entanto, é que a hipótese evolucionista é a mais abonada pelo testemunho das cercanias intelectuais de Hesíodo. Hecateu de Mileto relata que Oresteu, filho de Deucalião, teve uma cadela que pariu uma videira. (17) Anaximandro, por seu turno, faz o primeiro homem emergir do ventre de um peixe. (18) Em ambos os casos, exemplos de generatio in utero heterogeneo, não é plausível que os rebentos preexistissem à maturidade reprodutiva de seus genitores. Consequentemente, por que diríamos que a teogonia de Hesíodo é semelhante à abertura de uma matriosca?

Diante do fato de que Hesíodo nos brinda com copiosas informações sobre a origem dos deuses, uma pergunta que naturalmente surge é: como ele obteve tais informações? Poucas questões dão origem a mais equívocos. No entanto, o poeta dá uma resposta muito simples no proêmio da Teogonia: a canção sobre o nascimento dos deuses foi inspirada pelas Musas. (19)

A confusão é inerente a uma visão desnaturada e pasteurizada da relação entre o mito e a filosofia. Aprenderam por ouvir dizer, e hoje repetem à exaustão, que a filosofia é essencialmente contrária ao mito. Ora, tomando-se a alegação de Hesíodo por seu valor de face, cairiam no maior embaraço aqueles que, com base no mesmo princípio, procurassem justificar a impugnação do conteúdo de uma suposta mensagem alienígena.

Num belo dia, alienígenas visitam a Terra e nos informam que um planeta da constelação de Aquário é habitado por formas de vida baseadas no elemento silício. De fato, não se trata de uma proposição filosófica, pois a razão natural não tem parte alguma em sua construção. No entanto, alguém diria que a revelação feita pelos alienígenas é necessariamente contrária à filosofia? Embora o mito não seja filosofia, não há uma oposição a priori entre ambos, assim como não há uma oposição a priori entre a revelação judaico-cristã e a filosofia. O que ocorreu a partir de Tales foi que o conteúdo específico dos mitos até então existentes passou a ser visto como deficitário à luz da razão e da experiência.

Creio já ter dito o suficiente para uma apreciação adequada das noções que compuseram o primeiro raiar da razão ocidental. De um lado, havia uma teologia natural; do outro, uma mitologia. A imagem de mundo formada por ambas é saturada de teleologia; a segunda também descreve, contudo, o fundamento último e irracional do mundo. Em síntese, a religião grega tradicional, que já traz em seu bojo a reflexão filosófica, apresenta uma curiosa mescla de teísmo e materialismo. Estão delineadas, assim, as crenças com que se defrontarão os críticos gregos da teleologia.


Bibliografia

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BERTELLI, L. Hecataeus: From Genealogy to Historiography. In: LURAGHI, N. (Ed.). The Historian’s Craft in the Age of Herodotus. Oxford: Oxford University Press, 2001.

CRAIG, W. L.; SINOTT-ARMSTRONG, W. God? A Debate between a Christian and an Atheist. Nova York: Oxford, 2004.

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HERÓDOTO. The History. Chicago: Encyclopaedia Britannica, 1952.

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SCULLY, S. Hesiod’s Theogony: From Near Eastern Creation Myths to Paradise Lost. Oxford: Oxford University Press, 2015.

VOLTAIRE. Cândido. São Paulo: Planeta DeAgostini, 2003.

WRIGHT, R. The Evolution of God. Nova York: Little, Brown and Company, 2009.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) On Greek Religion, p. 2.

(2) Na teoria dos astronautas antigos, proposta por autores como Erich von Däniken e Zecharia Sitchin, alienígenas são os designers inteligentes da espécie humana. Admitindo-se que essa teoria seja verdadeira, os criadores da humanidade poderiam, decerto, resultar da seleção natural que ocorreu em outro planeta. Ao mesmo tempo, as características do ser humano poderiam recusar a explicação darwiniana. Não há incompatibilidade lógica entre as duas teses. Como observou Darwin, bastaria que o homem “fosse feito de latão ou de ferro, e não se conectasse a nenhum outro organismo que já tenha existido”. Cf. Carta a Asa Gray, 17 de setembro de 1861. Disponível nesta página. Acesso em: 29 mar. 2019. De fato, nós, que realmente proviemos da seleção natural, poderíamos, em princípio, criar artificialmente novas formas de vida, e seria muito estranho se optássemos por forjar homologias e órgãos vestigiais para simular um processo evolutivo, sobretudo se os organismos criados fossem incapazes de raciocinar sobre a simulação.

(3) Últimas palavras, pp. 23-24.

(4) Odisseia, Canto XXIV, p. 284.

(5) On Greek Religion, p. 3.

(6) The City of God, Livro II, cap. 3, p. 50.

(7) Ibid., Livro I, cap. I, pp. 2-3.

(8) Negative Dialectics, p. 361.

(9) A estrutura do olho humano é o exemplo mais famoso de conformação natural em que se viu a presença de design inteligente. Numa passagem exaustivamente citada, Paley compara o olho humano a um telescópio, instrumento que, embora menos complexo do que o órgão a que ele se acopla, ninguém atribuiria ao poder formador do acaso. Cf. Natural Theology, cap. 3. A versão providencialista do argumento do desígnio põe, por assim dizer, uma sequência de eventos humanos no lugar do olho minuciosamente projetado; em vez de uma lente, de uma íris e de uma retina finamente ajustadas, temos um encadeamento inteligente de eventos. Trata-se de um lugar-comum filosófico. Agostinho vê a mão de Deus no fato de que, contrariamente ao costume bélico, os cristãos foram poupados durante o saque de Roma de 410 (cf. The City of God, Livro I, cap. I, pp. 2-3); Thomas Paine observa que “A Reforma foi precedida pela descoberta da América, como se o Onipotente graciosamente pretendesse abrir um santuário para os perseguidos dos anos futuros” (cf. Common Sense, p. 40); Pangloss explica que, “se Colombo não tivesse apanhado numa ilha da América a doença terrível que envenena a fonte geradora [i.e. sífilis], que chega mesmo a impedir a geração, e que evidentemente se opõe à grande finalidade da Natureza, nós não teríamos nem o chocolate, nem a cochonilha” (cf. VOLTAIRE, Cândido, pp. 44-45); William Craig serve-se da teoria do caos para sustentar que, assim como o bater das asas de uma borboleta na África pode gerar um furacão no oceano Atlântico, uma criança que morre de leucemia pode ser a causa de um benefício que se manifesta depois de séculos (cf. A Debate between a Christian and an Atheist, p. 117); para findar essa pequena lista com um exemplo particularmente jocoso, acrescento que, após o incêndio que destruiu grande parte do Museu Nacional do Brasil em 2 de setembro de 2018, um precioso fóssil de samambaia foi encontrado dentro de uma rocha que se partiu sob a ação do calor. Disponível nesta página. Acesso em: 29 mar. 2019.

(10) PLUTARCO, Lives, cap. IX, p. 115.

(11) Os inuítes acreditam que, quando um membro da comunidade comete uma infração, a deusa do mar retém as focas e outros animais de caça. Cf. R. WRIGHT, The Evolution of God, pp. 22-23.

(12) A primeira formulação explícita do argumento do mal data do século 5 a.C. No Belerofonte, uma tragédia perdida de Eurípides, o personagem-título fundamenta seu ateísmo no fato de que, não raro, os injustos prosperam e os justos são oprimidos: “Conheci cidadezinhas, que reverenciavam os deuses, sujeitadas a um poder injusto, vencidas por lanças mais numerosas”. Cf. The Greek Tragic Theatre, p. 343.

(13) The History, Livro VII, cap. 137, p. 238.

(14) R. PARKER, On Greek Religion, pp. 32-33.

(15) The History, Livro II, cap. 53, p. 60.

(16) Hesiod’s Theogony: From Near Eastern Creation Myths to Paradise Lost, p. 25.

(17) Apud L. BERTELLI, Hecataeus: From Genealogy to Historiography. In: N. LURAGHI (ed.), The Historian’s Craft in the Age of Herodotus, p. 85.

(18) PSEUDO-PLUTARCO apud G. S. KIRK, J. E. RAVEN e M. SCHOFIELD, The Presocratic Philosophers, p. 140.

(19) Teogonia, pp. 30 e 32.



30 março 2013

A farsa da evolução teísta

Não tenho necessidade dessa hipótese.

Laplace


Toda intervenção sobrenatural é uma violação da descendência comum.

Gert Korthof

A grande controvérsia da cultura contemporânea gira em torno do caráter materialista da evolução darwiniana. Na tentativa de acomodar as crenças religiosas ao conhecimento científico, muitos aderem à ideia de um processo evolutivo guiado por Deus. A compatibilidade entre teísmo e evolucionismo é defendida, por exemplo, pelo teólogo Alvin Plantinga:

Deus poderia ter alcançado os resultados que ele desejava fazendo com que as mutações certas surgissem nos momentos certos, deixando a seleção natural fazer o resto. Outra possibilidade: Thomas Huxley [...] sugeriu que Deus poderia ter arranjado as coisas no início de modo que as mutações certas surgissem, no futuro, nos momentos certos, levando aos resultados que ele desejou. (1)

Em suma, independentemente do método de criação empregado pelo designer inteligente (com intervenções sobrenaturais feitas no início ou ao longo do processo evolutivo), Plantinga defende a compatibilidade entre o evolucionismo e a existência de mutações genéticas dirigidas. Tornou-se vergonhoso e fora de moda negar o transformismo e a tese da descendência comum de todas as espécies; e então os ânimos religiosos buscam harmonizá-los com a velha doutrina criacionista.

Além disso, numa manobra desonesta, alguns acomodacionistas costumam distorcer os resultados das pesquisas de opinião, por meio do obscurecimento da distinção entre a evolução teísta e a evolução científica. Resulta daí a falsa impressão de que grande parte da população adere ao conceito científico de evolução. Na verdade, uma pesquisa realizada em 2012 pelo Instituto Gallup revelou que 32% dos americanos admitem que a evolução foi guiada por Deus; 15% aceitam a evolução materialista; e 46% alegam que a evolução não ocorreu. (2) Logo, apenas 15% dos americanos aderem ao conceito científico de evolução. O resultado não surpreende. Aceitar o evolucionismo materialista equivale a rejeitar a ideia de um supervisor cósmico: algo incompatível com a proclividade religiosa da maior parte da população.

Na mesma linha de Plantinga, o arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, teve a honestidade de declarar essa incompatibilidade no artigo Encontrando o design na natureza, publicado em 7 de julho de 2005 no The New York Times:

A evolução no sentido de ancestralidade comum pode ser verdadeira, mas a evolução no sentido neodarwiniano – um processo não guiado e não planejado de variação aleatória e de seleção natural – não é. Qualquer sistema de pensamento que nega ou procura fornecer uma explicação natural para a esmagadora evidência de design na biologia é ideologia, e não ciência. (3)

Assim, nada mais bizarra que a atitude de Stephen Jay Gould, o qual pulou de alegria quando soube do ambíguo endosso do Papa João Paulo II à teoria da evolução, proferido em 1996. (4) Schönborn explica que em nenhum momento João Paulo chegou a admitir a possibilidade de um processo evolutivo em conformidade com o conceito darwiniano, e cita a seguinte declaração do sumo pontífice, enunciada em 1985: “É claro que a verdade da fé sobre a criação é radicalmente oposta às teorias da filosofia materialista. Estas veem o cosmo como o resultado de uma evolução da matéria redutível ao puro acaso e à necessidade”.

