Precisamos esclarecer desde o início a mendacidade do pseudomaterialismo. Nos parágrafos anteriores procurei mostrar que noções como as de incorporeidade, onipotência e onisciência são red herrings – oportunidades de diversão ou distração. Kant oferece um red herring especioso quando, na Crítica da razão pura, finge refutar o design inteligente (teoria que ele chama de “prova físico-teológica”): “[...] a prova poderia no máximo evidenciar um arquiteto do mundo [...], mas não um criador do mundo [...]”. (1) Bravo! Platão não pediria nada além disso! No Timeu, como sabemos, o demiurgo trabalha sobre uma matéria preexistente. Eu me recordo dos lindos universitários que, quando ficavam sabendo que a prova físico-teológica poderia no máximo demonstrar a existência de um arquiteto, mas não a de um criador do mundo, assumiam uma postura reverente e assentiam com as cabecinhas, fingindo que Kant não tinha deixado escapar o próprio fulcro da teologia.
Ao reconstruir a cena em minha mente, sinto uma mistura de repugnância e incredulidade. Como uma plateia apalermada que ouve a última sabedoria oracular de um Antônio Fagundes, ou a prédica de um padre que enumera os tenebrosos malefícios do sexo fora do casamento, os universitários achavam normal que os arrasadores argumentos de Kant atingissem apenas o conceito de um criador absoluto. A produção da biosfera? Uma ninharia que sequer merece ser mencionada. A origem das condições cósmicas primordiais? Um nada. E como não notar o fosso de inépcia que se abre quando Michel Onfray assevera que Kant dispunha de material para dinamitar a teologia? “A Crítica da razão pura propõe em seiscentas páginas o que é preciso fazer para explodir a metafísica ocidental, mas o filósofo renuncia a isso”. (2) Explodir a metafísica? Não é difícil perceber que Kant não dirigiu sequer um argumento contra o núcleo da teologia (e seria ele capaz de algum arrazoado convincente sem a ideia de conjugar o transformismo à filogênese lucreciana?). A textura interna do design inteligente, com efeito, não chega a ser nem mesmo um alvo da Crítica da razão pura.
Kant coa um mosquito e engole um camelo. (A palavra “crítica” vem do grego krinein, “separar” – donde, também, a palavra “crivo”: o latim cribrum significa “peneira” ou “coador”.) Michelangelo pintou o esplendoroso teto da Capela Sistina, mas il divino não tinha os poderes da invisibilidade, da bilocação e de materializar blocos de mármore e pigmentos ex nihilo. Ora, nem mesmo no Gênesis parece ser verdade que Deus criou sem um material preexistente:
Em vez de sugerir que o estado ‘sem forma e vazio’ da Terra surgiu depois da atividade criativa inicial de Deus, a tradução mais exata sugere uma modalidade da visão articulada na maior parte das cosmogonias do Antigo Oriente Médio e no Timeu de Platão, a saber, que nosso Universo foi criado a partir de um caos primitivo. (3)
Devemos deixar de lado, assim, como perfumarias intelectuais indignas de uma reflexão séria sobre o materialismo, os debates sobre a incorporeidade, a onipotência e a criação do estofo do mundo. De nada adianta fustigar as limitações de Michelangelo – ele sofria de dores nas articulações! – se, no final das contas, o magnífico afresco realmente saiu de suas mãos. Notemos, de qualquer forma, que a dificuldade que tantos enfrentam quando se põem a apalpar o punctum saliens do ateísmo não poderia ser menosprezada. Não raro os sedizentes “ateus” atacam adereços fúteis com o intuito de salvaguardar um cosmo reencantado – formas de hilozoísmo, panteísmo e organicismo. Prova disso é a facilidade com que marxistas e espinosistas (quando estes ignoram os detalhes da doutrina de Spinoza) abraçam modelos físicos de auto-organização. Rogo que me mostrem como um olho pode emergir de “leis de forma” inerentes à matéria (os espinosistas encantados adoram falar de origamis e fractais, ainda que eu não faça a menor ideia do real significado de suas proposições) sem a participação de um molde saturado de informações específicas. Tal é o desafio que pode ser proposto aos defensores da auto-organização.
O caráter essencial da teoria da auto-organização pode ser apreendido por meio dos seguintes esquemas contraditórios. Lactâncio atribui a Demócrito a opinião de que “[...] os homens foram gerados da terra como vermes [...]”. (4) Geração espontânea (generatio æquivoca) de formas de vida na matéria em decomposição, gênese de cristais, embriologia. Não tenho dúvida de que os marxistas e os espinosistas encantados veriam com bons olhos a proposta acima. Ao mesmo tempo, sabemos que Demócrito foi um expoente da teoria da seleção natural: a complexidade orgânica emerge de um grande número de combinações fortuitas. As duas propostas são contraditórias e podem revelar uma vacilação da parte de Demócrito, uma síntese apressada da teoria da seleção natural (na fórmula apresentada por Lactâncio, a abundância de lances fortuitos é suprimida) ou simplesmente uma deturpação. O didatismo presente na antítese, no entanto, é salutar. Para os pseudomaterialistas, o cenário em que homens emergem da terra é um cenário materialista. Não é por outro motivo que Andrew Gregory, um comentador que chancela a interpretação materialista da passagem de Lactâncio, enaltece as virtudes materialistas do evolucionismo de Anaximandro depois de identificar nessa teoria um símile da ontogênese dos tricópteros, insetos alados que se desenvolvem na água. (5) Que seja dito com toda clareza possível: o modelo embriológico da filogênese assinala o ponto exato em que a teoria da auto-organização abandona o terreno do materialismo.