É preciso esclarecer de uma vez por todas que a evolução teísta não corresponde ao processo materialista estudado pelos cientistas e ensinado nas escolas. O fato é que, de acordo com a biologia moderna, o ser humano e as demais espécies foram gerados por uma combinação de mutações aleatórias e de seleção natural. A evolução darwiniana não é um processo guiado. Portanto, todas as espécies são resultado do acaso, e não do propósito divino. Este ensinamento da ciência está em absoluta contradição com todas as formas de teísmo. Com efeito, um olhar filosófico e imparcial logo discerne que o evolucionismo científico só é compatível com o sistema deísta (segundo o qual Deus é a causa primeira que estabelece as leis da física e depois abandona a natureza à sua própria sorte. O teísmo, por outro lado, sustenta a existência de um Deus que interfere no curso dos fenômenos naturais, como o Deus da Bíblia). No dizer de Johnson,

Quando darwinistas dizem que sua teoria não nega “a existência de Deus” e alegam não dizer nada sobre “religião”, eles normalmente querem dizer que estão dispostos a permitir o deísmo como uma possibilidade para pessoas que não estão dispostas a rejeitar completamente a existência de Deus. Muitos naturalistas evolucionários não veem prejuízo em fazer essa concessão, pois um Deus que confina sua atividade ao início remoto do tempo é insignificante para as vidas humanas. (5)

O exemplo de Darwin é paradigmático no que respeita à relação entre o evolucionismo científico e a religião. O pai da teoria moderna da evolução não foi um ateu, mas um pensador de tendência agnóstica (particularmente na velhice). (6) Entretanto, tal agnosticismo dizia respeito apenas à existência de um criador do Universo e das leis naturais, e não à existência de um criador dos organismos. Podemos dizer, portanto, que o agnosticismo de Darwin era relativo à hipótese deísta, e não à hipótese teísta. É notório que A origem das espécies atribui o fenômeno das adaptações orgânicas à estrita operação das causas segundas ou naturais:

Autores da mais elevada eminência parecem estar completamente satisfeitos com a visão de que cada espécie foi criada independentemente. A meu ver, combina melhor com o que nós sabemos das leis impressas na matéria pelo Criador, que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do globo sejam resultantes de causas secundárias, como aquelas que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. (7)

Em outras palavras, Deus poderia ser o originador da natureza como um todo, ou seja, do conjunto das causas secundárias, sem que haja a necessidade de imissão sobrenatural nos eventos particulares para explicar a origem das espécies.

Vejamos agora de que maneira a lógica e as evidências empíricas revelam a incompatibilidade entre a teoria científica da evolução e o teísmo. (8)

Seguramente, não necessitamos de intervenções sobrenaturais para explicar a produção de espécies insulares (como os tentilhões de Darwin) ou de variedades domésticas (como as raças caninas). Estes são eventos tão naturais e destituídos de propósito quanto a formação de uma montanha ou a evaporação da água.

No proverbial encontro entre Laplace e Napoleão Bonaparte ocorrido em 1802, o astrônomo francês declarou, em resposta a uma pergunta sobre Deus: “Não tenho necessidade dessa hipótese”. (9) Laplace admitiu a inutilidade do conceito de uma divindade intervencionista em astronomia. De modo análogo procedeu a biologia moderna no tocante à questão da origem das espécies.

O exemplo da produção de variedades domésticas é bastante esclarecedor. As mutações aleatórias fornecem aos criadores de plantas e de animais a matéria bruta para a elaboração de uma imensa variedade de novas linhagens. O método utilizado – de forma consciente ou inconsciente – pelos criadores é a seleção cumulativa, durante sucessivas gerações, de ligeiros desvios anatômicos ou comportamentais de natureza hereditária. Ora, as mutações que surgem aleatoriamente nada têm de milagrosas: um focinho um pouco mais curto, uma pelagem mais densa, um temperamento mais dócil, flores mais vistosas etc. A prática dos cruzamentos seletivos, ao longo de séculos ou de milênios, permitiu aos criadores, por exemplo, a transformação do lobo (Canis lupus) em centenas de raças caninas tão diferentes quanto o chihuahua, o são-bernardo e o buldogue. Quanto à maioria das plantas domesticadas, um leigo não faz ideia das diferenças que as separam de suas ancestrais selvagens. Em poucos séculos, os horticultores obtiveram, por exemplo, variedades como o repolho doméstico, o brócolis, a couve-flor e a couve-de-bruxelas a partir de um único ancestral, o repolho selvagem (Brassica oleracea); e somente um idiota diria que essas variedades foram produzidas por Deus.

Darwin observou que, em estado natural, as pressões ambientais desempenham o papel dos criadores humanos. No notório caso das Ilhas Galápagos, prosperaram as mutações aleatórias que conferiam aos tentilhões (migrados do continente sul-americano) um incremento adaptativo a condições de vida distintas: bicos de diversos tamanhos e formatos, úteis para as dietas mais variadas.

De modo análogo, peixes não relacionados de diferentes regiões do globo são isolados em cavernas e apresentam as mesmas respostas adaptativas (evolução convergente): uma progressiva atrofia do aparato visual, por exemplo. O cenário proposto pelos acomodacionistas é ridículo. A cada vez que uma população de peixes fosse isolada num ambiente trevoso, um designer inteligente operaria uma sequência correspondente de mutações que resultaria na redução do aparato visual. Com a mesma razão um teólogo poderia afirmar que Deus está por trás de um fenômeno como a deriva continental. Na Antiguidade, relâmpagos e trovões eram atribuídos a Zeus, e terremotos, à fúria de Posídon. Isso faz pensar que o discurso “sofisticado” de um Plantinga não passa de superstição ancestral apresentada sob a cobertura de ouropel de um jargão acadêmico embolado.

Num processo bastante conhecido, mutações aleatórias submetidas à seleção natural tornam os micro-organismos patógenos (bactérias e vírus) resistentes a antibióticos e antivirais. Certamente, seria o cúmulo da tolice pensar que algum milagre provoca tais mutações. O fenômeno, cujas causas são suficientemente compreendidas, pode ocorrer numa placa de Petri bem diante de nossos olhos, e não é mais misterioso do que qualquer reação estudada pela química. Logo, os partidários da evolução teísta têm o ônus de justificar a compatibilidade entre a evolução científica e o teísmo, uma vez que a natureza não revela nenhum sinal de uma intervenção divina no fenômeno das mutações.

De acordo com Plantinga, “Deus poderia ter alcançado os resultados que ele desejava fazendo com que as mutações certas surgissem nos momentos certos, deixando a seleção natural fazer o resto”. (10) Pois bem, alguém diria que as mutações apresentadas pelos micro-organismos patógenos foram produzidas por intervenções sobrenaturais? Ou, então, alguém diria que as raças caninas e as espécies insulares foram criadas por Deus? Nós não temos necessidade dessa hipótese. A partir dos exemplos citados, admitimos sem dificuldade que a evolução darwiniana só é compatível com o deísmo.

Outro fato depõe contra a ideia de um processo evolutivo guiado por Deus: a existência de mutações deletérias, as quais são muito mais comuns do que as mutações benéficas. Com efeito, qual divindade consciente poderia comprazer-se em produzir mutações que reduzem as chances de sobrevivência e de reprodução dos organismos? O fato estabelecido pela ciência é o seguinte: no caso de peixes, para citar apenas um exemplo, as mutações que causam cegueira podem ocorrer em ambientes iluminados, para prejuízo de seus portadores. Cabe ao ambiente dizer quais mutações são proveitosas. A mesma mutação pode aumentar ou diminuir o sucesso reprodutivo de um organismo.

A doutrina da evolução teísta parece-nos tão bizarra e mal-ajambrada que duvidamos que possa ser adotada na forma em que se apresenta, a qual examinamos até aqui. Somos levados a pensar que, na verdade, seus adeptos não têm em mente um processo genuinamente evolutivo (difícil precisar até que ponto suas ideias são claras), mas algo como a doutrina das criações sucessivas propugnada por criacionistas como Louis Agassiz (1807 – 1873), os quais admitem, em conformidade com o ensinamento da geologia, uma cronologia que excede imensamente os seis mil anos implicados pelas escrituras sagradas. Doutrina, aliás, insustentável à luz da anatomia comparada, da paleontologia e de outras disciplinas, embora mais inteligente do que a evolução teísta, na medida em que rejeita a existência de um vínculo genealógico real entre as espécies. Se todos os seres vivos são descendentes de um ancestral comum, a doutrina da criação divina cai por terra, pois resulta claro que as pequenas modificações hereditárias podem ser plenamente explicadas por meio de causas naturais (em contraposição à causa primeira ou sobrenatural). E a evolução nada mais é do que a acumulação de pequenas modificações úteis à sobrevivência e à reprodução dos organismos.

Para os acomodacionistas, o mal é a sensação de isolamento em relação ao que se presume ser a ciência oficial. Daí a aceitação de uma escala de tempo imensamente superior aos seis dias do relato do Gênesis, e da criação de tipos cada vez mais complexos no decorrer da história da Terra. O problema é que o evolucionismo científico não se restringe a afirmar que a criação da vida ocorreu ao longo de bilhões de anos.

Os teístas admitem que causas naturais e impensantes expliquem a reprodução dos indivíduos, fenômeno no qual está incluída a ocorrência de pequenas variações genéticas (mutações); parece provável, portanto, que os partidários da evolução teísta tenham em mente algo mais vultoso quando falam de mutações engendradas por Deus. Tudo leva a crer que imaginam macromutações que equivalem aos atos especiais de criação do antigo criacionismo. Assim, em sua concepção, “evolução” seria um processo semelhante àquele proposto por Agassiz: ao longo da imensa escala do tempo geológico, Deus seria responsável por múltiplos atos de criação: uma sucessão de classes taxonômicas cada vez mais elevadas (daí o aspecto “evolutivo” ou progressivo do processo), ainda que desprovidas de uma conexão filial. É indiferente se um indivíduo portador de uma macromutação tem origem num organismo pré-existente (pela reprodução sexuada ou assexuada) ou no mundo externo, mediante uma agregação súbita e miraculosa de átomos.

Não é difícil discernir que essas macromutações correspondem às estruturas biológicas irredutivelmente complexas postuladas pelos partidários do intelligent design. Assim, uma grave objeção à evolução teísta é oriunda do estudo das afinidades taxonômicas. Com efeito, a criação de estruturas irredutivelmente complexas é incompatível (aqui, no sentido lógico) com a tese da descendência comum de todas as espécies. Os fatos de homologia, os órgãos vestigiais e as semelhanças do código genético atestam as relações de parentesco entre as espécies, e essas relações excluem a possibilidade da geração súbita de estruturas complexas (natura non facit saltus). Korthof percebeu assim a incoerência da tese de Michael Behe, um proponente do intelligent design que defende o fato da evolução: “Toda intervenção sobrenatural é uma violação da descendência comum, pois ela significa que um novo sistema irredutivelmente complexo não foi herdado dos progenitores do indivíduo no qual esse sistema apareceu pela primeira vez”. (11)

Os partidários do intelligent design alegam não terem nenhum problema particular com a tese da descendência comum: “Em si mesma, a ancestralidade comum não elimina a necessidade de um criador”. (12) Será verdade? Compreendida adequadamente, a tese da descendência comum poderia ser harmonizada com a crença na geração súbita de sistemas complexos? Se uma estrutura não foi geneticamente herdada, mas produzida ex nihilo por uma causa inteligente, as homologias são ilusões produzidas por uma divindade enganadora, e não sinais genuínos de parentesco.

Behe vê sinais explícitos de design na produção do primeiro vertebrado: “O design explícito parece entrar na biologia em certo nível, no nível da classe dos vertebrados, mas não necessariamente além dela”. (13) No entanto, não há um fosso genético (conforme a descontinuidade implicada pela tese do design) que separa os vertebrados de seus parentes cefalocordados, hemicordados e urocordados. O fato é que todas as formas de vida conhecidas compartilham o mesmo código genético.

Por um lado, o surgimento súbito de estruturas complexas viola a cadeia genealógica que conecta todas as espécies por meio das homologias; por outro, pequenas variações genéticas não necessitam da intervenção de uma inteligência criativa. Tertium non datur. Ou evolucionismo materialista, ou a velha e obsoleta doutrina das criações especiais. Diante da evidência esmagadora proveniente da anatomia comparada e da biologia molecular, o criacionista conta com uma única saída desesperada: buscar refúgio no conceito de uma divindade enganadora à la Philip Gosse (autor de Omphalos), cujas ações são compatíveis com todas as configurações empíricas imagináveis. Assim, as homologias, os órgãos vestigiais e as coincidências do código genético seriam considerados aparências enganosas que simulam a ordem filogenética – uma tese absurda que não pode ser refutada.

Percebemos que Behe tentou aproximar-se do ponto de vista científico, ao endossar, além de uma cronologia antibíblica da ordem de bilhões de anos, o fato da evolução – e isso parece suficiente para todos os evolucionistas que buscam a concórdia com a ciência oficial. Porém, vista de perto, a hipótese do design destrói a ideia de descendência comum e insere a descontinuidade na história da vida. Ora, uma “evolução” descontínua não difere essencialmente da doutrina de Agassiz.

Outra objeção à evolução teísta pode ser formulada a partir de uma analogia com um episódio bíblico. Conforme o estranho relato evangélico, a cura do cego de Betsaida não se operou de uma só vez e perfeitamente, mas gradualmente. Jesus é obrigado a tocá-lo duas vezes para remediar a insuficiência da primeira operação miraculosa:

Ele tomou o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou: Vês alguma coisa? O cego, levantando os olhos, respondeu: Vejo as pessoas como árvores que andam. Tornou Jesus a pôr-lhe as mãos nos olhos e ele, olhando firmemente, ficou restabelecido, e já via ao longe e distintamente a todos. (14)

Ora, se Deus é onipotente, por que o restabelecimento sobrenatural da visão necessita ser gradual? No que diz respeito à Criação, como argumentou Descartes, somente o surgimento súbito e completo seria adequado à onipotência divina: “Adão e Eva não foram criados como crianças, mas com a idade de homens perfeitos”. (15) Um ser onipotente não necessitaria do simples para gerar o complexo; ele poderia, por exemplo, ter criado mamíferos no período Cambriano, ou répteis antes de peixes. Assim, é mais provável que Deus alcançasse seus intentos à maneira do bom e velho criacionismo bíblico, ou seja, mediante a produção ex nihilo de novas espécies.

Num debate com Francis Collins organizado pela revista Time em 2006, Dawkins apontou a estranheza da evolução teísta:

Se Deus desejava criar a vida e os seres humanos, seria um pouco bizarro que ele devesse escolher a via extraordinariamente indireta de esperar 10 bilhões de anos até que a vida surgisse, e então esperar por mais quatro bilhões de anos até que houvesse seres humanos capazes de rezar, pecar e de todas as outras coisas que interessam às pessoas religiosas. (16)

Certamente, um olhar lançado à história da vida na Terra revela alguns fatos surpreendentes que depõem contra a hipótese da criação divina: os primeiros seres vivos, organismos unicelulares, surgiram há pelo menos 3,5 bilhões de anos; e os primeiros organismos pluricelulares, há cerca de 700 milhões de anos. Logo, por um lapso de tempo inimaginável de aproximadamente 3,5 bilhões de anos, só existiram seres unicelulares (bactérias e algas azuis) em nosso planeta. Com qual finalidade? Isso significa que Deus desejava criar os seres humanos desde o início? Para se ter uma ideia da enormidade da época em que a vida unicelular dominou a Terra, as primeiras civilizações não existiram há mais de 10 mil anos.

E o que dizer da afirmação de que o curso da evolução foi pré-ordenado em vista da criação do ser humano? De acordo com Richard Owen (1804 – 1892), eminente zoólogo britânico e grande rival de Darwin, a teoria da evolução (ou “derivação”, em sua terminologia) “reconhece um propósito no curso definido e pré-ordenado”. (17) Owen sequer se envergonha em dizer que o cavalo evoluiu para servir a necessidades humanas: “Creio que o cavalo foi predestinado e preparado para o homem”. (18) No entanto, desde a época de Owen, as pesquisas paleontológicas mostraram que, no que diz respeito à evolução do cavalo, não há uma via régia que conduz do Eohippus, um animal do tamanho de um cachorro, ao moderno Equus. Na verdade, muitas linhagens são contemporâneas, de modo que cavalos de três dedos coexistiram com espécies de apenas um dedo. Do mesmo modo, se o ser humano fosse o “Ponto Ômega” da evolução (conforme a teoria acomodacionista de Teilhard de Chardin), como explicar a extinção de hominídeos tais como o Australopithecus robustus, o Homo neanderthalensis e o Homo floresiensis? Calcula-se que 99% das espécies que já existiram foram extintas sem deixar descendentes. Longe de se assemelhar a uma escala linear (nos moldes da desacreditada ortogênese ou “evolução em linha reta”), o registro fóssil revela que a evolução tem o aspecto de um arbusto incrivelmente ramificado. De fato, a maioria dos fósseis transicionais (como o Archaeopteryx) representam linhagens colaterais extintas.

Por fim, observemos que não faz o menor sentido dizer que “Deus cria por meio da evolução”, uma fórmula que se tornou um clichê na boca dos acomodacionistas. Com efeito, os próprios teístas não teriam dificuldade em admitir que as espécies insulares e as variedades domésticas não foram criadas por um designer inteligente. E, de acordo com a ciência da evolução, há apenas uma diferença de grau entre a produção de uma raça canina e a produção das divisões taxonômicas mais elevadas. Tudo depende da quantidade de modificações em si mesmas despretensiosas acumuladas ao longo do tempo. A única saída do acomodacionista, como vimos, seria supor um tipo mais pretensioso de mutação – o surgimento súbito de sistemas complexos –, o qual, infelizmente, é logicamente incompatível com a tese da descendência comum, na medida em que introduz a descontinuidade na cadeia filogenética.

Podemos concluir que a evolução teísta não é suportada pela lógica e por nenhuma evidência empírica, e que há uma diferença bastante clara entre o processo materialista proposto pelos cientistas e aquele, dirigido por uma inteligência, defendido pelos acomodacionistas. Além de desonestos quando procuram negar a existência de um conflito real entre a ciência e a religião, os conciliadores só são capazes de defender a ideia de um Deus intervencionista à custa da obnubilação de todas as evidências que atestam a existência de um processo evolutivo absolutamente desprovido de propósito.


Bibliografia

AGASSIZ, L. Essay on Classification. Nova York: Dover, 2004.

BEHE, M. The Edge of Evolution. Nova York: Free Press, 2007.

DARWIN, C. On the Origin of Species by Means of Natural Selection. Nova York: D. Appleton, 1864.

DESCARTES, R. Oeuvres publiées par Charles Adam et Paul Tannery. Paris: Vrin, 1996.

DESMOND, A.; MOORE, J. Darwin: a vida de um evolucionista atormentado. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

GOULD, S. J. A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

HAHN, R. Pierre Simon Laplace, 1749-1827: A Determined Scientist. Harvard: Harvard University Press, 2005.

JOHNSON, P. Defeating Darwinism by Opening Minds. Illinois: InterVarsity, 1997.

JOHNSON, P.; LAMOUREUX, D. O. Darwinism Defeated? The Johnson-Lamoureux Debate on Biological Origins. Vancouver: Regent College Publishing, 1999.

KORTHOF, G. Common Descent: It’s All or Nothing. In: YOUNG, M.; EDIS, T. Why Intelligent Design Fails: A Scientific Critique of the New Creationism. New Jersey: Rutgers, 2006.

OWEN, R. The Anatomy of Vertebrates. Vol. III. Londres: Longmans, Green and Co., 1868.

PLANTINGA, A. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, & Naturalism. Oxford: Oxford University Press, 2011.

Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Editora Vida, 1994.


Sites

Instituto Gallup: http://www.gallup.com

The New York Times: http://www.nytimes.com

Time: http://www.time.com


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, & Naturalism, p. 16.

(2) “Evolutionism, Creationism, Intelligent Design”. Disponível em: http://www.gallup.com/poll/21814/evolution-creationism-intelligent-design.aspx. Acesso em: mar. 2013.

(3) Finding Design in Nature. Disponível em: http://www.nytimes.com/2005/07/07/opinion/07schonborn.html?_r=3&pagewanted=all&. Acesso em: mar. 2013.

(4) “Trata-se de boas novas, e embora eu represente o magistério da ciência, recebo com alegria o apoio do líder principal do outro grande magistério de nossa complexa existência [...]”. A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci, cap. 14.

(5) Defeating Darwinism by Opening Minds, pp. 16-17.

(6) “Penso em geral (e mais ainda, à medida que envelheço), mas não sempre, que agnóstico seria a descrição mais correta de meu estado de espírito”. Apud A. DESMOND & J. MOORE, Darwin: a vida de um evolucionista atormentado, p. 648.

(7) On the Origin of Species by Means of Natural Selection, cap. XIV.

(8) Notemos que a incompatibilidade não necessita ser compreendida em sentido lógico. Pode ser logicamente possível (desde que respeitada a tese da descendência comum) que Deus tenha dirigido a evolução, embora as evidências empíricas não justifiquem essa hipótese. Do mesmo modo, é logicamente possível que o mundo seja uma ilusão forjada por alguns cientistas malignos.

(9) Apud R. HAHN, Pierre Simon Laplace, 1749-1827: A Determined Scientist, p. 172.

(10) Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, & Naturalism, p. 16.

(11) Common Descent: It’s All or Nothing, p. 43.