É claro que o debate sobre a auto-organização na biologia evolutiva versa sobre o papel criativo da seleção natural. As mutações submetidas à seleção natural seriam pequenas mudanças acidentais ou teriam um estatuto mais vultoso? Se não passam de pequenos acidentes que são filtrados e acumulados pela seleção natural, não saímos da lógica darwiniana clássica e nada ganhamos com o discurso sobre a auto-organização; se são algo mais substancial, então os organismos, por meio de uma compulsão interna semelhante à que atua no crescimento de cristais e na embriologia, segregam estruturas que não recebem da seleção natural nenhuma contribuição propriamente formativa. Se pensamos numa sopa de letras, trata-se de descobrir, assim, se existem afinidades eletivas que favorecem certas combinações ou se uma profusão de ensaios acaba por gerar um arranjo específico.
A ideia de auto-organização das estruturas biológicas remete principalmente ao crescimento de cristais. Em cristais de sal, por exemplo, íons de cloreto e de sódio organizam-se em estruturas cúbicas e repetitivas. Tudo decorre das propriedades dos átomos envolvidos. Assim como peças de Lego, os átomos não se agregam de quaisquer maneiras; podemos também pensar em peças de brinquedo magnéticas que, quando abandonadas, geram composições que respeitam a polaridade e a forma dos ímãs (o magnetismo é uma tendência inerente à matéria!). Há alguns anos tive uma surpresa, aliás, quando notei que o óleo de coco solidificado dá origem a perfeitas formas hexagonais. Em todos esses exemplos, a ordem é gerada espontaneamente pela matéria, a partir das forças e tendências que existem em seus constituintes básicos. O que precisamos saber, no entanto, é se as estruturas biológicas poderiam emergir como cristais de neve e figuras hexagonais na matéria solidificada.
Ora, quer-me parecer que há aí uma discrepância extraordinária. Nós deveríamos crer que os Baupläne orgânicos estavam inscritos na nebulosa que deu origem ao Sistema Solar? Uma nuvem de gás conteria as instruções necessárias à confecção de um crânio dotado de órgãos sensíveis, uma boca guarnecida de dentes que se prolonga como um tubo digestivo, membros estrategicamente posicionados e órgãos sexuais que se encaixam com mais garbo do que as partes de uma sinfonia? As leis da física conteriam, aliás, os Baupläne de machos e fêmeas? Onde tamanha riqueza estaria armazenada? Uma sopa de letras contém em potência uma frase de Shakespeare (a qual pode emergir acidentalmente por meio da lei dos grandes números), assim como o arquivo digital enviado a uma impressora 3D contém em potência o modelo de uma cabeça humana. Mas os dois cenários são semelhantes? O leitor consegue perceber uma diferença?
Parece-me inevitável concluir que os teóricos da auto-organização têm de pressupor a existência de um rico acervo de informações específicas: algo como um DNA que coordena a filogênese. Matriosca, teoria da pré-formação. Ao mesmo tempo, certamente capazes de sentir um odor de trapaça, os teóricos da auto-organização desejam que os Baupläne procedam de leis simples! Longe de nós imaginar que o estofo primordial apenas regurgita bonequinhas e homúnculos! Vade-retro, teleologia miserável! Outrora foi permitido a Malebranche julgar que o espermatozoide de Adão continha em seu interior a totalidade de seus descendentes. Hoje sabemos mais! E assim os partidários da auto-organização oscilam entre a odiosa matriosca de Malebranche e a admissão de processos físicos marcadamente inócuos. Acerca dos exemplos de estruturas que costumam aparecer nas publicações sobre o fenômeno da auto-organização, Stephen Meyer repara com acerto: “[...] tais exemplos tipicamente têm um alcance extremamente modesto. Eles incluem padrões repetitivos de átomos em cristais; figuras geométricas simples; padrões de linhas, triângulos e traços; vórtices; correntes de ondas em espirais; e formas simples que deslizam através de telas de computadores”. (6)
Duas representações falsas viciam a compreensão do materialismo. Por um lado, opondo-me a uma intuição extremamente comum, sustento que um substrato incorpóreo que segrega caoticamente o mundo não contradiz o materialismo (como exemplos posso citar as leis etéreas de Alexander Vilenkin e o Deus cartesiano, uma força inextensa que produz as verdades lógico-matemáticas); por outro lado, afirmo que uma substância espacial dotada de uma estrutura irredutível contradiz o materialismo, desde que a ordem que ela apresenta assuma uma feição teleológica. Um cosmo habitado por espécies eternas, com efeito, não seria consistente com o materialismo. “Aristóteles é um eternalista. Ele pensa que o cosmo, a Terra e todas as espécies de animais e plantas que ela contém existiram desde sempre”. (7) “[...] Holbach engana-se quando crê que a origem e a transformação da raça [humana] são ‘indiferentes ao fundo da coisa’. Tudo poderia existir, assim, sub specie æternitatis materiæ [“sob o aspecto da eternidade da matéria”]”. (8) “No século 19, a maioria dos cientistas supunha que o Universo era eterno. Era então possível crer que a vida é coextensiva ao Universo tanto no espaço como no tempo. Tal era a posição defendida por Svante Arrhenius e Lord Kelvin”. (9) Com base nesses testemunhos, que o leitor procure imaginar um olho eterno e irredutível; em seguida, que procure pensar se a teoria da eternidade das espécies é compatível com o materialismo. Questão de gosto, talvez. Eu imagino uma estrutura orgânica irredutível e automaticamente concebo uma ordem teleológica que contradiz a cosmovisão que eu aprendi a chamar de “materialismo”. Eu sequer consigo distinguir uma ordem biológica irredutível de um pneuma inteligente que se mistura ao Universo (o Deus estoico). Sei que muitos sedizentes materialistas veem as coisas de outra maneira. Contra isso nada tenho a dizer, a não ser que, quaisquer que sejam os nomes dados às coisas, minha compreensão ontológica é diferente da deles. Para mim, a admissão de ordem no estrato cósmico fundamental é um atentado ao materialismo.