(12) P. JOHNSON, Darwinism Defeated? The Johnson-Lamoureux Debate on Biological Origins, p. 49.

(13) The Edge of Evolution, p. 220.

(14) Marcos 8:23-25.

(15) Princípios da filosofia, Parte III, art. 45.

(16) A transcrição de excertos do debate faz parte do artigo God vs. Science, de David Van Biema, publicado em 5 de novembro de 2006. Disponível em: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1555132,00.html. Acesso em: mar. 2013.

(17) The Anatomy of Vertebrates, cap. XL.

(18) Ibid.

18 dezembro 2012

Panorama da teologia natural na atualidade


Endereço curto: materialismo.net/teologia

O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova.

Pascal


Prólogo

A teologia natural é uma parte da filosofia que procura fundamentar a crença na existência de Deus e determinar seus atributos (poder, sabedoria, bondade etc.) sem recorrer à autoridade da revelação especial, ou seja, unicamente pela razão (pura, no caso do argumento ontológico, ou mesclada com a experiência, no caso dos argumentos cosmológico e teleológico). Foi praticada desde a Antiguidade por filósofos como Platão, Aristóteles, os estoicos, Galeno, Santo Anselmo, Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Clarke, John Ray, Newton e Paley. As chamadas “Cinco Vias” do aquinate são consideradas uma peça paradigmática da teologia natural, em que a existência de Deus é provada por seus efeitos empíricos (obras).

Os argumentos teístas e sua crítica, evidentemente, pressupõem uma doutrina correspondencialista ou realista da verdade. O que significa que a teologia natural (na qual incluo a crítica dos argumentos teístas (1) ) é incompatível com uma perspectiva relativista (a exemplo do pós-modernismo em voga atualmente). Toda prova ou demonstração pressupõe a existência de fatos empíricos ou metafísicos. Nesse sentido, uma proposição é verdadeira se corresponde a fatos objetivos.


A teologia natural como obra da razão

As religiões reveladas têm certos livros que supostamente registram a revelação de Deus aos seres humanos. Os judeus creem que ela foi feita por Jeová a Moisés e a outros componentes do povo de Israel; os cristãos, por intermédio de Cristo e do Espírito Santo; os muçulmanos, que ela foi trazida dos céus pelo anjo Gabriel e dada a Maomé. Nada disso é levado em conta pela teologia natural. Na carta-prefácio das Meditações endereçada aos doutores da faculdade de teologia da Sorbonne, Descartes esclarece a distinção entre a teologia natural e a revelada:

Sempre estimei que estas duas questões, de Deus e da alma, eram as principais entre as que devem ser demonstradas mais pelas razões da Filosofia que da Teologia: pois, embora nos seja suficiente, a nós outros que somos fiéis, acreditar pela fé que há um Deus e que a alma humana não morre com o corpo, certamente não parece possível poder jamais persuadir os infiéis de religião alguma, nem quase mesmo de qualquer virtude moral, se primeiramente não se lhes provarem essas duas coisas pela razão natural. (2)

Descartes observa que, para os descrentes, há uma petição de princípio ou um raciocínio circular no apelo à autoridade da Bíblia. A revelação bíblica assume a existência de Deus, de modo que ela não poderia ser utilizada para demonstrá-la. Daí a necessidade de uma fonte externa de demonstração, a teologia natural. (3) Na mesma carta-prefácio, Descartes afirma que as Meditações foram escritas para cumprir a injunção do Papa Leão X no Quinto Concílio de Latrão (1512-1517). Leão X condenou o fideísmo dos aristotélicos paduanos (seita chefiada por Pietro Pomponazzi) e impôs aos filósofos a tarefa de demonstrar racionalmente as verdades da teologia cristã. Para os aristotélicos da Renascença, adeptos da doutrina averroísta da dupla verdade – segundo a qual a teologia e a filosofia devem coexistir apesar de sua total inconsistência –, a imortalidade da alma não seria passível de uma demonstração racional, de modo que apenas a fé na revelação poderia assegurá-la. Em contrapartida, Descartes pretende mostrar que as duas doutrinas centrais da teologia – a existência de Deus e a imortalidade da alma – podem ser estabelecidas pela luz natural. Pois Descartes julgou, com muita razão, que somente as demonstrações matemáticas seriam capazes de convencer os descrentes.

Ora, os argumentos da teologia natural seriam realmente capazes de transformar a cosmovisão de um ateu? O filósofo da religião britânico Peter Vardy fez a seguinte declaração a respeito das provas da existência de Deus:

Penso que elas são uma perda de tempo [...] Penso que elas são enfadonhas. [...] Realmente penso que elas são enfadonhas porque não penso que a religião se apoia nelas. Você não encontra alguém que diz, “bem, eu pensava que havia 68 por cento de chance de que Deus existe, mas acabei de ler um artigo na The Philosophers’ Magazine que elevou a probabilidade para 71 por cento, então vou virar um jesuíta”. Isso é ridículo. Portanto, realmente penso que elas não são interessantes. (4)

As palavras de Vardy podem provocar risos despropositados em todos aqueles que não têm a disciplina filosófica em alta conta. Na verdade, trata-se de uma observação de caráter psicológico, ou seja, externa à razão. Como filósofos, devemos ir aonde a razão nos obriga a ir. Se ela nos conduz a Deus, que assim seja. Seria antifilosófico formular e aderir aos sistemas de crenças de acordo com as tendências e desejos pessoais. Daí o pré-requisito fundamental de toda investigação racional: é preciso deixar de lado as paixões quando analisamos uma doutrina filosófica. No entanto, além de externa ao domínio da lógica pura, a opinião de Vardy é desmentida por vários testemunhos empíricos. Dois casos merecem ser mencionados.

Na autobiografia Witness, o americano Whittaker Chambers relata o momento de epifania racional em que abandonou o comunismo e o materialismo. Isso ocorreu quando as belas anfractuosidades observadas na orelha de sua filha pequena o levaram a pensar que o acaso (leia-se: a evolução darwiniana) não poderia ter criado um órgão tão bem estruturado. Chambers passou a crer, portanto, na existência de um projetista inteligente. (5)

De modo similar, o filósofo britânico Antony Flew, grande promotor do ateísmo no século XX, recentemente (2004) tornou pública sua conversão ao deísmo, motivada por dois argumentos filosóficos clássicos: o cosmológico e o teleológico (concernente à origem da complexidade do DNA). (6) Aliás, a conversão de Flew ao deísmo (e não ao teísmo) prova que não se trata de uma atitude motivada pelo interesse pessoal, a saber, pela esperança consoladora na vida após a morte ou pelo medo do inferno (aposta de Pascal):

Quando a notícia de que eu havia mudado de ideia sobre Deus foi divulgada pela mídia e pela ubíqua Internet, alguns comentaristas foram rápidos em dizer que minha “conversão” tinha algo que ver com minha idade avançada. Dizem que o medo torna a mente mais densa, e esses críticos concluíram que foi a probabilidade de uma próxima entrada na vida após a morte que provocou minha conversão. É óbvio que essas pessoas não conheciam meus escritos sobre a inexistência de uma vida após a morte, nem minha atual opinião sobre o assunto. [...] Essa é uma área a respeito da qual não mudei de ideia. (7)

Está claro, portanto, que somente um apelo extrafilosófico (psicológico, passional) seria capaz de levar alguém a desmerecer o valor racional das provas da existência de Deus. Tudo se resume à seguinte questão: por que deveríamos acreditar em algo sem evidências? Em outras palavras, o que resta da filosofia quando os méritos intrínsecos da argumentação racional são desconsiderados? A desvalorização das tentativas de provar a existência de Deus revela o ridículo do fideísmo. Este deveria ser o maior motivo de vergonha para um indivíduo que se considera membro da espécie Homo sapiens. “Sapiens” significa “sábio”, e o conhecimento racional começa onde a fé termina. Podemos ter fé em qualquer coisa (de duendes a homeopatia), de modo que a fé religiosa não tem nenhum motivo específico de orgulho. A fé sem evidências equivale à renúncia à razão: algo que, infelizmente, as religiões praticam com contentamento e altivez.


Primazia do problema da existência de Deus

Todos têm uma compreensão mais ou menos clara daquilo que é estudado pela filosofia. De modo que todos deverão concordar que a função da filosofia é procurar respostas para as grandes questões da existência. Qual a origem do Universo? Por que há o ser em vez do nada? O que é a vida, e qual a sua origem? O que é o conhecimento? O conhecimento é possível? Qual a fundação dos valores morais? O que é a consciência? E muitas outras questões igualmente importantes. Mas qual é a questão filosófica mais importante? Naturalmente, trata-se desta: Deus existe? Se esta questão nos deixa de algum modo apáticos ou indiferentes, isso se deve a um mau hábito de pensamento cultivado dentro e fora das universidades.

Para demonstrar a importância da teologia natural, pensemos em algumas gravíssimas consequências que poderiam advir do fato da não existência de Deus. Primeiramente, a questão da existência de um ente supremo está vinculada à questão da imortalidade, a qual deveria despertar o mais profundo interesse. (8) Ao enunciar aquele que pode ser considerado o mais forte “argumento” teísta, muitos teólogos perceberam que a perspectiva de uma aniquilação iminente é radicalmente intolerável para toda consciência honesta. Se a destruição do corpo corresponde ao desaparecimento da individualidade, morrer é como nunca ter vivido, e somente uma aberração poderia encarar o assunto com indiferença. Como observou Pascal, “A imortalidade da alma é uma coisa que nos importa muito e que nos toca tão profundamente que é preciso ter perdido todo sentimento para ficar indiferente de saber o que isto é”. (9)

Vejamos outra consequência que poderia decorrer da afirmação do materialismo. Encontramo-la exposta na obra que tem a função de fundar o sistema científico do pai da filosofia moderna. Na Primeira meditação, Descartes pretende mostrar que o conhecimento objetivo não seria inteiramente confiável na ausência de uma divindade bondosa. Nossas mentes poderiam ter sido criadas por uma entidade maligna (“malin génie”) ou por uma sucessão de circunstâncias fortuitas (hipótese atualmente exemplificada pela evolução darwiniana). Nos dois casos, segundo Descartes, nada poderia assegurar uma correspondência entre nossas representações e o mundo externo. (10) O próprio Darwin chegou a ponderar sobre essa questão numa carta a William Graham de 3 de julho de 1881:

Comigo a dúvida horrível sempre surge de se as convicções da mente humana, as quais foram desenvolvidas a partir da mente dos animais inferiores, são de algum valor ou inteiramente confiáveis. Alguém confiaria nas convicções da mente de um macaco, se houvesse qualquer convicção nessa mente? (11)

Num artigo recente bastante debatido – Como o naturalismo implica o ceticismo –, Alvin Plantinga voltou a defender a visão cartesiana de que nossas faculdades perceptivas e racionais (produzidas, de acordo com o naturalismo evolucionista, pelas forças cegas da matéria) não seriam confiáveis se os seres humanos não fossem criaturas divinas. De acordo com Plantinga, isso ocorre porque a evolução darwiniana das faculdades cognitivas não se importa com a construção de um mecanismo de acesso à verdade objetiva, mas somente com a sobrevivência e o sucesso reprodutivo. (12)

É evidente que nós, como filósofos, não somos obrigados a concordar com esse ponto de vista. O pirronismo pode não ser uma implicação do naturalismo evolucionista. Mas o ato de refutar tal consequência pressupõe que a questão filosófica fundamental é levada a sério pelos que a refutam.

Além das consequências epistemológicas analisadas por Descartes e Darwin, pensemos em outras possibilidades aterradoras vinculadas à não existência de uma consciência cósmica bondosa e providencial. Na verdade, nada impediria que o mundo fosse uma autêntica “máquina do demônio” para todos os seres capazes de sofrer. Do mesmo modo que a evolução darwiniana dos sistemas nervosos engendrou a sensação de dor em toda a sua crueza (e não somente um dispositivo fisiológico indolor de alerta aos perigos), uma sucessão análoga de eventos ateleológicos ou, então, o propósito perverso de um designer inteligente poderiam engendrar seres sencientes atormentados pelo sofrimento infinito. Num dos momentos mais transcendentes de Juliette (ou, quiçá, de toda a literatura), o Marquês de Sade imaginou uma existência de sofrimentos que se prolonga para além do túmulo. No singular sistema teológico cunhado por Saint-Fond, um Deus malévolo cria o Universo e as almas, formadas por uma matéria sutil que sobrevive à desintegração do corpo. O mal é a essência de tudo, de Deus e de sua criação. Daí o destino de tormentos infinitos que aguarda as almas materiais no além. (13) Lembremos que a força dessas hipóteses não diz respeito à possibilidade prática, mas à mera possibilidade lógica.

Recentemente, o físico materialista americano Frank Tipler defendeu a possibilidade da realização empírica dos sonhos escatológicos da teologia em A física da imortalidade: cosmologia moderna, Deus e a ressurreição dos mortos (1994). De acordo com Tipler, o ponto ômega da odisseia humana de dominação das forças naturais (e particularmente da estrutura do espaço-tempo) coincide com a construção de um supercomputador capaz de ressuscitar todas as consciências que já existiram e integrá-las numa existência hedonística digital: uma verdadeira máquina-Deus à la Arthur C. Clarke. Ora, se tal proeza tecnológica é capaz de forjar um paraíso real, o que a impediria de forjar um inferno real e inimaginável? Ademais, a tortura infinita de um único indivíduo senciente já seria o bastante para que a existência fosse considerada irremediavelmente absurda. Ela transgride aquilo que Swinburne considera um “limite para o sofrimento que um agente pode infligir a outro”, (14) ou seja, a morte como um bem criado por um Deus perfeito e soberanamente bondoso. Se não há um dirigente ou um supervisor cósmico; se estamos à mercê de processos naturais destituídos de direcionamento moral, então o mundo poderia ser mil vezes pior do que ele é.

Sabemos que alguns teólogos consideram que o inferno nada mais é do que a morte permanente (entendida como a dissolução da consciência). Assim, o prognóstico de Tipler assinala o triunfo da vontade humana sobre a opacidade da natureza e a derrocada do inferno: “Ora, o último inimigo que há de ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:26). Em contrapartida, ele abre as portas para um pesadelo igualmente temível: a perpetuidade do sofrimento: “Naqueles dias os homens buscarão a morte e não a acharão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles” (Apocalipse 9:6).

Algo da vertigem provocada pela perspectiva do maior sofrimento concebível está na raiz da motivação daqueles que estabelecem uma conexão essencial entre a moralidade e a religião, como se a primeira não fosse possível sem a segunda. A respeito disso costuma-se citar a máxima atribuída ao personagem de Fiódor Dostoiévski, Ivan Karamázov: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Sabemos também que a preocupação com a saúde moral de uma hipotética sociedade de ateus levou Voltaire a sustentar que “se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”.

É evidente que nenhuma dessas considerações seria de utilidade para justificar racionalmente a crença na existência de Deus. Elas apenas demonstram a importância do problema posto pela teologia natural.


Neutralização da questão teológica

As possíveis consequências que acabamos de mencionar – aniquilação da consciência individual, ceticismo, sofrimentos infinitos e inexistência de valores absolutos – implicam de maneira inquestionável a importância filosófica da teologia natural. Não obstante seu significado capital, a questão da existência de Deus costuma deixar a maioria das pessoas indiferentes, ainda que possa amiúde suscitar manifestações de curiosidade descompromissada. Theodor Adorno não deixou de perceber esse fenômeno (nas Meditações sobre a metafísica que constituem a última parte da Dialética negativa) e deu a ele o nome de “neutralização”:

Desapareceu aquilo que, num sentido altamente não ideológico [em sentido marxiano], deveria ser a mais urgente preocupação dos homens. Objetivamente, tornou-se problemático; subjetivamente, a rede social e a permanente pressão excessiva para o ajuste não deixa aos homens nem o tempo e nem a força para pensar sobre isso. As questões [metafísicas e teológicas] não são resolvidas, e nem sequer sua insolubilidade é demonstrada. Elas são esquecidas, e qualquer comentário sobre elas acalenta-as ainda mais profundamente em seu sono mau. (15)

Schopenhauer já havia notado quão pouco a iminência da morte constitui uma preocupação real para os seres humanos imersos em suas ocupações cotidianas. Todos a conhecem abstrata e teoreticamente, e agem como se ela não lhes dissesse respeito:

Só o homem carrega consigo em conceitos abstratos a certeza de sua morte, embora a mesma só o angustie muito raramente, em momentos particulares, quando uma ocasião a presentifica à fantasia. [...] Ninguém se atormenta demasiado com o pensamento da morte inevitável, nunca distante, mas cada um vive como se tivesse de viver eternamente; e isso vai tão longe que poder-se-ia dizer: ninguém tem uma convicção realmente vívida da certeza da própria morte, pois, do contrário, não poderia haver diferença tão grande entre sua disposição e a do criminoso condenado. De fato, cada um conhece aquela certeza in abstracto e teoricamente, no entanto, coloca-a de lado, como às outras verdades teóricas não aplicáveis à práxis, sem absorvê-la na consciência viva. (16)

Tanta tenacidade tem essa indiferença, que Heidegger, depois de Schopenhauer, fez dela um traço da natureza humana. Trata-se da típica atitude imprópria diante da realidade da morte, a qual resulta da tentativa de reprimir a angústia suscitada pela perspectiva de aniquilação da individualidade. Nesse estado, a morte é sempre encarada como um “morre-se” impessoal e inócuo. Ecoando a observação de Heidegger, Adorno afirmou: “Oculto nela [na indiferença em relação às questões metafísicas] está um horror que deixaria os homens sem respiração se eles não o reprimissem”. (17)

Séculos antes de Adorno, Pascal (1623-1662) já discorrera sobre um dos maiores problemas de sua época: a intrigante indiferença em relação à grande questão da existência, e o desproporcional interesse pelos assuntos mais mesquinhos: dinheiro, honra, vida alheia, lazer, vaidade, falatórios, conversas fúteis, diversão e investigações irrelevantes:

Nada é tão importante para o homem como a sua condição, e nada lhe é tão temível como a eternidade. Por conseguinte, caso se achem homens indiferentes à perda do próprio ser e ao perigo de uma eternidade na miséria, isso não é natural. Procedem de modo inteiramente diverso em relação a todas as outras coisas: temem até as mais insignificantes, e as preveem, e as sentem. O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, em um mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade pelas maiores. É um encantamento incompreensível e um adormecimento sobrenatural, marcando uma força todo-poderosa que os move. (18)

No âmbito acadêmico, o fenômeno detectado por Pascal é da maior gravidade: trata-se de esquecer as questões fundamentais que podem ser postas ao intelecto humano, como se a vida e os debates universitários constituíssem domínios absolutamente separados. Como resultado dessa indiferença, a irrelevância domina as atividades acadêmicas. Isso é particularmente visível nos ambientes em que o relativismo pós-moderno tornou-se o discurso “politicamente correto”.

O pós-modernismo é uma das três grandes forças que configuram o campo intelectual contemporâneo (ao lado do teísmo e do iluminismo materialista). A atitude que o caracteriza é o relativismo, ou seja, a negação da verdade objetiva. Tudo se reduz a uma diversidade de discursos, e não há um discurso privilegiado, de modo que a ciência não é epistemologicamente superior a uma mitologia qualquer. Em outras palavras, a realidade é um construto social. A linguagem cria a realidade, e o que é real para um grupo linguístico pode não ser real para outro. Não é difícil compreender, assim, que toda argumentação racional seja desqualificada pelos pós-modernos, dentre os quais podemos citar Derrida, Lacan, Deleuze, Foucault, Lyotard, Baudrillard, Thomas Kuhn, Rorty e outros. Todos são seguidores de Nietzsche, o qual pode ser considerado um precursor do pós-modernismo:

Contra o positivismo que fica preso ao fenômeno: “só há fatos”, eu diria: não, justamente fatos é o que não há, e sim apenas interpretações. Não podemos constatar nenhum fato “em si”: talvez seja um absurdo querer algo assim. (19)

Os pós-modernos são muito ciosos do apotegma de Pilatos: “Que é a verdade?” (João 18:38). Nos atuais cursos de humanidades, o indivíduo que defende uma visão como mais do que uma mera opinião pessoal é condenado pela ética imposta pelo establishment pós-moderno: “Nada pode ser provado, a verdade não existe, as pretensões objetivas da razão são ilusórias, o politicamente correto é deixar cada um acreditar no que deseja”. Assim, se tudo é uma questão de gosto pessoal, o pós-modernismo solapa a possibilidade do debate racional. Consequentemente, a questão teológica é neutralizada.

O momento é oportuno para algumas palavras sobre certa “ciência” ainda em voga em muitos nichos acadêmicos, a semiótica pós-moderna. Num artigo tocante publicado na Folha de São Paulo de 20 de novembro de 2011, “Complicar é uma ciência”, o americano Steven Johnson narra seus anos de imaturidade intelectual como estudante de semiótica na década de 1980, época que assistiu ao florescimento de um charlatanismo filosófico vindo da França. Seu testemunho é valioso para todos os que têm esperanças no Iluminismo. Quando jovem, Johnson enxergava uma virtude na falta de ideias transmitida em estilo ininteligível e intencionalmente alambicado. Quando amadureceu, passou a enxergar nas ciências da natureza, outrora negligenciadas, uma fonte de maravilhas, clareza e verdade: “Hoje, passo mais tempo aprendendo com os “insights” da ciência do que desconstruindo suas reivindicações de verdade. Fui pouco a pouco sufocando o desejo de impressionar com obscuridade proposital”. Sua crítica é demolidora da imbecilidade disfarçada de profundidade dos pós-modernos, e extensiva ao analfabetismo científico orgulhosamente defendido nos cursos de humanidades. Se os estudantes desejam enfrentar dificuldades teóricas – reais, e não fabricadas –, por que não passar ao estudo de uma disciplina como a física? É notória a extrema dificuldade que acompanha todas as tentativas de decifração da natureza.