Talvez a seguinte declaração do físico americano Heinz Pagels possa ajudar-nos a compreender por que a existência de uma teleologia fisicalista repugna ao materialismo: “Uma das características estranhas do código cósmico é que, até onde podemos saber, o demiurgo dissolveu-se atrás do código – temos uma mensagem alienígena sem evidência de um alienígena”. (10) O código cósmico é a estrutura fundamental da natureza, o conjunto de parâmetros que inclui as leis da física e as condições iniciais do big bang – é a programação basilar do Universo. Se o leitor puder entender que, no cenário de Pagels, a remoção de um designer não favorece o materialismo, darei por cumprida minha missão nos presentes parágrafos.
Quando ouço falar de uma “mensagem alienígena sem evidência de um alienígena” (estrutura intrincada sem um arquiteto), compartilho por um momento da intuição imediata do leitor. Por muitos anos pensei que a eliminação de um designer externo fosse suficiente para a afirmação do materialismo, sem perceber que a própria matéria poderia ser dotada de uma programação intrínseca. Turvava-me o cérebro um apanhado de vieses oriundo de Feuerbach e da tradição marxista. Hoje sei que não seria nada fácil aprumar a compreensão mais difundida do materialismo científico, dada a desconfiança com que minha proposta é recebida e a naturalidade com que o corporeísmo é confundido com o materialismo. Nos Manuscritos econômico-filosóficos, Marx escreve: “A criação da Terra recebeu um golpe poderoso da geognosia, ou seja, da ciência que explica a formação da Terra e o devir da Terra como um processo, como autogeração. A generatio æquivoca é a única refutação prática da teoria da criação”. (11) Esta ladainha é suficiente para sedimentar o ateísmo científico nas mentes marxistas! Não importa se o modelo proposto é virtualmente idêntico ao desenvolvimento embrionário; não importa se o devir da Terra e a origem das espécies não se distinguem do desdobramento de uma matriosca. Basta dizer “matéria” e “devir” e o ânimo marxista está apaziguado.
Bibliografia
DAVIES, P. The Mind of God. Nova York: Simon & Schuster, 1992.
______. The Fifth Miracle. Nova York: Simon & Schuster, 1999.
DOGNIN, P.-D. Introducción a Karl Marx. Caracas: UCAB, 2004.
GREGORY, A. The Presocratics and the Supernatural. Londres: Bloomsbury, 2013.
GRIFFIN, D. R. God Exists But Gawd Does Not. Anoka: Process Century Press, 2016.
KANT, I. Crítica da razão pura. Tradução Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
MEYER, S. C. Darwin’s Doubt. Nova York: HarperOne, 2014.
NAVILLE, P. D’Holbach et la philosophie scientifique au XVIII siècle. Paris: Gallimard, 1967.
ONFRAY, M. Traité d’athéologie. Paris: Grasset, 2005.
Website:
https://www.huffpost.com/entry/6-things-aristotle-got-wr_b_5920840
Notas (Clique pra voltar ao texto)
(1) Crítica da razão pura, p. 385-386.
(2) Traité d’athéologie, p. 31.
(3) GRIFFIN, God Exists But Gawd Does Not, p. 18.
(4) The Presocratics and the Supernatural, p. 187-188.
(6) Darwin’s Doubt, p. 308-309.
(7) 6 Things Aristotle Got Wrong. Disponível nesta página. Acesso em: 20 fev. 2026.
(8) NAVILLE, D’Holbach et la philosophie scientifique au XVIII siècle, p. 264.
(9) DAVIES, The Fifth Miracle, p. 248.
(10) Apud DAVIES, The Mind of God, p. 80.
(11) Apud DOGNIN, Introducción a Karl Marx, p. 113.

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