Ao lado do pós-modernismo, outra influência nefasta deve ser reconhecida, a qual foi exemplificada pelo posicionamento de Stephen Jay Gould. Em Rocks of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life (1999), o paleontólogo americano defende a famosa tese segundo a qual ciência e religião constituem “magistérios não interferentes” (MNI, ou NOMA no original em inglês: “non-overlapping magisteria”). A ciência lidaria com o estudo da natureza, e a religião, somente com a moralidade. Por meio de seu separatismo, Gould contribui de modo significativo para a neutralização da questão teológica, alijando-a do mundo real e de todas as investigações empíricas, num domínio etéreo, inacessível e respeitoso. Ao mesmo tempo em que conserva sua pureza, sela sua irrelevância. “Falem bem, falem mal, mas falem de mim”. Esta frase indica de que maneira os agnósticos e os religiosos moderados são os verdadeiros amigos do estado de indiferença em relação à questão filosófica fundamental. Os primeiros, na medida em que subscrevem ao non liquet kantiano, o qual reaparece na doutrina separatista de Gould; os segundos, na medida em que fingem não enxergar as implicações empíricas das crenças religiosas (na questão da origem da vida e das adaptações orgânicas, por exemplo).

Decorre daí o papel salutar desempenhado pela militância ateia e pelo fundamentalismo religioso na atual conjuntura cultural. No acirramento dos conflitos reside a esperança da superação da letargia intelectual e da regeneração da filosofia (compreendida em sentido científico). Queremos uma filosofia relevante, que aborde as questões mais significativas, e não uma prática universitária bastarda que se contenta com as migalhas deixadas por uma teologia irreflexiva. Ou, no mínimo, queremos que o agnosticismo seja trazido para a discussão, para que o mesmo possa justificar-se perante a filosofia. Com efeito, advogar a insolubilidade é, de alguma forma, pronunciar-se sobre as questões mais significativas – mesmo que seja para julgá-las insolúveis. Mas o atual establishment acadêmico bloqueia até mesmo a discussão sobre a impossibilidade de discutir tais questões. Começam a falar do agnosticismo e a defendê-lo apenas quando atiçados pelos “impertinentes”: evangélicos ateus e religiosos.

Apesar das mais significativas manifestações da filosofia ateísta no século XX – o positivismo lógico, (20) Russell, Sartre etc. –, a neutralização do problema da existência de Deus persistiu na maior parte dos ambientes acadêmicos. Quando a principal questão humana é deixada de fora da universidade, todos os debates caem na nulidade e no ridículo. Prova disso é a proliferação de trabalhos acadêmicos (frequentemente alimentados pela licenciosidade pós-moderna) sobre cantigas de roda, o lúdico, o folclore e a “semiótica na obra de Monteiro Lobato”, como se houvesse um divórcio entre as pesquisas universitárias e as questões realmente importantes. Numa época tão fértil em descobertas estarrecedoras das ciências da natureza, as quais ultrapassam a imaginação do maior dos visionários, qual tolo poderia se impressionar com a desconstrução derridiana ou com a reabilitação das narrativas mitológicas apregoada pelo multiculturalismo?

Curiosamente, o fenômeno não se restringe às chamadas “ciências humanas”: muito da física atual se resume ao trato de questões periféricas e de importância reduzida. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo de 30 de maio de 2010, Mário Novello, grande cosmólogo brasileiro, denuncia a irrelevância filosófica de um amplo segmento das pesquisas científicas desenvolvidas na atualidade: “Hoje em dia a cosmologia virou uma coisa trivial, ridícula, simplesmente saber qual porcentagem de matéria dessa categoria ou daquela tem no Universo. Isso não tem interesse nenhum. Quando começa a entrar nesse estágio, é o momento de mudar”. Novello, por sinal, é um dos promotores da ideia de um Universo eterno e dinâmico, contrariando a crença no big bang como o marco inicial da existência da matéria e da energia. É evidente que a derrocada do modelo do big bang (com singularidade) retira das mãos dos apologetas um instrumento útil na tentativa de conciliar a cosmologia moderna e o relato do Gênesis.

Ademais, inúmeros biólogos tendem a ignorar as implicações materialistas da teoria da evolução e agem como se o darwinismo não desafiasse as mais caras crenças religiosas da humanidade. É fato que a teoria da evolução por seleção natural consiste no ataque mais letal já desferido contra a ideia de um criador sobrenatural do ser humano e das demais espécies (afinal, é tão difícil enxergar que a seleção natural é o oposto da ideia de uma intervenção sobrenatural?). Mas quantos cientistas, estudantes e professores, vítimas da alienação, estão aptos a reconhecer essa verdade? Sabemos que muitos procuram mascarar de forma covarde e infantil a incompatibilidade entre o darwinismo e a crença na criação sobrenatural dos seres vivos. Com efeito, um olhar filosófico e imparcial logo discerne que o evolucionismo científico só é compatível com o sistema deísta (segundo o qual Deus é a causa primeira que estabelece as leis da física e depois abandona a natureza à sua própria sorte. O teísmo, por outro lado, sustenta a existência de um Deus que intervém no curso dos fenômenos naturais, como o Deus da Bíblia).

Tomemos como exemplo o estudo de um ramo da biologia, a anatomia. A maioria dos estudantes perdeu a capacidade de perceber as verdades básicas e fascinantes que expressam a alma dessa disciplina. De modo que ela se transforma em algo meramente útil (do ponto de vista medicinal) ou num passatempo estético apto a entreter as mentes infantis. Hoje em dia, todos estão cientes dos avanços da medicina, e toda criança folheia um livro de anatomia com uma curiosidade difusa. Mas, para além desses interesses de importância secundária, o que essa ciência tem a revelar para a edificação de uma cosmovisão de extrema relevância no campo filosófico? Dois enfoques opostos e complementares caracterizam a ciência morfológica: a investigação das funcionalidades e a investigação da conformidade estrutural a um plano básico. Em primeiro lugar, a anatomia, como estudo teleológico das funcionalidades orgânicas (olhos para ver, dentes para mastigar, asas para voar etc.), revela a inventividade da evolução da matéria na luta contra a primeira natureza: o mundo meramente físico-químico. Considerada com atenção, toda estrutura orgânica é algo que não deveria existir: a irrupção da liberdade contra a ordem do ser (entendido como Deus ou natureza). Assim como uma rodovia que conecta duas cidades distantes é algo que não deveria existir (pois, se fosse do desígnio de Deus, as duas regiões estariam em contato imediato), uma estrutura vital organiza a matéria e canaliza as forças da natureza de modo a obter um resultado não previsto na ordem do ser. Em segundo lugar, a anatomia, como estudo das disteleologias (homologias e órgãos vestigiais), depõe contra a existência de um artífice cósmico inteligente e mostra que os seres vivos são oriundos de acidentes da matéria. De modo que somente um idiota ficaria indiferente à admirável perspectiva filosófica descortinada pelas ciências da natureza.

De forma consciente ou inconsciente, todos os debates giram em torno da questão da existência de Deus.


Dois fautores do ateísmo antifilosófico: Nietzsche e Marx

Para superar o estado de indiferença em relação ao problema fundamental da existência, não seria adequado recorrer a dois grandes fautores do ateísmo contemporâneo. Nietzsche e Marx, pensadores que gozam de amplo prestígio nos debates universitários da atualidade, jamais elaboraram uma crítica explícita da existência de uma divindade. Ambos são promotores da falácia genética, seja ela de cunho psicologista (Nietzsche) ou sociologista (Marx). A falácia genética consiste no estabelecimento de uma conexão entre a origem de uma ideia e sua validade. Assim, para Nietzsche, a análise das tendências psicológicas dos indivíduos é utilizada como pressuposto da crítica da religião, independentemente do exame do valor intrínseco das crenças. Uma passagem de Aurora expõe com bastante clareza a atitude teórica que governa todas as análises de Nietzsche no campo da religião: “Outrora buscava-se demonstrar que não existe Deus – hoje mostra-se como pôde surgir a crença de que existe Deus e de que modo essa crença adquiriu peso e importância”. (21) Em outras palavras, Nietzsche rejeita como obsoleta a discussão racional da existência de Deus. Suas análises limitam-se a sustentar que a religião (particularmente a cristã) é produto de determinados estados psicológicos “nocivos”. Ele afirma no prólogo de A gaia ciência:

Para um psicólogo, poucas questões são tão atraentes como a da relação entre filosofia e saúde, e, no caso de ele próprio ficar doente, levará toda a sua curiosidade científica para a doença. Pois, desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa: mas há aqui uma notável diferença. Num homem são as deficiências que filosofam, no outro as riquezas e forças. (22)

Ora, mas a filosofia consiste justamente na formulação e na análise estritamente racionais dos argumentos. Nietzsche, portanto, não foi um filósofo. Melhor seria chamá-lo de poeta: um indivíduo que escreve ao sabor das paixões e das impressões subjetivas. Todo filósofo sabe que uma razão subjetiva, particular, pessoal ou psicológica seria uma não razão, ou seja, uma opinião privada. Com efeito, a lógica e a ciência não podem ser reduzidas à condição de uma mera opinião ou achismo. Nem mesmo o arquicético Descartes foi capaz de submeter as verdades lógico-matemáticas à dúvida, sendo obrigado a associá-las à evidência do próprio cogito. (23) Quem afirma que “tudo é relativo” enuncia uma proposição que pretende ser universalmente válida. Como declara Tomás de Aquino numa eloquente refutação do relativismo, “é evidente por si que a verdade existe; pois, aquele que lhe nega existência concede que ela exista: pois se a verdade não existe, é verdadeiro que a verdade não existe”. (24)

Além disso, seria ridículo pensar que as evidências empíricas podem ser relativizadas, como se, por exemplo, o heliocentrismo fosse verdadeiro apenas para algumas pessoas ou formações sociais – no caso de Nietzsche, indivíduos sãos ou doentes. Há evidências suficientes para sustentá-lo, e somente a descoberta de novas evidências poderia lançar dúvidas sobre sua veracidade. Por fim, quem rejeita todas as evidências torna-se incapaz de distinguir a verdade do erro. Consequentemente, o relativismo (psicológico ou sociológico) é radicalmente insustentável.

Em suma, para Nietzsche, o cristianismo é um produto do ressentimento. Mas um produto do ressentimento poderia ser verdadeiro. Nietzsche não formulou, portanto, os fundamentos racionais de seu ateísmo. De modo que a porta permanece aberta para a edificação de uma religião oriunda de uma condição psicológica diversa do ressentimento. Isso, evidentemente, é insuficiente para uma justificação filosófica do ateísmo. Não é difícil perceber que o psicologismo dá apoio aos simpatizantes das ideias de Nietzsche que não pretendem abandonar as crenças religiosas. Na ausência de uma crítica explícita e inequívoca da existência de Deus, torna-se fácil afirmar que as ponderações de Nietzsche só dizem respeito a uma “forma degenerada” de cristianismo. Com efeito, seria ridículo imaginar que o ateísmo racionalista e inequívoco de um Holbach pudesse ser conciliado com formas “sadias” de religiosidade, como se ele estivesse necessariamente atrelado a uma crítica da aliança entre religião e feudalismo.

Vejamos agora o caso de Marx. Seria injusto classificá-lo em conjunto com o autor supracitado, dada a excelência filosófica de sua teorização no campo da economia política. Mas o fato é que Marx promove a falácia genética ao sustentar, com base na teoria da projeção antropológica de Feuerbach, que a religião é um reflexo da estrutura socioeconômica. A seguinte passagem de sua obra magna, O capital, é bastante ilustrativa:

O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações sociais claras entre os homens e entre estes e a natureza. A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. (25)

Ora, a lógica mais elementar exige que a teoria antropológica do reflexo seja precedida da demonstração da falsidade das ideias teológicas, algo que não encontramos na obra marxiana. No entanto, uma característica separa Marx de outros perpetradores da falácia genética: diferentemente de Nietzsche, Marx pressupõe como válida e essencialmente concluída a crítica racionalista da religião, em vez de simplesmente rejeitá-la como antiquada. Ele escreve na Crítica da filosofia do direito de Hegel: “Na Alemanha, a crítica da religião foi completada no essencial; e a crítica da religião é o pré-requisito de toda crítica”. (26) Esta frase delineia a totalidade do projeto filosófico marxiano. Marx toma como um dado a crítica da religião, e dispõe-se a realizar a tarefa restante, a crítica da economia política. Assim como Nietzsche, Marx não se dá ao trabalho de investigar criticamente os argumentos dos teólogos naturais e de fundamentar filosoficamente o ateísmo. Pois ele assume que a crítica da religião foi realizada pelos materialistas das Luzes (Meslier, Holbach, Diderot...), pela Alta Crítica alemã (Bauer, Ruge, Strauss...), pelos materialistas alemães (Moleschott, Büchner, Vogt...), por Darwin (a destruição definitiva do argumento do desígnio na esfera biológica) e por Feuerbach, seu grande mentor filosófico. Se a premissa de toda crítica é a crítica da religião, a crítica propriamente marxiana é a crítica do modo de produção capitalista, e não da religião.

Na Crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx enuncia a célebre frase tantas vezes repetida como a suma de seu pensamento religioso: “Ela [a religião] é o ópio do povo”. (27) Ora, poderíamos retrucar, o ópio não seria menos verdadeiro por ser um entorpecente, assim como a religião não seria menos verdadeira por ser o reflexo de um sistema socioeconômico injusto. A esfera da lógica e das evidências empíricas não deve ser confundida com a esfera dos condicionamentos sociais. Decorre daí a tendência (manifesta especialmente nos teólogos da libertação) a considerar que a crítica marxiana da religião atinge somente determinadas formas “degeneradas” da mesma.

É uma infelicidade que o ateísmo seja com tanta frequência associado a nomes como Nietzsche e Marx: pensadores que jamais se empenharam em formular uma crítica imanente das ideias teológicas. Resulta daí que os verdadeiros pensadores da tradição ateísta sejam amplamente ignorados nas universidades atuais. Refiro-me a personagens como Meslier, Holbach, Moleschott, Büchner, Vogt, Sartre, os positivistas lógicos e vários outros da tradição analítica e do movimento chamado de “novo ateísmo”. Holbach, autor da exposição do ateísmo materialista mais completa e consistente (Sistema da natureza, 1770), é um desconhecido para os estudantes. Não nos esqueçamos também de mencionar a decisiva contribuição de Darwin para a destruição do argumento teísta mais insidioso: o teleológico, e de pensadores que, embora não estritamente ateístas, elaboraram críticas magistrais da credibilidade das escrituras sagradas. Vem-me à mente o nome de David Strauss, chefe da escola da Alta Crítica e maior responsável pela destruição da tradição bíblica cristã. De fato, todos os escritos de Nietzsche parecem sofrer de nanismo teórico quando comparados à Vida de Jesus (1835). No entanto, todos sabemos quem costuma ser incensado nas universidades.


Tendências contra a neutralização surgidas no mundo anglo-saxônico

Não deixemos de observar, entretanto, algumas manifestações de pensamento modernas que contrariam a tendência à neutralização do problema teológico. Refiro-me ao notável florescimento da filosofia da religião na tradição analítica, ao movimento estadunidense do intelligent design e ao chamado “novo ateísmo”. Analisemos sucintamente cada uma dessas contribuições.

Várias obras importantes sobre a teologia natural têm sido escritas desde meados da década de 1970 por filósofos da tradição analítica. Citemos, por exemplo, do lado teísta, Richard Swinburne, Alvin Plantinga e William Lane Craig; do lado ateísta, Quentin Smith, Theodore Drange e Graham Oppy.

Os principais argumentos da teologia natural são repropostos e investigados por filósofos analíticos: Plantinga formula uma nova versão da prova ontológica de Anselmo; Craig retoma uma versão islâmica medieval da prova cosmológica, atualizando-a à luz da moderna cosmologia do big bang; e o argumento teleológico é refinado e defendido por Richard Swinburne, dentre outros. Todos foram e continuam a ser submetidos a severas críticas e a um escrutínio meticuloso por seus detratores.

Uma tentativa de reabilitação da crença na possibilidade e na existência de milagres também é digna de nota na atual tradição analítica, depois de séculos de dominância da crítica modernista de Spinoza, Hume, Strauss e dos materialistas. A historicidade da ressurreição de Jesus, o maior dos milagres da tradição cristã, tem sido advogada por filósofos como Craig e Swinburne.

Por outro lado, o positivismo lógico não está morto. Filósofos analíticos como Michael Martin e Kai Nielsen continuam a criticar as proposições teológicas metafísicas a partir de um refinamento dos pressupostos teóricos outrora formulados por Schlick, Carnap e Ayer.

É possível verificar também na tradição analítica um intenso debate acerca do clássico problema do mal. Conforme uma formulação encontrada na Suma teológica de Tomás, o problema do mal pode ser enunciado da seguinte maneira:

Parece que Deus não existe. [...] Porque de dois contrários, se um é infinito, o outro deixa de existir totalmente. Ora, é isso que se entende com o nome de Deus, isto é, que se trata de um bem infinito. Assim, se Deus existisse não haveria nenhum mal. Ora, encontra-se o mal no mundo. Logo, Deus não existe. (28)

Trata-se da constatação da aparente inconsistência entre a existência de um Deus infinitamente bondoso, poderoso e sábio e o mal (provocado por agentes humanos ou causas naturais) existente no mundo. Com base nessa discrepância, vários filósofos analíticos propuseram reformulações do antigo argumento ateísta do mal. Michael Tooley e Theodore Drange, por exemplo, argumentam que a existência de uma quantidade tão grande de sofrimento desnecessário de pessoas ou animais provê uma forte evidência de que Deus não existe. Com efeito, não há razão para imaginarmos que uma grande parte desse sofrimento é necessária. Em contrapartida, antigas versões de teodiceia foram igualmente reformuladas, como a de Swinburne, a qual retoma a solução outrora proposta por Agostinho, Tomás e Leibniz: todo mal pode ser justificado afirmando-se que Deus permite apenas o mal a partir do qual um bem maior pode ser obtido. (29) Trata-se, portanto, de uma negação do mal gratuito, algo extremamente difícil de ser defendido diante de uma ocorrência como o holocausto nazista. E seria legítimo perguntar, por exemplo, pelo propósito de uma quantidade absurda de sofrimento que aflige os animais não humanos. A questão torna-se ainda mais aguda quando temos em mente a infinidade de seres sencientes que foram destruídos de forma terrível durante centenas de milhões de anos, muito antes do surgimento dos humanos na Terra.

Vejamos outra contribuição atual para a retomada de um debate filosófico consistente e vigoroso, o movimento estadunidense do intelligent design, definido pela oposição ao materialismo darwiniano. Atrevidos e desrespeitosos (no bom sentido), os partidários da última encarnação do argumento biológico do desígnio afrontam diretamente a neutralização da questão teológica e a apatia agnóstica do establishment acadêmico. O fato é evidente sobretudo nas diversas querelas judiciais que, nos EUA, costumam opor os advogados do intelligent design aos educadores e cientistas pusilânimes que ignoram (ou fingem ignorar) as implicações ateístas do darwinismo.

O argumento teleológico ou do desígnio é o mais popular dos argumentos teístas. Em sua quinta e última via para provar a existência de Deus, Tomás argumenta que o mundo empírico exibe sinais de um design inteligente, ou seja, de adaptações e propósitos (teleologia) que demandam a existência de um projetista: “Aquilo que não tem conhecimento não tende a um fim, a não ser dirigido por algo que conhece e que é inteligente, como a flecha pelo arqueiro. Logo, existe algo inteligente pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas ao fim, e a isso nós chamamos Deus”. (30) Mas a formulação mais famosa do argumento do desígnio é a de Wiliam Paley, exposta em Natural Theology (1802). O reverendo inglês dá a primazia ao estudo das adaptações orgânicas, e sabemos que A origem das espécies (1859), de Darwin, pode ser considerada uma resposta materialista à questão levantada em Natural Theology: qual a origem da maravilhosa complexidade funcional inerente ao mundo orgânico?

Os atuais proponentes do intelligent design se empenham para colocar o antigo argumento do desígnio em bases científicas mais sólidas e atuais. Em 1996, o bioquímico americano Michael Behe publicou A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Segundo Behe, algumas estruturas biológicas são “irredutivelmente complexas”, ou seja, compostas de partes que não poderiam ser removidas sem impossibilitar o funcionamento do sistema. Assim, os componentes de um sistema irredutivelmente complexo não poderiam surgir por meio da seleção natural de pequenas variações úteis à sobrevivência do organismo. Behe forneceu os exemplos do flagelo bacteriano e da coagulação sanguínea. Em suas palavras,

Com irredutivelmente complexo quero dizer um sistema único composto de várias partes compatíveis, que interagem entre si e que contribuem para sua função básica, caso em que a remoção de uma das partes faria com que o sistema deixasse de funcionar de forma eficiente. Um sistema irredutivelmente complexo não pode ser produzido diretamente (isto é, pelo melhoramento contínuo da função inicial, que continua a atuar através do mesmo mecanismo) mediante modificações leves, sucessivas, de um sistema precursor, porque qualquer precursor de um sistema irredutivelmente complexo ao qual falte uma parte é, por definição, não funcional. (31)

Em 1999, o filósofo e matemático americano William Dembski publicou Intelligent Design: The Bridge between Science & Theology. Nesta obra, Dembski sustenta que a informação genética contida nos sistemas vivos não poderia ser gerada pelas forças cegas da natureza. Trata-se de uma aplicação da chamada “lei da conservação de informação”, uma criação do próprio Dembski. De acordo com essa lei, a quantidade de informação que sai de um sistema físico jamais pode exceder a quantidade de informação introduzida. De modo que as enormes quantidades de informação contidas nos sistemas vivos deveriam ser atribuídas a um designer inteligente externo ao sistema da natureza.

Apesar dos rechaços judiciais das tentativas de implantação do intelligent design no currículo das escolas públicas dos EUA, o movimento parece ganhar força. Em 2012, tivemos a certeza de que definitivamente a oposição ao materialismo darwiniano tornou-se mainstream em termos acadêmicos. Refiro-me à publicação de Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature Is Almost Certainly False, do respeitável filósofo ateu Thomas Nagel, autor de uma das obras mais importantes da tradição analítica no século XX: Visão a partir de lugar nenhum. Nagel defende que os processos ateleológicos são incapazes de explicar uma série de fenômenos naturais, tais como a origem da vida, as adaptações orgânicas e as propriedades mentais. Em suas palavras, “É prima facie altamente implausível que a vida como a conhecemos seja o resultado de uma sequência de acidentes físicos juntamente com o mecanismo de seleção natural”. (32) Resta saber apenas como um ateu poderia coerentemente propor a assunção de processos materiais teleológicos ou dirigidos. Uma inteligência ordenadora sempre será uma inteligência, esteja ela dentro ou fora do Universo. E o ateísmo cosmológico consiste justamente na afirmação do caráter derivado da inteligência (um elo tardio da evolução da matéria orgânica). Mas, à parte esse problema, a publicação do livro de Nagel revela com clareza a falácia promovida por religiosos moderados e professores de biologia conciliadores, segundo a qual a oposição ao darwinismo é própria de rednecks americanos incultos. Na realidade, a maioria dos adeptos “esclarecidos” da evolução defende uma forma de evolução teísta, pois poucos admitem o processo inteiramente materialista proposto por Darwin e defendido pela biologia moderna. Daí o truque desonesto das pesquisas de opinião pública, o qual consiste em afirmar que a adesão ao evolucionismo científico é majoritária.

Para terminar, mencionemos a recente onda de publicações literárias de ateístas militantes. Em 2004, o americano Sam Harris publica A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão, aquele que seria o primeiro de uma série de seis best-sellers ateístas caracterizados por uma crítica mais severa e intransigente da religião. O movimento foi batizado de novo ateísmo, e seu marco inicial foi motivado principalmente pelos eventos de 11 de setembro de 2001, os quais Harris atribui aos preceitos da religião islâmica. Seguiu-se em 2006 a publicação de um segundo livro de Harris, Carta a uma nação cristã, o qual denuncia sobretudo a irracionalidade religiosa que campeia nos EUA.

No mesmo ano surge a peça mais célebre do movimento, Deus, um delírio, do biólogo e popularizador da ciência britânico Richard Dawkins. Trata-se essencialmente de um exame científico da hipótese da existência de Deus – consequentemente, de um reflexo invertido das alegações empiristas do intelligent design. Notável é também a tentativa de Dawkins de contribuir para a dissolução do estigma social vinculado ao ateísmo.

Ainda em 2006, o filósofo americano Daniel Dennett publica Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural. A obra destoa das outras produzidas pelos novos ateus, embora seja usualmente incluída no movimento, talvez em virtude das contribuições pretéritas do autor no campo da filosofia ateísta. Infelizmente, em Quebrando o encanto Dennett não fornece nenhum argumento para o ateísmo e investiga a questão irrelevante ou falaciosa da origem evolucionária da religião.

Em 2007 aparece God: The Failed Hypothesis, do físico americano Victor Stenger. O autor argumenta que um conjunto de asserções teológicas dotado de significado empírico – como o judaico-cristão-islâmico – pode ser cientificamente testado e infirmado. Por fim, em Deus não é grande, também publicado em 2007, o britânico Christopher Hitchens investiga a influência maligna da religião no mundo e procura demonstrar que as alegações religiosas são insustentáveis à luz da racionalidade científica.

Em linhas gerais, o novo ateísmo pode ser caracterizado pelo ponto de vista científico (empírico) aplicado à crítica das alegações teológicas e pela denúncia intransigente dos males causados pela religião.

Phillip Johnson, um dos pais fundadores do movimento do intelligent design, compartilha do juízo de Adorno sobre a neutralização da teologia natural na sociedade moderna, mas vê com esperança a onda recente de publicações de best-sellers a favor do ateísmo. Para Johnson, o novo ateísmo tem o poder de revigorar as discussões acadêmicas por meio da reintrodução em âmbito universitário da questão da existência de Deus: “Vi o tremendo surto de vendas de livros de autores ateístas não como um motivo de lamentação, mas como um desafio que poderia tornar a vida universitária mais interessante do que ela tem sido e forçar os cristãos a esclarecer seu pensamento”. (33) Ele acrescenta:

A mensagem implícita do currículo universitário há algumas décadas tem sido que Deus não é um assunto digno de ser pensado. [...] O tumulto resultante [das publicações dos novos ateus] legitima a discussão crítica de questões que têm sido varridas para debaixo do tapete por décadas pelas classes intelectuais. (34)


Conclusão

Em Desvendando o arco-íris, Dawkins desenvolveu a crítica de “um anestésico da familiaridade, um sedativo do comum, que entorpece os sentidos e oculta a maravilha da existência”. (35) Assim como Adorno, Dawkins denuncia o estado de indiferença em relação à maravilha e ao horror da existência e às questões filosóficas fundamentais. De maneira análoga, Heidegger procurou chamar novamente a atenção adormecida para o horror da finitude pessoal e para o mistério da existência. Tanto hoje como no tempo de Pascal, surpreende a tendência a ocultar os principais problemas que podem ser postos ao intelecto humano – com gracejos, falatórios, curiosidade descomprometida e apreço a assuntos irrelevantes. Ora, a questão filosófica mais importante é a questão da existência de Deus, investigada pela teologia natural.

Mas os tempos são propícios para uma mudança que ocorre com o surgimento de uma nova sensibilização. Alguns sinais auspiciosos podem ser notados. Nos últimos tempos vimos, por exemplo, um acirramento do fundamentalismo religioso: basta mencionar os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e as guerras no Afeganistão e no Iraque, motivadas pela religiosidade de George Bush e Tony Blair. De outro lado temos as guerras culturais promovidas pelos criacionistas, nos campos judicial (pela inclusão da perspectiva biológica antimaterialista no currículo escolar) e acadêmico (contra o establishment darwinista). Para completar o quadro, citemos o reflexo invertido do evangelismo ateu e um interessante desenvolvimento da filosofia analítica, o qual parece ter reabilitado a centralidade do problema teológico. Tudo isso pode favorecer grandemente a reflexão filosófica e contribuir para a superação da indiferença em relação à questão da existência de Deus.


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Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) A ateologia natural seria, então, como a contraparte lógica da teologia natural, a tentativa de mostrar que a existência de Deus é impossível ou improvável.

(2) R. DESCARTES, Meditações, p. 75.

(3) Ibidem.

(4) Apud J. BAGGINI & J. STANGROOM (editores), What Philosophers Think, p. 115.

(5) M. GARDNER, Proofs of God. In: N. WARBURTON, Philosophy: Basic Readings, p. 44.

(6) “Devo salientar que tenho descoberto o Divino de modo puramente natural, sem recorrer a quaisquer fenômenos sobrenaturais. Tem sido o exercício do que, tradicionalmente, é chamado de teologia natural. Não tem nenhuma ligação com qualquer uma das religiões estabelecidas. Eu também não alego ter tido qualquer experiência pessoal a respeito de Deus nem do que pode ser descrito como sobrenatural ou miraculoso. Resumindo, minha descoberta do Divino tem sido uma peregrinação da razão, não da fé”. Cf. A. FLEW & R. VARGHESE, Deus existe: as provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada, 2008, p. 98.

(7) A. FLEW & R. VARGHESE, Deus existe: as provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada, p. 24.

(8) Unamuno relata o seguinte episódio: “Um dia, falando com um camponês, propus-lhe a hipótese de que houvesse, de fato, um Deus que rege o céu e a terra. Consciência do Universo, mas que, apesar disso, a alma de cada homem não seria imortal no sentido tradicional e concreto. E ele me respondeu: ‘Então, para quê Deus?’”. Cf. M. UNAMUNO, Del sentimiento trágico de la vida, p. 25.

(9) B. PASCAL, Pensamentos, p. 13.

(10) R. DESCARTES, Meditações, p. 127.

(11) Apud A. PLANTINGA, Warrant and Proper Function, p. 219.

(12) A. PLANTINGA, How naturalism implies skepticism. In: ZAGZEBSKI, L.; MILLER, T. D. Readings in Philosophy of Religion, pp. 636-647.

(13) Marquês de SADE, Histoire de Juliette, Œuvres III, p. 535.

(14) R. SWINBURNE, Providence and the Problem of Evil, p. 213.

(15) T. ADORNO, Negative Dialectics, p. 395.

(16) A. SCHOPENHAUER, O mundo como vontade e como representação, pp. 365-366.

(17) T. ADORNO, Negative Dialectics, p. 396.

(18) B. PASCAL, Pensamentos, p. 15.

(19) F. NIETZSCHE, Fragmentos finais, p. 164.

(20) O positivismo lógico deve ser compreendido como um ateísmo em sentido lato, pois seus partidários sustentam que as proposições teológicas metafisicas não são nem falsas nem verdadeiras, mas desprovidas de sentido.

(21) F. NIETZSCHE, Aurora, p. 71.

(22) F. NIETZSCHE, A gaia ciência, p. 10.

(23) No final da Quinta meditação (e em várias outras passagens de suas obras), Descartes esclarece que a dúvida cética não atinge legitimamente a apreensão direta das noções matemáticas (essências), mas apenas a memória de intuições que saíram do foco imediato da atenção: “Como, por exemplo, quando considero a natureza do triângulo, conheço evidentemente, eu que sou um pouco versado em Geometria, que seus três ângulos são iguais a dois retos e não me é possível não acreditar nisso enquanto aplico meu pensamento à sua demonstração; mas, tão logo eu o desvie dela, embora me recorde de tê-la claramente compreendido, pode ocorrer facilmente que eu duvide de sua verdade caso ignore que há um Deus”. Cf. R. DESCARTES, Meditações, p. 127.

(24) Suma teológica, Questão 2, Artigo 1.

(25) K. MARX, O capital, p. 101.

(26) K. MARX, Critique of Hegel’s “Philosophy of Right”, p. 131.

(27) Ibidem.

(28) Suma teológica, Questão 2, Artigo 3.

(29) De acordo com Tomás, “Deve-se dizer com Agostinho: ‘Deus, soberanamente bom, não permitiria de modo algum a existência de qualquer mal em suas obras, se não fosse poderoso e bom a tal ponto de poder fazer o bem a partir do próprio mal’. Assim, à infinita bondade de Deus pertence permitir males para deles tirar o bem”. Suma teológica, Questão 2, Artigo 3.

(30) Suma teológica, Questão 2, Artigo 3.

(31) M. BEHE, A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução, p. 48.

(32) T. NAGEL, Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature Is Almost Certainly False, p. 6.

(33) P. JOHNSON & J. M. REYNOLDS, Against All Gods: What’s Right and Wrong About The New Atheism, p. 8.

(34) Ibid., pp. 8-9.

(35) R. DAWKINS, Desvendando o arco-íris, p. 24.